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Do saber ancestral à patente: licuri conecta mulheres do Catimbau à bioeconomia

Produção de derivados do licuri une preservação ambiental, cultura local e geração de renda no Vale do Catimbau
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  1. Cooperativa de Produção do Vale do Catimbau reúne 30 mulheres transformando licuri em diversos produtos artesanais.
  2. Licuri, fruto ancestral dos povos originários, representa identidade cultural e fonte de renda para comunidades da região.
  3. Produtos derivados incluem óleos, sabonetes, biojoias, artesanato em madeira, mel, licores e itens trançados com palha.
  4. Extrativismo sustentável garante preservação da espécie e manejo adequado das palmeiras no Parque Nacional do Catimbau.
  5. Presidente da cooperativa destaca aproveitamento integral do fruto, respeitando conhecimento ancestral e práticas ambientalmente responsáveis.
Coquinho do licuri carrega ancestralidade dos povos originários do Vale do Catimbau e hoje gera renda e oportunidades para grupo de mulheres da região - Foto: YouTube/Reprodução
Coquinho do licuri carrega ancestralidade dos povos originários do Vale do Catimbau e hoje gera renda e oportunidades para grupo de mulheres da região – Foto: YouTube/Reprodução

O licuri, ou ouricuri, como é mais conhecido em Pernambuco, já foi alimento de sobrevivência para povos indígenas que habitavam o território onde hoje conhecido como Vale do Catimbau. Séculos depois, o pequeno coco da caatinga continua sustentando vidas, mas agora como fonte de renda, identidade cultural e empoderamento feminino.

No município de Buíque, a Cooperativa de Produção do Vale do Catimbau (COOP Catimbau) vem transformando o fruto nativo em óleos, sabonetes, biojoias, artesanato e alimentos, criando oportunidades para dezenas de mulheres da região.

Esta é a terceira matéria da série de reportagens “Descobrindo o Vale do Catimbau”, do portal Movimento Econômico. Na primeira matéria, apresentamos o projeto de capacitação de negócios locais da cadeia o turismo por parte do Sebrae. Já na segunda matéria, mostramos como a trajetória da Vinícola Rupestre e como a produção de vinho pode incrementar os negócios da região.

A história da COOP Catimbau se confunde com a trajetória de resistência de suas integrantes. Fundada em janeiro de 2024, a organização reúne atualmente 30 mulheres de diferentes comunidades espalhadas pelo Vale do Catimbau. Em junho de 2025, elas inauguraram uma loja no povoado do Catimbau, onde passaram a comercializar produtos produzidos artesanalmente pelas cooperadas.

Para a presidente da cooperativa, Simone Florêncio de Moura, o fruto representa muito mais do que uma atividade econômica. “O coco de ouricuri representa a nossa ancestralidade, a força e a fonte de alimento de muitas famílias que sobreviveram na época da seca. O que nossos ancestrais utilizavam para sobreviver, hoje a gente transforma em fonte de renda”, afirma.

Segundo ela, o conhecimento sobre o aproveitamento integral do fruto atravessou gerações. Os indígenas utilizavam o óleo, o leite extraído da amêndoa, a farinha produzida a partir dos resíduos e até o palmito da palmeira. “Hoje a gente trabalha com respeito ao meio ambiente e à palmeira que salvou tantas vidas”, resume.

Além dos produtos derivados do licuri, a cooperativa comercializa mel, licores, artesanato em madeira e biojoias produzidas com sementes e cascas do fruto. Simone, por exemplo, confecciona colares, anéis e brincos utilizando o coco do ouricuri. Sua tia produz chapéus, bolsas e cestas trançadas com a palha da palmeira.

Extrativismo sustentável do licuri

Diferentemente de regiões onde o licuri é cultivado em maior escala, no Vale do Catimbau a matéria-prima ainda é obtida principalmente por meio do extrativismo sustentável. As palmeiras estão espalhadas pelo Parque Nacional do Catimbau e a coleta segue critérios de manejo para garantir a preservação da espécie e a alimentação da fauna local.

Apesar dos avanços, Simone acredita que ainda há um longo caminho para ampliar a competitividade dos produtos. “As mulheres sabem fazer. O que precisamos é de um olhar diferenciado, de cursos e consultorias em cima do que já sabemos produzir, para agregar valor e alcançar mercados maiores”, defende.

A Cooperativa de Produção do Vale do Catimbau é responsável de diversos itens a partir do licuri, como bolos, cocadas, doces, óleos, licores e sabonetes – Foto: Divulgação

Estrutura para crescer no Vale do Catimbau

O fortalecimento da cadeia produtiva do licuri em Buíque conta com o apoio do Sebrae Pernambuco e da Prefeitura de Buíque. A especialista em Turismo e Economia Criativa do Sebrae/PE, Gerlane Melo, explica que a cooperativa surgiu a partir de estudos realizados pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que identificaram semelhanças entre o potencial do licuri no Catimbau e o modelo desenvolvido na Bahia.

Segundo ela, o Sebrae já promoveu capacitações e articulou uma visita técnica das cooperadas à Bahia para conhecer experiências bem-sucedidas. “A ideia agora é avançar nas consultorias de beneficiamento, boas práticas e rotulagem quando todo o maquinário estiver instalado e funcionando”, explica.

A infraestrutura para esse novo salto está em fase final de implantação. De acordo com a secretária da Mulher de Buíque, Santina Carvalho, o espaço cedido pela prefeitura para a cooperativa passa por obras de adequação e deverá ser concluído em breve.

“É a realização de um sonho de mais de dez anos. O local foi planejado para receber os equipamentos e permitir todo o processo de beneficiamento, produção e comercialização dos produtos à base do licuri”, afirma.

A Cooperativa também recebeu equipamentos adquiridos por meio de um projeto aprovado pela Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), coordenado pela UFPE, que permitirão que as cooperadas avancem da produção artesanal para um processo mais estruturado de extração e beneficiamento do fruto.

Atualmente, as máquinas aguardam a conclusão das obras do espaço cedido pela Prefeitura de Buíque. A expectativa é que, com a entrada em operação dos equipamentos, as mulheres possam ampliar a produção de óleo, sabonetes e outros derivados, além de receber capacitações específicas sobre boas práticas, rotulagem, manejo e uso do maquinário.

Ciência transforma saber ancestral em inovação

Equipe de cerca de 30 pesquisadores do departamento de Bioquímica da UFPE desenvolvem pesquisas a partir de conhecimentos ancestrais do trabalho das mulheres do Vale do Catimbau com o licuri – Foto: Divulgação

Por trás da organização da cooperativa e da valorização do licuri no Vale do Catimbau existe um trabalho de pesquisa científica que vem sendo desenvolvido desde 2019 pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A equipe conta com cerca de 30 pesquisadores. O projeto busca unir o conhecimento tradicional das comunidades da Caatinga à ciência, criando oportunidades de geração de renda a partir do uso sustentável da biodiversidade regional.

A professora Márcia Vanuza da Silva, do Departamento de Bioquímica da UFPE e vice-coordenadora do projeto Cadeia Produtiva do Licuri, explica que o trabalho começou a partir de levantamentos realizados junto às comunidades locais, especialmente com mulheres detentoras de conhecimentos transmitidos por gerações sobre as propriedades das plantas nativas.

“Nosso interesse é estudar o potencial da flora da Caatinga alinhado aos conhecimentos tradicionais para o desenvolvimento de arranjos produtivos locais. A temática principal é geração de renda para mulheres”, afirma.

Foi justamente a partir dos relatos das moradoras sobre o uso medicinal do óleo de licuri que a universidade decidiu aprofundar os estudos sobre o fruto. Tradicionalmente utilizado para tratar inflamações e auxiliar na cicatrização de feridas, o óleo teve suas propriedades comprovadas em laboratório, abrindo novas perspectivas para sua aplicação na área da saúde.

“As mulheres utilizavam o óleo para cicatrização e inflamação. Trouxemos esse conhecimento para a universidade e comprovamos que ele é um potente anti-inflamatório”, destaca a pesquisadora.

Licuri Vale do Catimbau - Foto: Divulgação
Além da ação anti-inflamatória e cicatrizante, os cientistas investigam possíveis propriedades neuroprotetoras e antitumorais do licuri. Foto: Divulgação

Patente compartilhada

Os resultados deram origem a uma patente compartilhada entre a UFPE e organizações extrativistas da Bahia e colocaram o licuri no radar da bioeconomia nacional. Hoje, uma das frentes mais promissoras da pesquisa investiga o uso do óleo no tratamento de feridas de difícil cicatrização, especialmente em pacientes diabéticos.

“Nossa intenção é que esse óleo possa chegar ao Sistema Único de Saúde. O Brasil importa grande parte dos óleos utilizados em curativos, enquanto temos uma espécie exclusivamente brasileira com excelente potencial cicatrizante”, ressalta Márcia.

A pesquisa também avança em outras áreas. Além da ação anti-inflamatória e cicatrizante, os cientistas investigam possíveis propriedades neuroprotetoras e antitumorais do licuri, ampliando o conhecimento sobre o potencial farmacêutico das espécies nativas da Caatinga. Para chegar ao uso clínico em larga escala, no entanto, ainda será necessária uma nova etapa de estudos com pacientes humanos, considerada a fase mais complexa e custosa do projeto.

Para Márcia, o licuri representa um modelo de desenvolvimento alinhado às características do semiárido. Por ser uma espécie nativa, adaptada às condições da Caatinga e resistente às secas recorrentes, seu aproveitamento econômico contribui para preservar a vegetação e reduzir a pressão por atividades que provocam degradação ambiental.

“Não se trata de substituir a Caatinga, mas de promover o desenvolvimento a partir dela. O licuri pode gerar renda, conservar a biodiversidade e ainda contribuir para a saúde da população”, conclui.

Na Bahia, cultura do licuri é comandada por mulheres e pela agricultura familiar – Foto: Associação Licuri/Divulgação

Aprendizados com o licuri produzido na Bahia

Se em Pernambuco a cadeia produtiva do licuri ainda dá os primeiros passos, na Bahia o fruto já se consolidou como uma importante fonte de renda para centenas de famílias do semiárido. Em municípios como Várzea da Roça, Capim Grosso, Caldeirão Grande, Antônio Gonçalves e áreas da Chapada Diamantina, a exploração sustentável da palmeira movimenta associações e cooperativas que há décadas trabalham no beneficiamento do fruto e na preservação dos licurizais.

De acordo com Joilma Reis Rios, presidente da Associação dos Produtores e Defensores de Ouricuri do Município de Várzea da Roça, a produção regional ultrapassa 20 toneladas por safra, sendo a agricultura familiar a principal responsável pela conservação das áreas de ocorrência da espécie.

Segundo ela, diferentemente das grandes propriedades rurais, onde historicamente muitos licurizeiros foram derrubados para a formação de pastagens, são os pequenos produtores e extrativistas que mantêm a cultura viva. “A maior produção ainda está concentrada na agricultura familiar, porque são essas famílias que preservam os licurizeiros”, afirma.

As mulheres ocupam papel central nessa cadeia produtiva. Joilma estima que mais de 90% das atividades ligadas ao aproveitamento do fruto sejam realizadas por elas, desde a coleta e quebra do coco até a produção de alimentos, cosméticos e artesanato. O conhecimento acumulado ao longo das gerações permitiu o desenvolvimento de uma impressionante diversidade de produtos derivados do licuri.

“Só de cocada nós já experimentamos mais de 30 variações. Quando somamos todas as receitas e produtos desenvolvidos pelas mulheres, passamos de duas centenas de iguarias alimentares diferentes à base de licuri”, destaca.

Além de cocadas, bolos, biscoitos, granolas e pães, o fruto faz parte da culinária tradicional baiana, sendo utilizado em pratos típicos preparados especialmente durante a Semana Santa. Arroz doce, mingaus, peixes, feijões e até pratos à base de bacalhau recebem leite ou derivados do licuri, demonstrando a forte presença do fruto na cultura alimentar da região.

Mais do que uma atividade econômica, Joilma acredita que a cadeia do licuri se transformou em uma ferramenta de conservação ambiental. Ao gerar renda para as comunidades, a palmeira passou a ser vista como um ativo estratégico para o desenvolvimento local, contribuindo para reduzir as derrubadas e fortalecer a proteção da Caatinga.

“Hoje a sociedade já tem uma consciência maior da importância dessa planta, tanto para a biodiversidade quanto para a sobrevivência de muitas famílias. A associação se tornou uma estratégia para garantir a preservação dos licurizeiros e dos saberes tradicionais ligados a eles”, ressalta.

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