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Talentos de TI do Nordeste cruzam fronteiras salariais sem sair de casa

Profissionais brasileiros de TI, especialmente os mais experientes, estão sendo cada vez mais atraídos por empresas estrangeiras e passando a trabalhar para o exterior sem sair do país
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  1. Profissionais de TI brasileiros, especialmente os seniores, trabalham remotamente para empresas estrangeiras sem sair do país.
  2. Disparidade salarial atrai talentos: profissionais seniores ganham entre R$ 12 mil e R$ 18 mil no Brasil versus US$ 150 mil no exterior.
  3. Contratação de brasileiros por empresas internacionais cresceu 53% em 2024, com destaque para tecnologia, segundo plataforma Deel.
  4. Sergipana Lanay Marques trabalha remotamente para empresa alemã OllyGarden em DevOps e SRE, morando em Aracaju.
  5. Domínio de inglês foi fundamental para Lanay conquistar oportunidade internacional após superar barreira idiomática em tentativa anterior.
A sergipana Lanay Marques, palestrante na AWS Summit em São Paulo Foto: Rede sociais

Profissionais brasileiros de tecnologia da informação, especialmente os mais experientes, estão sendo cada vez mais atraídos por empresas estrangeiras e passando a trabalhar para o exterior sem sair do país. O movimento, impulsionado por salários mais altos, trabalho remoto e oportunidades globais, tem provocado uma crescente exportação de talentos, incluindo quem mora no Nordeste.

Dados de plataformas de mercado de trabalho como a Glassdoor indicam a forte disparidade salarial entre o Brasil e o exterior. Enquanto profissionais seniores de tecnologia no país recebem, em média, entre R$ 12 mil e R$ 18 mil mensais, posições semelhantes em empresas internacionais podem ultrapassar US$ 150 mil por ano, especialmente em polos como os Estados Unidos.

Levantamento da Deel, plataforma global de RH que simplifica a gestão de equipes internacionais, reforça essa tendência ao apontar crescimento de 53% na contratação de brasileiros por empresas estrangeiras em 2024, com destaque para a área de tecnologia.

Sergipana busca carreira global

Um exemplo desse cenário é a sergipana Lanay Marques, que mora em Aracaju e trabalha remotamente para a empresa alemã OllyGarden, especializada em observabilidade de sistemas. Aos 31 anos, ela construiu uma trajetória que reflete esse novo cenário globalizado da tecnologia. Natural de Aracaju, ela iniciou a carreira no mercado local, mas rapidamente percebeu as limitações da região para profissionais da área. A virada veio durante a pandemia, quando passou a atuar remotamente para empresas de outros estados, ampliando sua rede de contatos e experiência.

O salto internacional, no entanto, exigiu preparação. Lanay chegou a perder uma primeira oportunidade no exterior por não dominar o inglês. A partir disso, intensificou os estudos no idioma, o que se mostrou decisivo. “Esse é um dos pontos principais para trabalhar fora. Você precisa conseguir se comunicar bem”, afirma.

A oportunidade definitiva surgiu a partir de um encontro presencial em Aracaju, onde conheceu o empresário paulista Juraci Paixão Kröhling. Anos depois, já estabelecido na Europa e à frente da própria empresa, ele lembrou de Lanay ao abrir uma vaga.

Hoje, mesmo trabalhando para uma empresa com sede na Alemanha e equipe distribuída por vários países, ela segue morando em Aracaju e atuando de forma totalmente remota. “A diferença é de cinco horas. Quando aqui é meio-dia, lá já é fim de tarde. Isso impacta bastante a dinâmica de trabalho”, explica.

Na empresa, atua em DevOps e SRE (Site Reliability Engineering), em um ambiente multicultural onde o inglês é a língua principal. Apesar do ganho financeiro, ela pondera que a decisão envolve outros fatores. “Vale muito a pena financeiramente, mas existem questões como o tipo de contrato, a variação do dólar e a adaptação ao modelo internacional de trabalho”, diz.

A experiência também ampliou sua visão de mundo. Nos últimos meses, visitou países como Portugal, Holanda, Alemanha e Itália — algo que mudou sua perspectiva sobre carreira e qualidade de vida.

Bruno Quaresma trabalhando entre as calopsitas. Foto: Acervo pessoal

Do Recife para o Vale do Silício do sofá de casa

A trajetória do engenheiro de software Bruno Quaresma, de 34 anos, reforça essa realidade. Ele mora no Recife e trabalha para a empresa norte-americana Adapt, sediada em São Francisco, na Califórnia. Com cerca de oito anos de experiência em empresas estrangeiras, ele afirma que o principal atrativo inicial foi a remuneração.

“Quando comecei, mesmo com o dólar mais baixo, já ganhava o dobro do que recebia no Brasil”, relata. Hoje, atuando como engenheiro full stack com foco em front-end, ele explica que o mercado internacional é dividido entre empresas que buscam mão de obra mais barata e aquelas que oferecem condições equivalentes às praticadas nos Estados Unidos.

“As melhores oportunidades exigem mais. Você compete com talentos do mundo inteiro. O inglês e a comunicação fazem muita diferença”, afirma. Segundo Bruno, profissionais seniores podem receber entre US$ 120 mil e US$ 170 mil por ano, podendo ultrapassar US$ 200 mil em regiões como a Califórnia.

Ele também destaca benefícios como viagens internacionais pagas pela empresa — já esteve nos Estados Unidos diversas vezes a trabalho — e a flexibilidade da rotina.

Por outro lado, alerta para a disciplina exigida no trabalho remoto. “Um erro comum é não dar visibilidade do que está fazendo. É importante mostrar ao time o que está sendo produzido”, diz. Bruno reforça ainda que empresas estrangeiras tendem a priorizar profissionais mais experientes. “Elas buscam seniores porque já têm autonomia. Para júnior, é mais difícil conseguir vaga remota internacional”, explica.

Victor Yuri: mudança  para outro país não está descartada. Foto: Acervo pessoal

Novos caminhos para Victor via LinkedIn

Outro profissional que vivenciou esse movimento foi Victor Yuri Oliveira da Silva, de 27 anos. Ele trabalha com tecnologia desde os 16 e já recebeu propostas internacionais para atuar como engenheiro de plataforma, com salários entre US$ 7 mil e US$ 8 mil mensais. As abordagens vieram de empresas do Canadá, Estados Unidos e Irlanda, principalmente via LinkedIn.

Apesar disso, decidiu permanecer no Brasil naquele momento, principalmente por não se sentir seguro com o inglês. Hoje, com maior domínio do idioma, afirma que avaliaria novas propostas, embora esteja mais focado no empreendedorismo. Victor explica que o interesse internacional está ligado à combinação de alta qualificação e custo competitivo.

Um profissional que ganha cerca de R$ 15 mil no Brasil pode receber propostas entre US$ 4 mil e US$ 5 mil mensais — vantajoso para empresas e trabalhadores. Atualmente, ele mantém atuação remota, possui escritório em Alphaville (SP) e lidera projetos próprios ligados à tecnologia e inteligência artificial.

Juraci Kröhling
Juraci Kröhling, CEO da OllyGarden. Foto: Acervo pessoal

Empresas globais de olho nos profissionais de TI do Brasil

A conexão entre Lanay e a OllyGarden passa diretamente pela trajetória do empresário Juraci Paixão Kröhling, CEO da empresa.Ele deixou o Brasil em 2008, passou pela República Tcheca e, desde 2011, vive na Alemanha, onde fundou a OllyGarden em 2022, focada em monitoramento e qualidade de sistemas.

A empresa opera de forma totalmente remota, com profissionais espalhados por países como Brasil, Argentina, Itália, Suíça e Alemanha. Mesmo assim, mantém encontros presenciais periódicos na Europa. Segundo Juraci, a migração de profissionais brasileiros é motivada por um conjunto de fatores. “Não é só salário. Qualidade de vida, segurança e estrutura social pesam muito na decisão”, afirma.

O impacto no Brasil já é perceptível. O CEO da Koud, empresa especializada em alocação e recrutamento de profissionais de tecnologia, Frederico Sieck, aponta que há escassez de profissionais seniores, enquanto iniciantes enfrentam dificuldade para ingressar no mercado. Empresas estrangeiras, por outro lado, veem o Brasil como fonte estratégica de talentos qualificados com custo competitivo, intensificando a disputa global por profissionais.

Leia também: Nordeste entra no radar dos eVTOLs, mas vácuo legal ameaça rotas turísticas

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