
O que impediu o Brasil de acompanhar o ritmo de crescimento alcançado por países como Coreia do Sul e China? No livro O Grande Fracasso, o economista Alexandre Rands apresenta uma hipótese para explicar por que o país não conseguiu sustentar uma trajetória semelhante à das economias asiáticas ao longo dos últimos 75 anos.
A Coreia do Sul passou de uma nação devastada pela guerra, nos anos 1950, para uma economia de alta renda. O avanço foi sustentado pela forte atuação do Estado, que utilizou bancos públicos, subsídios e concessões para apoiar grandes conglomerados privados voltados à exportação, os chamados chaebols, como Samsung e Hyundai. O país também investiu em educação, infraestrutura, tecnologia e produção de bens de maior valor agregado. Em julho de 2021, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) transferiu a Coreia do Sul do grupo das economias em desenvolvimento para o das nações desenvolvidas, no primeiro caso desse tipo desde a criação da entidade, em 1964.
A China consolidou-se como potência industrial e tecnológica principalmente após as reformas econômicas iniciadas em 1978. O país combinou planejamento estatal de longo prazo, abertura controlada ao capital estrangeiro e investimentos maciços em infraestrutura. As Zonas Econômicas Especiais atraíram multinacionais e impulsionaram as exportações, enquanto o governo passou a direcionar recursos para setores estratégicos, como inteligência artificial, energia verde e indústria aeroespacial. Apesar dos avanços, o país ainda enfrenta o desafio de elevar a renda média e reduzir as desigualdades entre as regiões costeiras e o interior.
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O Brasil também recorreu ao Estado para promover a industrialização, mas adotou um modelo mais voltado à substituição de importações e à proteção do mercado interno. Para Alexandre Rands, no entanto, as diferenças entre essas trajetórias não podem ser explicadas apenas pelas escolhas econômicas. Em O Grande Fracasso, que será lançado em 14 de julho, no Recife, o economista analisa fatores históricos e sociais que teriam limitado os investimentos em educação, a produtividade e a capacidade brasileira de manter um ciclo prolongado de desenvolvimento.
“O país não fracassou por ausência de potencial. O problema está na incapacidade de sustentar crescimento ao longo do tempo, em razão de entraves acumulados em produtividade, educação, investimento, ambiente institucional e organização social”, analisa Rands.
O economista organiza os determinantes do crescimento em camadas. Na mais imediata estão capital físico, capital humano e produtividade total dos fatores. Depois vêm elementos como qualidade da educação, risco empresarial, funcionamento dos mercados, inovação, instituições, cultura e conflito entre classes sociais.
Ele aponta problemas como baixa accountability, má qualidade do gasto público, excesso de regulamentação, insegurança jurídica, lentidão da Justiça, dificuldade de fazer cumprir contratos, custos cartoriais e legislação trabalhista complexa. Para o economista, esses fatores aumentam o risco empresarial e reduzem investimentos.
A cultura da baixa confiança também trava a economia
Rands afirma que o Brasil tem baixo nível generalizado de confiança entre os indivíduos. Isso elevaria custos de transação, tornaria contratos mais complexos, estimularia mecanismos de proteção excessivos e dificultaria relações econômicas mais eficientes.

O economista sustenta ainda que o baixo crescimento brasileiro está associado à própria formação da sociedade nacional, marcada por um forte conflito entre classes sociais. Segundo ele, a hegemonia das elites foi construída sobre o desprezo pelos mais pobres e sustentada pela desorganização social desses grupos, resultado da diversidade de origens culturais e étnicas, da violência, da insegurança econômica e da desmoralização social.
“A classe mais numerosa não conseguiu se organizar politicamente para impor uma agenda de ascensão social baseada em educação de qualidade”. Rands sustenta que, em uma economia capitalista, a principal via de mobilidade é a educação, mas o Brasil não teria conseguido transformá-la em prioridade para a maioria.
Essa estrutura, na avaliação do autor, limitou historicamente os investimentos em educação de qualidade para a maioria da população. O resultado teria sido um país com baixa capacidade de ampliar produtividade, reduzir desigualdades e sustentar ciclos longos de crescimento econômico.
A hipótese central do livro é que o conflito social brasileiro se expressa, principalmente, na disputa pelo orçamento público. Como a solução desses conflitos passa por gastos do Estado, uma das consequências apontadas por Rands é a geração persistente de déficits fiscais, que pressionam a inflação e contribuem para a manutenção de taxas de juros elevadas.
Na análise do economista, cada classe social tenta proteger os gastos públicos que a beneficiam, ao mesmo tempo em que atribui às despesas destinadas a outros grupos a responsabilidade pelos desequilíbrios fiscais e pelo baixo crescimento do PIB per capita. Essa disputa, segundo ele, dificulta a construção de consensos em torno de reformas capazes de elevar a produtividade e reorganizar as prioridades do país.
No livro, Rands estima que, em 2025, a distribuição dos gastos públicos direcionados às classes sociais brasileiras deve ter ficado em torno de 33,7% para os trabalhadores mais pobres; 25,1% para os trabalhadores não tão pobres; 18,6% para a classe média; e 22,6% para a classe alta.
Essas proporções ganham outra dimensão quando comparadas ao peso populacional de cada grupo. De acordo com a classificação utilizada na obra, os trabalhadores mais pobres representam 64,2% da população brasileira; os trabalhadores não tão pobres, 30%; a classe média, 4,8%; e a classe alta, apenas 1%.
Entre os gastos considerados estão déficits previdenciários do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), dos regimes próprios dos servidores e dos militares, além de despesas com saúde e educação públicas, transferências de renda, Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), desonerações tributárias, subsídios, Lei Rouanet e juros sobre a dívida pública federal, estadual, municipal e de estatais.
O próprio autor ressalva que os dados oficiais sobre gastos totais foram distribuídos entre as classes sociais a partir de várias suposições. Por isso, os resultados devem ser lidos como “conjecturas educadas”, e não como medições definitivas.

Ainda assim, os números são usados por Rands para evidenciar o que considera uma desproporção de poder na sociedade brasileira. Embora represente cerca de 1% da população, a classe alta ficaria com 22,6% dos gastos públicos analisados. Já os trabalhadores mais pobres, mesmo recebendo a maior parcela em termos absolutos, teriam apropriação individual equivalente a apenas 2,3% do valor destinado a cada indivíduo da classe alta.
Para o economista, esse desequilíbrio ajuda a explicar por que a classe alta preserva elevada influência política. Essa força, no entanto, dependeria também da concessão de benefícios a outros grupos sociais, o que frequentemente pressiona o orçamento público e amplia as dificuldades fiscais.
Protecionismo
Alexandre Rands usa a indústria automotiva como exemplo de setor que recebeu proteção e apoio do Estado, mas que não completou o processo de maturação esperado. Para o economista, quando o país protege um setor, a expectativa é que ele se torne, com o tempo, produtivo e competitivo internacionalmente. No caso brasileiro, ele afirma que alguns segmentos continuaram dependentes de proteção.
“Se a proteção for retirada de forma abrupta, a indústria terá dificuldade de sobreviver”, ressalta. A crítica não é apenas à produção dentro da fábrica, mas a toda a cadeia envolvida: distribuição, relação com concessionárias, logística, transporte e estrutura de mercado. Para o economista, a saída seria uma redução gradual da proteção, para forçar ganhos de eficiência sem provocar uma ruptura imediata.
“O caso automotivo mostra os limites de uma estratégia voltada principalmente ao mercado interno. As montadoras operam em escala global, e o Brasil, mesmo com um mercado consumidor relevante, não conseguiu transformar sua indústria em uma plataforma exportadora comparável à de países como Coreia do Sul, China e Japão”, dispara. Rands defende que uma redução gradual da proteção poderia estimular ganhos de eficiência, desde que acompanhada de melhorias em logística, distribuição, ambiente regulatório e segurança jurídica.
A conclusão de Rands é que um país com tamanha concentração de benefícios e poder político enfrenta dificuldades para crescer em ritmo acelerado. A obra aprofunda essa interpretação com uma discussão sobre a formação das classes sociais no Brasil e apresenta testes econométricos relacionados às hipóteses de poder das classes e de crescimento econômico.
O lançamento o livro será realizado na terça-feira (14) às 18h, no Boteco Porto Ferreiro, junto com o livro “STF, entre a Relevância e a Disfuncionalidade”, escrito pelo advogado (e irmão de Alexandre) Maurício Rands junto com João Maurício Adeodato (in memoriam). As duas obras tratam, sob diferentes perspectivas, de temas estruturais da formação institucional, política e econômica do Brasil.
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