
O avanço das vendas de carros elétricos no Nordeste começa a produzir efeitos concretos nas cidades e, especialmente, dentro dos condomínios. Com a ampliação da frota na região, cresce também a demanda por pontos de recarga, pressionando edificações residenciais e comerciais a adaptarem suas estruturas elétricas.
Esse movimento, que ainda está em fase de expansão, já mobiliza síndicos, construtoras e órgãos públicos diante do novo desafio urbano de preparar os espaços com segurança e atendendo a normas técnicas para uma tecnologia que se consolida rapidamente.
Em Pernambuco, o Corpo de Bombeiros passará a aplicar, a partir de julho, novas regras para a instalação de sistemas de recarga, com exigências específicas voltadas à segurança, especialmente em condomínios. A medida reflete uma preocupação crescente com os riscos associados às baterias de íon-lítio e estabelece um novo padrão técnico para edificações que desejam acompanhar o avanço da eletromobilidade.
Nordeste: polo de crescimento de carros elétricos
Esse avanço já pode ser mensurado. Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) mostram que o Nordeste vem consolidando sua posição como um dos principais polos de crescimento da eletromobilidade no país. Entre 2024 e 2026, a Bahia lidera o ranking regional de vendas acumuladas, com 18.164 unidades comercializadas, seguida por Pernambuco, com 15.027, e Ceará, com 11.867.
Na sequência aparecem Alagoas (7.360), Rio Grande do Norte (6.642), Paraíba (5.715), Maranhão (5.152), Piauí (4.148) e Sergipe (3.447), formando um mapa que revela a expansão do consumo para além dos maiores centros, ainda que com forte concentração nas capitais.
O dado mais revelador, no entanto, está na velocidade desse crescimento. Entre 2024 e 2025, Pernambuco registrou alta de 55,1%, enquanto a Bahia cresceu 44,1% e o Ceará avançou 39,2%. Estados com menor base de comparação tiveram saltos ainda mais expressivos, como a Paraíba, com crescimento de 64%, e Sergipe, com 45,3%.
Para o ano de 2026, a tendência é de crescimento. Apenas no primeiro trimestre, foram vendiadas 14.921 unidades no Nordeste, o que representa 40,8% do volume de vendas de 2025.

Novo consumidor e mudança de hábitos
No cotidiano, esse avanço se traduz em novas formas de consumo e de relação com o automóvel. A professora universitária Cecília Almeida representa esse novo perfil de consumidor urbano que passa a incorporar a eletromobilidade à rotina.
“Teve uma palavra mágica, que foi a isenção do IPVA aqui em Pernambuco. Isso pesou muito na decisão. Mas, depois que você começa a usar, percebe que a economia vai muito além disso”, afirma. Ela relata que a mudança no custo operacional foi determinante. “Eu gastava quase R$ 200 por tanque de gasolina. Hoje, gasto menos de R$ 60 para carregar. É muito menos da metade”, compara.
O novo veículo também requer mais planejamento. “Não é simplesmente abastecer e seguir. Você pensa onde vai carregar, quanto vai rodar. Isso muda a forma de usar o carro, mas não é algo negativo, é uma adaptação”, explica.
A rotina de recarga, inclusive, passa a ser integrada ao cotidiano. “Eu aproveito muito quando estou no trabalho, na universidade, onde tem carregador. Também já sei onde tem pontos pagos e gratuitos perto de casa. Isso vira parte da logística do dia a dia”, diz.
Ao mesmo tempo, Cecília aponta limites ainda presentes, especialmente fora dos grandes centros. “Para viagens longas, ainda é mais complicado. Eu escolhi o carro sabendo disso, porque meus deslocamentos são mais curtos. Mas para quem precisa viajar muito, ainda tem limitações”, avalia.
Infraestrutura pressiona condomínios e expõe gargalos
Se para o consumidor a adaptação é gradual, para os condomínios ela se torna urgente. A ausência de infraestrutura adequada em prédios antigos tem sido um dos principais entraves para a expansão da mobilidade elétrica.
Cecília vive essa realidade. “No meu prédio não tem ponto de recarga. A gente chegou a estudar instalar um wallbox, mas a fiação é antiga e o custo seria muito alto. Então optamos por uma solução mais simples, com uma tomada de 20 amperes”, relata.
A situação ilustra um desafio recorrente, com a inadequação da infraestrutura elétrica existente. Segundo Martha Ponzi, vice-diretora do Secovi-PE, essa é hoje a principal fonte de dúvidas e conflitos nos condomínios.
“Carro elétrico virou o assunto da vez entre os síndicos. As pessoas chegam cheias de dúvidas: como instalar, quem paga, se o prédio suporta. É uma demanda nova para a qual muitos condomínios não estavam preparados”, afirma.
Ela destaca que a discussão vai além da técnica e envolve decisões coletivas. “A primeira reação em assembleia é sempre questionar o custo. ‘Eu não tenho carro elétrico, por que vou pagar?’ Mas a adequação da estrutura é do condomínio. Isso precisa ficar claro”, esclarece.
Outro ponto crítico é a capacidade energética. “Os prédios não foram projetados para isso. Em alguns casos, é preciso limitar horários de recarga, evitar uso no horário de pico ou até investir em aumento de carga”, explica.
Martha relata que situações de sobrecarga já começam a aparecer. “Tem condomínio em que, a partir do terceiro carro elétrico, o sistema já começou a apresentar falhas. Isso mostra que não é uma questão futura, é um problema que já está acontecendo.”
Mesmo assim, a adesão ainda é relativamente baixa. “Na maioria dos condomínios, não chega a 10% os moradores que possuem carro elétrico. Mas basta um para que a discussão comece e a adequação se torne necessária”, pontua.

Nova norma do Corpo de Bombeiros amplia exigências
O avanço da eletromobilidade também trouxe à tona preocupações com segurança, especialmente relacionadas às baterias de íon-lítio. Em Pernambuco, isso resultou na criação da Norma Técnica nº 17, que entra em vigor em julho. As regras foram elaboradas em cada estado de acordo com uma padronização nacional.
Segundo o coronel Leonardo Rodrigues, diretor integrado especializado do Corpo de Bombeiros de Pernambuco, a norma estabelece um novo padrão de segurança e que as exigências variam conforme o tipo de garagem. “Nas garagens internas, será obrigatório instalar chuveiros automáticos, sistemas de detecção e alarme e pontos de desligamento de energia. Já nas externas, as exigências são mais simples, mas ainda incluem sinalização e dispositivos de corte”, diferencia.
O objetivo, segundo ele, é reduzir riscos e aumentar o tempo de resposta em caso de incêndio. A aplicação da norma será gradual. A partir de 1º de julho, todas as edificações novas que solicitarem licença de construção em Pernambuco já terão que apresentar o projeto de acordo com as novas normas.
Para os prédios já existentes ou que estejam em fase de construção, a adequação passará a ser exigida na renovação do atestado de vistoria do Corpo de Bombeiros, renovado a cada três anos. Ou seja, se um condomínio já tiver o ponto de recarga instalado e for vistoriado recentemente, ele terá que se adequar na próxima vistoria. “É nesse momento que o condomínio será orientado a se adequar”, explica o coronel.
Ele também faz um alerta sobre instalações informais. “A gente orienta que ninguém instale ponto de recarga sem avaliação técnica. É preciso verificar a capacidade elétrica e seguir as normas. A segurança tem que vir em primeiro lugar”, recomenda.
A orientação é os condomínios contratem um especialista para verificar as condições da rede elétrica. “É preciso ver se a rede instalada para aquele prédio tem capacidade de absorver mais uma carga extra de energia sem o risco de colapso. Para isso, é preciso um laudo técnico assinado por um engenheiro responsável”, explica.
Além da adequação elétrica, os pontos de recarga dos carros elétricos devem ter sinalização própria, de acordo com o local onde estão instalados (garagem interna ou externa) e tipo de carregador usado. O mesmo vale para os quadros de energia.
Construção civil se antecipa e redesenha projetos para carros elétricos
Diante desse cenário, o setor da construção civil começa a se reposicionar. Novos empreendimentos já incorporam a infraestrutura de recarga desde a concepção, antecipando uma demanda que tende a crescer.
Segundo Elaine Albuquerque, diretora da Ademi-PE, as mudanças trazidas pelas normas de segurança refletem uma preocupação crescente com os riscos associados à instalação de pontos de recarga em garagens, sobretudo em ambientes fechados.
De acordo com ela, o principal foco das novas exigências está na prevenção e no controle de incêndios. A medida, segundo Elaine, busca evitar improvisações ainda comuns em condomínios. “Tem gente que simplesmente instala uma tomada na vaga e começa a carregar o carro, sem qualquer estrutura adequada. Isso representa um risco que precisa ser tratado com seriedade”, adverte.
Ele ressalta que, nos casos em que a garagem não conta com esses sistemas, a adequação passa a ser obrigatória e depende de decisão coletiva. “Se não há sprinkler instalado, por exemplo, o condomínio vai precisar deliberar em assembleia para implementar. Não é mais uma escolha individual, é uma questão de segurança da edificação como um todo”, afirma.
Outro ponto de atenção está na resistência estrutural das edificações. “As novas regras também exigem que a estrutura do prédio tenha resistência ao fogo de, no mínimo, 120 minutos. É uma forma de garantir mais tempo de resposta em situações de emergência”, afirma.
Diante dessas mudanças, o setor já começa a se movimentar. “Tem empresa correndo para protocolar projetos antes da entrada em vigor das novas regras, tentando evitar parte dessas exigências. Mas a orientação da Ademi é clara: a norma está valendo e precisa ser seguida”, conclui Elaine.
Para Patriolino Dias de Sousa, presidente do Sinduscon Ceará, essa mudança é estrutural. “Não se trata apenas de instalar pontos de recarga. Estamos falando de uma nova lógica de projeto, que envolve energia, segurança e estrutura”, afirma.
Segundo ele, o movimento já é visível, especialmente em imóveis de médio e alto padrão. “Os empreendimentos mais novos já estão sendo entregues preparados para isso. E a tendência é que se torne padrão nos próximos anos.”
Essa antecipação também responde a uma mudança de expectativa do consumidor. “Hoje, quem compra um imóvel já começa a considerar se o prédio está preparado para carro elétrico. Isso passa a ser um diferencial competitivo”, acrescenta.
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