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Canela Preta: assentados viram guardiões da raça rústica nordestina

Reconhecida como patrimônio histórico, cultural e genético do Piauí, a Canela Preta chega a chega a cinco assentamentos sergipanos com o objetivo de gerar renda e ampliar presença de ave no semiárido
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  1. Assentados sergipanos recebem capacitação para criar galinha Canela Preta, raça rústica originária do Piauí.
  2. Raça produz mais de 200 ovos por ciclo e carcaça acima de 2,5 kg, atendendo pequeno produtor.
  3. Embrapa e Incra distribuem pintinhos selecionados, chocadeiras e minifábricas de ração em cinco assentamentos sergipanos.
  4. Canela Preta adapta-se ao Semiárido, suporta altas temperaturas e reduz custos com alimentação no sistema extensivo.
  5. Projeto visa capacitar 80 famílias como guardiãs da raça e expandir criação para agricultores não assentados.
A agricultora Maria Selma Silva, do assentamento Emilia Maria, em São Cristóvão, é uma das guardiãs formadas pelo projeto. Foto: Incra/SE
A agricultora Maria Selma Silva, do assentamento Emilia Maria, em São Cristóvão, é uma das guardiãs formadas pelo projeto. Foto: Incra/SE

Uma galinha com canelas pretas, ovos nas cores marrom, vermelha, azul e verde e produção iniciada a partir dos seis meses de idade começa a ganhar espaço nos assentamentos de reforma agrária de Sergipe. A Canela Preta, raça caipira originária do Piauí e reconhecida como patrimônio histórico, cultural e genético daquele estado, é o centro do projeto executado pela Embrapa Semiárido em parceria com o Incra em cinco assentamentos sergipanos, com previsão de capacitar 80 famílias como guardiãs da raça, 64 delas concentradas no assentamento Emília Maria.

Financiado por emenda parlamentar via Termo de Execução Descentralizada (TED), o projeto distribui pintinhos selecionados, chocadeiras e minifábricas de ração, com acompanhamento semanal da Embrapa, e tem como meta ampliar a criação da raça para além das áreas de assentamento, alcançando agricultores familiares não assentados.

A Canela Preta foi identificada em 2008 pelo pesquisador Marcos Jacob de Oliveira Almeida, da Embrapa Meio-Norte, no município de Curral Novo do Piauí e localidades circunvizinhas. A raça é caracterizada por crista rudimentar, olhos em tons vermelho-alaranjado, amarelo ou pardo, bico amarelo ou escuro, penas nas canelas de coloração predominantemente preta e plumagem preta com pescoço chuvilhado de branco, dourado ou vermelho. Os machos são maiores, mais pesados e de plumagem mais colorida que as fêmeas, característica que facilita a seleção de reprodutores.

A raça une duas características valorizadas pelo pequeno produtor: elevada produção de ovos, acima de 200 por ciclo, e boa conformação de carcaça, podendo ultrapassar 2,5 kg na fase adulta. “O produtor consegue aproveitar tanto o ovo quanto a carne, diferente de linhagens voltadas apenas à postura”, explica o pesquisador da Embrapa Rafael Dantas, responsável técnico pelo projeto em Sergipe. O município de Queimada Nova (PI) é considerado o berço da raça e sua capital oficial, com a criação presente em pelo menos 49 municípios piauienses.

galinha Canela Preta projeto Embrapa assentados Sergipe
As galinhas Canela Preta adquirem peso médio de comercialização a partit dos seis meses de vida e põem ovos em tons de coloração marrom, azul, vermelha e verde, em suas variadas tonalidades. Foto: Instagram/Incra-SE

Canela Preta é raça adaptada ao Semiárido

A rusticidade da Canela Preta é um dos principais atributos que sustentam a aposta no bioma. A ave pode ser criada em três sistemas — intensivo, semi-intensivo e extensivo —, atingindo peso de comercialização entre o sexto e o oitavo mês conforme o manejo adotado. No sistema extensivo, a alimentação é suplementada apenas com milho, reduzindo significativamente o custo de produção. A ave suporta altas temperaturas, apresenta boa resistência sanitária e se adapta ao sistema caipira com uso de alimentos alternativos, dispensando insumos de alto custo.

A iniciativa em Sergipe articula, além de Incra e Embrapa, a Universidade Federal de Sergipe (UFS), com quem o Incra assinou convênio via Pronera para criação do curso de Medicina Veterinária no Campus do Sertão, voltado ao fortalecimento de áreas de reforma agrária. O evento de apresentação dos resultados da fase anterior do projeto ocorreu em 28 de novembro de 2025 no Campo Experimental da Embrapa em Nossa Senhora da Glória (SE), reunindo autoridades, pesquisadores, produtores e representantes de movimentos sociais.

Guardiões da raça e expansão para agricultores familiares

O modelo adotado posiciona os próprios agricultores assentados como agentes de conservação genética. A operação de multiplicação ocorre em escala contínua: são incubados 100 ovos por semana, com os pintinhos distribuídos progressivamente entre as famílias beneficiadas. Após a capacitação, os guardiões são responsáveis por reproduzir a raça internamente e, futuramente, distribuí-la para fora das comunidades.

A iniciativa tem foco na inclusão das mulheres na atividade — que demanda baixos investimentos, oferece boa lucratividade e contribui para a segurança alimentar. Maria Rosileide Cardoso, primeira guardiã do projeto, relata que conseguiu ampliar sua criação com o apoio da Embrapa: “Hoje sou guardiã e para mim é muito satisfatório poder preservar essa raça e conseguir multiplicar para que eles possam levar para os assentamentos e fazer a divisão para que outras famílias também tenham a oportunidade de criar.”

Para ampliar o alcance do projeto, a Embrapa integrou ao trabalho institutos federais de educação de Sergipe e a Escola Família Agrícola, que opera em regime de alternância. “Essas escolas têm muitos filhos de famílias agricultoras, de assentados, e é uma forma deles, através da educação, multiplicar a galinha de capoeira”, explica a pesquisadora Cristiane Otto de Sá, da Embrapa. A difusão do sistema de produção sustentável por meio dessas instituições garante a transmissão do manejo entre gerações e amplia a base de criadores sem depender exclusivamente das estruturas de assentamento.

A atuação da Embrapa com a Canela Preta em Sergipe iniciou-se no projeto Lagos do São Francisco, que distribuiu pintinhos e ração a produtores do Alto Sertão sergipano. Em projeto anterior de maior escala, a Embrapa Semiárido atendeu produtores em Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia, com meta de beneficiar 600 famílias em 11 municípios. “Hoje trabalhamos com avaliação nutricional, sanidade, manejo alimentar e outras ações além da multiplicação de animais. Nosso objetivo é consolidar a raça como referência para o produtor rural sergipano”, afirma Rafael Dantas.

*Com informações da Embrapa e do Incra-SE

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