- Publicidade -

De grão em grão, coprodutos do etanol de milho abrem rota de exportação

Portaria do MAPA cria 13 categorias para coprodutos do etanol de milho e padroniza exportações que saltaram para 879 mil toneladas. Nordeste já reúne cinco biorrefinarias
- Publicidade -
Ouvir o Artigo Gerando áudio…
~6:56
  1. Portaria MAPA regulamenta padrões de qualidade para 13 categorias de derivados da biorrefinaria de milho.
  2. Embarques de coprodutos cresceram de 4,4 mil toneladas em 2017 para 879 mil toneladas em 2025.
  3. Inpasa realiza primeiro embarque de DDG brasileiro para China em fevereiro, exportando 62 mil toneladas.
  4. Turquia, Vietnã e Nova Zelândia são principais destinos, recebendo 651,6 mil toneladas em 2025.
  5. UNEM projeta crescimento de 123% nas exportações para 2 milhões de toneladas em 2026.
De grão em grão, coprodutos do etanol de milho abrem rota de exportação
 Inpasa, maior biorrefinaria de grãos da América Latina, já alcança produção anual de aproximadamente 3,3 milhões de toneladas de DDGS (Grãos de Destilaria com Solúveis) e é a maior exportadora brasileira do ingrediente. Foto: Inpasa/Reprodução

Antes considerados subprodutos do processo de fabricação de etanol de milho, os grãos secos e úmidos residuais do cereal mudaram de status. Agora são tratados como coprodutos e ganharam legislação específica para facilitar a exportação. A Portaria nº 929 do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), publicada no Diário Oficial da União em 2 de julho, define o primeiro padrão de identidade e qualidade para 13 categorias de derivados da biorrefinaria de milho destinados à nutrição animal. No Nordeste, usinas já instaladas e em implantação no Matopiba inserem a região na cadeia que abastece confinamentos de bovinos, suínos e aves.

A norma foi assinada pelo ministro André de Paula e pelo presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, durante o lançamento do Plano Safra 2026/2027. Estabelece limites de umidade, proteína bruta, extrato etéreo, fibra bruta e material mineral para cada classe e encerra o uso do rótulo genérico “DDG” ao separar, por exemplo, HPDDG (alto teor proteico), DDGS de alto teor de óleo e DDGS de baixo teor de óleo em categorias próprias. Produtos fora dos parâmetros passam a ser classificados como “Fora de Tipo”, impedidos de ser comercializados na categoria declarada. A vigência começa em 90 dias.

Os embarques desses coprodutos saltaram de 4.400 toneladas em 2017 para 879 mil toneladas escoadas a 25 países em 2025, segundo a União Nacional do Etanol de Milho (UNEM). Os principais destinos foram Turquia (295,3 mil toneladas), Vietnã (214,5 mil toneladas) e Nova Zelândia (141,8 mil toneladas). Em fevereiro de 2026, a Inpasa, que opera duas unidades no Nordeste, realizou o primeiro embarque de DDG brasileiro para a China: 62 mil toneladas pelo Porto de Imbituba (SC). A projeção da UNEM para 2026 é de 2 milhões de toneladas exportadas, alta de 123%.

> Faça parte do canal da Movimento Econômico no WhatsApp

Crédito na indústria e tipos de coproduto

As siglas que identificam esses derivados vêm do inglês. DDG significa Distillers Dried Grains (grãos secos de destilaria). DDGS, Distillers Dried Grains with Solubles, acrescenta sais minerais resultantes do processo de industrialização. WDG, Wet Distillers Grains, é a versão úmida, que dispensa a etapa de secagem e atende confinamentos próximos à usina, com economia de energia. O DDG mais comercializado tem 32% de proteína, segundo o presidente da Datagro, Plinio Nastari, em entrevista ao Movimento Econômico. Cada tonelada de milho processada rende 425 litros de etanol, 300 kg de DDGS e 16 litros de óleo bruto, segundo a BrasBio.

“A importância do DDG é ele gerar um crédito que reduz o custo de produção do etanol de milho. Por isso é classificado como coproduto, não como subproduto”, afirma Nastari. A receita gerada pela venda dos derivados compõe a estrutura de custos das biorrefinarias e permite que o preço do etanol de milho concorra com o de cana-de-açúcar.

A Datagro projeta oferta de 15 milhões de toneladas de DDG até 2030. A produção nacional na safra 2025/26 atingiu cerca de 5 milhões de toneladas, segundo a UNEM. Nastari afirma que o mercado interno tem potencial para absorver o volume, mas a indústria mantém o esforço exportador para preservar margens. A UNEM e a ApexBrasil conduzem projeto conjunto de promoção internacional.

Nordeste na rota das biorrefinarias

A Inpasa opera duas unidades no Nordeste: em Balsas (MA), com capacidade de 950 milhões de litros de etanol por ano, e em Luís Eduardo Magalhães (BA), inaugurada com investimento de R$ 1,3 bilhão e autorizada pela ANP a produzir 470 milhões de litros anuais. A unidade baiana processa 1 milhão de toneladas de grãos por ano, entre milho e sorgo, e produz 245 mil toneladas de DDGS e 23 mil toneladas de óleo vegetal. No Piauí, a BrasBio investiu R$ 1,18 bilhão em biorrefinaria em Uruçuí, com capacidade para processar 1.500 toneladas de milho por dia e produzir 620 mil litros diários de etanol. O Banco do Nordeste (BNB) financiou R$ 531 milhões da implantação.

Em Alagoas, a Usina Pindorama iniciou a moagem de milho em 2024, tornando-se a primeira unidade produtora de etanol de milho em operação no Nordeste. Na Bahia, a Lida Bioenergia obteve licença de construção para uma planta em Santa Rita de Cássia. O conjunto de pelo menos cinco operações, entre unidades ativas e em implantação, configura um novo polo de biorrefinarias na fronteira agrícola do Matopiba e no litoral alagoano.

O Nordeste tem déficit de etanol estimado entre 2,9 bilhões e 3,2 bilhões de litros, segundo Nastari, volume que tende a ser eliminado até 2030 com a operação plena dessas plantas. A eliminação do déficit altera a dinâmica de comercialização das usinas de cana-de-açúcar da região, que vendem etanol durante a safra, em período de cinco a seis meses. As biorrefinarias de milho produzem o ano inteiro, sem estocagem.

“A comercialização de etanol, como um todo, tende a mudar para as usinas processadoras de cana-de-açúcar. Elas tendem a ter uma comercialização mais longa do que foi até agora”, afirma Nastari. A transição deve ocorrer de forma gradual nos próximos quatro a cinco anos.

Com 3.350 kcal/kg, o DDGS não só se assemelha ao valor energético do milho, mas também substitui fontes de proteína na dieta, ajudando a reduzir custos com ração e a melhorar o desempenho produtivo. Foto: Inpasa/Reprodução
Com 3.350 kcal/kg, o DDGS não só se assemelha ao valor energético do milho, mas também substitui fontes de proteína na dieta, ajudando a reduzir custos com ração e a melhorar o desempenho produtivo. Foto: Inpasa/Reprodução

Confinamento e demanda por etanol

“O sucesso do etanol de milho está muito vinculado ao escoamento e à destinação do DDG para confinamento”, afirma Nastari. O percentual de abate bovino nacional proveniente de confinamento evoluiu de 8% para 21% nos últimos seis anos. O Nordeste acompanha a tendência, e com biorrefinarias operando na região, o DDG produzido localmente passa a abastecer criatórios sem o custo de frete do Centro-Oeste e do Sudeste, onde se concentra a produção atual.

A discussão no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para elevar a mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% acrescenta outro vetor de demanda. A Datagro estima que o incremento pode gerar escoamento adicional de 930 milhões de litros por ano. Nastari pondera que a margem de 1% na distribuição e a tolerância de 1% da ANP nos postos de revenda precisam ser definidas na regulamentação para que o ganho se confirme.

A produção de 5 milhões de toneladas de DDG na safra 2025/26 e a projeção de 15 milhões de toneladas até 2030 colocam a capacidade de absorção do confinamento doméstico e a abertura de novos mercados externos como os dois eixos de escoamento do coproduto. A portaria que tipifica 13 categorias oferece ao setor o lastro regulatório que faltava para negociar contratos internacionais com especificações técnicas padronizadas.

Leia mais: Brasil cobra reciprocidade para açúcar e tira etanol da negociação com os EUA

- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Notícias

- Publicidade -