
O desafio de consolidar um polo industrial de duas rodas fora da Zona Franca de Manaus ganha um novo e decisivo capítulo em Pernambuco. Enquanto diversos projetos na região Nordeste enfrentam dificuldades para sair do papel, a Shineray Motos do Brasil confirmou a conclusão da expansão de sua planta no Complexo Industrial Portuário de Suape para setembro deste ano. A estratégia foca em escala, eficiência logística e na aposta crescente em eletromobilidade para equilibrar o jogo contra os incentivos fiscais do Norte.
A ampliação adiciona 27 mil metros quadrados à estrutura atual, totalizando uma área fabril de 77 mil metros quadrados. O diretor da Shineray, Paulo Perez, explica que o novo espaço permitirá uma reorganização completa do fluxo industrial.
“Vamos ter um novo layout organizando melhor a operação, bem como separando a produção de elétricos e da combustão. Facilitando melhor os lançamentos de novos modelos”, afirma o executivo.
Ao Movimento Econômico, Paulo Perez esclarece que a modernização da planta é a resposta técnica para a complexidade do portfólio da marca. Ele destaca que a automação é o caminho escolhido para garantir a agilidade nas entregas.
“Hoje, temos uma gama enorme de produtos e precisamos organizar melhor a produção e a automação é o caminho”, destaca, reforçando que a expansão foca especificamente em dar autonomia às unidades elétricas, que terão linha dedicada.

Gargalo de mão de obra e infraestrutura
A operacionalização da nova estrutura, prevista para estar em pleno funcionamento em outubro, traz consigo o desafio da qualificação profissional. A projeção de contratação de 100 novos funcionários diretos e 160 indiretos permanece mantida.
Atualmente, a equipe de construção civil domina o canteiro, mas a transição para as equipes de montagem e mecânica esbarra em um obstáculo comum ao setor industrial: a escassez de técnicos.
“Existe em todos os setores um apagão enorme de mão de obra e principalmente qualificada”, revela o executivo. Para contornar o problema, ressalta ele, a montadora aposta em parcerias estratégicas com instituições de tecnologia e ensino técnico, como o Senai e o Cesar. O objetivo, acrescenta, é preparar os novos colaboradores para lidar com o processo industrial mais automatizado que a nova planta exige.
Além do capital humano, o sucesso da operação em Suape depende diretamente de melhorias na malha viária do estado. O diretor da Shineray aponta que, embora a localização de Pernambuco seja privilegiada, gargalos históricos precisam de solução. Ele cita projetos como o Arco Metropolitano, a conclusão da Transnordestina e a duplicação da BR-232 até Belo Jardim como fundamentais para o sucesso logístico da companhia.
A guerra fiscal contra a Zona Franca
Apesar do otimismo com a infraestrutura local, o tom de Perez se torna crítico ao abordar o cenário tributário. O empresário vê um desequilíbrio perigoso na Reforma Tributária, que, segundo ele, privilegiou Manaus em detrimento dos investimentos no Nordeste.
Para o diretor, a manutenção competitiva da Shineray em Suape é uma prova de resiliência diante do que chama de “discrepância” fiscal. “A posição logística e a eficiência operacional de Suape nos ajuda a sermos competitivos, o grande desafio é manter-se competitivos com o fim dos incentivos do Nordeste e o aumento dos incentivos da Zona Franca. Essa na nossa opinião é um dos absurdos aprovados nessa reforma que precisam urgentemente serem corrigidos”, desabafa.

Ele prevê que, sem ajustes, a região pode sofrer uma evasão industrial para o Norte e defende a judicialização do tema por meio das federações de indústria. A inviabilidade econômica de produzir com menos incentivos que a concorrência direta é a maior preocupação do setor no momento.
“Não tem como acabar com os incentivos do Nordeste e crescer o da Zona Franca, esse desequilíbrio não é salutar e muito menos justo”, reforça o executivo, convocando a mobilização de parlamentares nordestinos para reduzir a desigualdade fiscal que penaliza quem decide empreender na região.
Futuro flex e eletromobilidade
Olhando para o mercado consumidor, que no Nordeste já representa o principal motor de vendas do país, a Shineray planeja que sua produção acompanhe a vocação energética local. Além da linha exclusiva para motos elétricas que a ampliação trará, a empresa já projeta o desenvolvimento de tecnologias que utilizem o etanol, combustível abundante em Pernambuco.
“Nós acreditamos demais tanto nessa linha elétrica, como na combustão a etanol. O próximo desafio é que todos os modelos a combustão sejam flex. Não faz sentido uma montadora em um estado produtor de etanol, não olharmos esse combustível em um futuro bem próximo”, projeta Perez.
Mesmo diante das incertezas fiscais, a mensagem final de quem comanda a operação é de incentivo ao empreendedorismo em solo pernambucano. Paulo Perez destaca a facilidade de adaptação da mão de obra local como um diferencial competitivo que supera muitos obstáculos.
“Vale muito a pena investir em Pernambuco, a mão de obra aqui se adapta bem e aprende rápido”, conclui o diretor, sinalizando que a entrega de setembro é um compromisso firmado com o desenvolvimento do estado.
Leia também: Acordo Mercosul-UE abre mercado para exportadores do NE na Europa










