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CPI do Crime rejeita relatório que pedia indiciamento de ministros do STF

​Com votação apertada, comissão do Senado descarta parecer de Alessandro Vieira que focava em magistrados da Corte e no Procurador-Geral da República
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Senador Alessandro Vieira (MDB-SE)
Em entrevista coletiva logo após a sessão, Alessandro Vieira não poupou críticas à articulação política e disse que houve uma interferência direta do Palácio do Planalto para alterar o resultado. Foto: reprodução/TV Senado

A CPI do Crime Organizado encerrou seus trabalhos nesta terça-feira (14) com uma decisão que expõe a divisão política no Senado. Por seis votos a quatro, os parlamentares rejeitaram o relatório final apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE). O texto sugeria o indiciamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, por crimes de responsabilidade.

​A votação ocorreu em clima de tensão após manobras de bastidores alterarem a composição do colegiado. Durante o dia, integrantes como Sérgio Moro e Marcos do Val foram substituídos por parlamentares do Partido dos Trabalhadores, garantindo à base governista o quórum necessário para a rejeição. Para o relator, o resultado foi fruto de uma ação direta do Poder Executivo.

“Abraço de afogados”, diz Alessandro Vieira

Em entrevista coletiva logo após a sessão, Alessandro Vieira não poupou críticas à articulação política. Segundo o senador, houve uma interferência direta do Palácio do Planalto para alterar o resultado.

“A decisão dos colegas pela não aprovação, após uma intervenção direta do Palácio do Planalto, com a mudança de integrantes, ela reflete apenas o atraso na pauta”, afirmou o parlamentar.

​Vieira também direcionou críticas à postura do governo federal no episódio. “Eu disse ao líder do governo, Jaques Wagner, e reafirmo para vocês publicamente, o governo escolheu atravessar a rua para dar um abraço de afogados em ministros. Eu acho que isso vai cobrar um preço significativo depois”, disparou o relator, sugerindo que o custo político da blindagem institucional será alto.

Acusações de ameaça vinda do Supremo

A relação entre os Poderes atingiu o ápice da tensão com a troca de declarações públicas entre o relator e integrantes da Suprema Corte. Durante o andamento da sessão, os ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli fizeram manifestações nas redes sociais e em plenário. Para Vieira, essas falas não foram apenas críticas técnicas, mas tentativas de intimidação sobre os senadores que votavam o relatório.

​”A análise dos ministros sempre vai merecer respeito, mas o modus operandi aí é de ameaça, de tentativa de constrangimento”, declarou o senador. Ele ressaltou que manifestações que apontam para cassação de mandato ou inelegibilidade de parlamentares em meio a uma votação interferem no processo democrático. “Eu não vim para cá para me acovardar por recado de WhatsApp de ninguém, de rede social de ninguém”, completou.

Suspeição e relações com o mercado financeiro

O relatório de 221 páginas dedicava boa parte de seu conteúdo a questionar a conduta dos magistrados. Um dos pontos centrais focava na atuação de Moraes e Toffoli em julgamentos nos quais o senador via estado de suspeição.

A argumentação baseava-se em supostas relações financeiras entre magistrados e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, além do uso de aeronaves ligadas a empresas do empresário.

​Vieira defende que o Brasil precisa de maturidade institucional para compreender que ninguém está acima da lei. “Em algum momento, o Brasil vai ter maturidade institucional para verificar a conduta de integrantes do Supremo, que são seres humanos como cada um de nós e podem cometer erros”, ressaltou. Segundo ele, o relatório foi técnico e cumpriu a obrigação de relatar fatos graves que não podem ser ignorados.

O futuro das provas e do combate ao crime

Com a rejeição do parecer, o destino das dezenas de quebras de sigilo e documentos arrecadados pela CPI se tornou incerto. O relator indicou que a decisão sobre o que fazer com esse material agora cabe exclusivamente ao presidente da comissão, senador Fabiano Contarato (PT-ES).

Vieira afirmou que não pretende apresentar denúncias isoladas agora, preferindo acompanhar as investigações em curso. ​Para o senador, embora o relatório tenha sido derrubado, o trabalho não foi em vão, pois os fatos continuam existindo.

“Os fatos seguem surgindo, muito por conta do trabalho da imprensa. E vão continuar a aparecer, porque eles existiram, eles são graves. Você não vai conseguir jogar tudo isso para debaixo do tapete, o escândalo é grande demais”, afirmou, garantindo que manterá a persistência no tema.

A “simbiose” com o crime organizado

​No centro das investigações estava a tese de que o crime organizado no Brasil atingiu um patamar empresarial. O relator sustenta que facções como o PCC operam em simbiose com o mercado financeiro formal. Vieira lamentou que o Senado tenha escolhido “fechar os olhos para essa realidade” ao rejeitar o indiciamento de cidadãos que ocupam cargos relevantes na República.

​O desfecho da CPI do Crime Organizado deixa um rastro de desgaste entre o Legislativo e o Judiciário. Alessandro Vieira concluiu afirmando que as agressões institucionais não partiram do Senado, mas de quem “enverga uma toga” e deveria manter o comedimento. Para ele, o debate foi adiado, mas não evitado: “Essa é uma pauta que pode ser adiada, mas evitada não”.

Leia também: Gilmar Mendes reage a relatório da CPI e nega base legal para indiciamentos

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