
A possibilidade de exportar até 100 mil cabeças de gado por ano colocou a pecuária do Rio Grande do Norte diante de um novo horizonte de crescimento. A estimativa é da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Pesca do Estado (Sape), que vê na recente habilitação do Porto de Natal para embarques de animais vivos uma oportunidade para ampliar mercados. A expectativa é que a primeira operação de exportação de gado vivo ocorra entre o fim de julho e o início de agosto.
Segundo o secretário de Agricultura, Pecuária e Pesca, Guilherme Saldanha, a meta é que o estado conquiste gradualmente espaço em um mercado global que movimenta entre 5 milhões e 6 milhões de bovinos por ano e que tem nos países árabes e muçulmanos seus principais compradores.
“Se a gente abocanhar 10% desse mercado, de repente vai estar mandando algo em torno de 100 mil cabeças”, afirmou o secretário.
A exportação de gado vivo é vista pelo governo estadual como uma ferramenta para impulsionar a pecuária de corte potiguar, especialmente em um estado que não conta com grandes frigoríficos privados.
“Hoje o criador de boi daqui sofre para vender sua produção. Muitas vezes tem 200 bois e não encontra comprador com facilidade. Esse é o grande atrativo para o Rio Grande do Norte”, disse Saldanha.
Cadeia produtiva do gado ganha novo estímulo
O projeto começou a ser estruturado há cerca de um ano e meio, período em que o governo estadual trabalhou para adequar propriedades rurais e obter as autorizações necessárias junto ao Ministério da Agricultura.
Um dos principais desafios foi convencer produtores a adaptarem suas fazendas para funcionar como Estações de Pré-Embarque (EPEs), estruturas responsáveis pela quarentena sanitária dos animais antes da exportação.
Atualmente, o estado possui uma EPE apta a operar comercialmente, com capacidade para receber até 3.500 bovinos e possibilidade de ampliação para 5 mil animais. Outras duas unidades estão em processo de habilitação.
A expectativa é que a maior parte do rebanho exportado seja adquirida dentro do próprio Rio Grande do Norte, fortalecendo a economia local. “Nosso objetivo é incentivar essa cadeia produtiva aqui no estado. Inclusive colocando a agricultura familiar dentro do processo, comprando animais de pequenos produtores, que também enfrentam dificuldades para comercializar seus rebanhos”, destacou Saldanha.
No entanto, mercados de estados vizinhos também podem ser beneficiar, pois as EPEs podem estar localizadas num raio de até 500 km do porto exportador.
Vantagem logística pode atrair compradores
Além da abertura de mercado, o governo aposta na localização geográfica do Rio Grande do Norte como diferencial competitivo. O secretário avalia que a posição estratégica do estado reduz significativamente o tempo de viagem para os países importadores quando comparada a portos do Sul e Sudeste.
“Estamos literalmente na esquina do mundo. Dependendo da origem da carga, o navio pode economizar entre seis e vinte dias de viagem. Isso gera uma redução de custos importante para os importadores”, afirmou.
Segundo ele, a economia é ainda mais relevante porque os navios especializados no transporte de animais operam praticamente sem carga de retorno, tornando cada dia de navegação um fator decisivo para a rentabilidade da operação.
Potencial para movimentar milhares de animais
O Brasil responde hoje por 24% do comércio de gado vivo no mundo, segundo dados da consultoria Athenagro, com base nos dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior). Em o Brasil superou a marca de 1 milhão de gado vivo exportado, somando US$ 1 bilhão em negociações. Em quantidade, o número representa 26% a mais do que em 2024.
O país exportou cerca de 1,05 milhão de animais em 2025 e pode encerrar este ano com algo entre 1,6 milhão e 2 milhões de cabeças embarcadas. Nesse cenário, o Rio Grande do Norte pretende conquistar uma fatia desse mercado.
“Se conseguirmos abocanhar 10% desse volume nos próximos anos, poderemos chegar a algo em torno de 100 mil cabeças exportadas anualmente”, projetou. A estimativa considera uma operação gradual, iniciada com embarques de aproximadamente 3.500 animais por viagem.
Embora os primeiros negócios estejam voltados para bovinos, o governo já identifica oportunidades em outros segmentos da pecuária regional. Durante visitas de importadores estrangeiros ao estado, chamou atenção a demanda por ovinos e caprinos, produtos bastante consumidos em países do Oriente Médio.
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