
O turismo do Nordeste seguirá em expansão pelos próximos anos, mas já começa a observar uma tendência de buscar diferenciais além de belas praias e sol o ano todo. Entretenimento, gastronomia e experiências capazes de fazer o hóspede passar mais tempo no destino estão presentes cada vez mais em novos empreendimentos que estão se instalando na região.
Na avaliação do vice-presidente de Turismo da Associação para o Desenvolvimento Imobiliário e Turístico do Brasil (ADIT), Alejandro Moreno, o turismo brasileiro vive uma mudança de paradigma. Em entrevista ao Movimento Econômico, ele explicou que praias e paisagens naturais deixaram de ser suficientes para diferenciar os destinos, o que tem levado empreendimentos a investir em entretenimento, gastronomia e experiências capazes de ampliar o tempo de permanência dos visitantes.
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“Todo mundo tem praia. O diferencial passa a ser aquilo que o destino entrega além da paisagem. É o entretenimento, a gastronomia, as experiências e tudo aquilo que faz o turista permanecer mais tempo no local”, analisou.
Segundo Moreno, a estratégia dos novos empreendimentos não é apenas atrair turistas, mas fazer com que eles permaneçam mais dias no destino, aumentando o consumo em hospedagem, alimentação, lazer e comércio local.
“Hoje o objetivo não é apenas vender hospedagem. É fazer com que o turista permaneça mais tempo no destino e tenha motivos para voltar”, afirmou.
O movimento observado no Nordeste acompanha a estratégia da hotelaria nacional. O estudo Panorama da Hotelaria Brasileira 2026 mostra que o segmento de lazer já figura entre as principais apostas para expansão do setor, citado por 67% das redes consultadas, enquanto 42% também enxergam oportunidades ligadas ao mercado de eventos e grupos, reforçando um perfil de demanda cada vez mais híbrido.
O levantamento também aponta que 2026 deverá registrar o maior ciclo recente de investimentos em hotelaria, com previsão de 178 novos hotéis, cerca de 26 mil unidades habitacionais e R$ 13,6 bilhões em investimentos, impulsionados principalmente pelos segmentos midscale, upscale e de luxo.
Já dados de estudos da HotelInvest e parceiros do setor, indicam que 22% dos projetos hoteleiros atualmente em desenvolvimento no país estão localizados no Nordeste, reforçando a região como um dos principais polos de expansão da hotelaria brasileira.

“O entretenimento movimenta toda a cadeia do turismo. Um equipamento bem estruturado acaba atraindo hotéis, restaurantes e serviços. Foi o que o Beach Park fez no Ceará, que passou a impulsionar toda a economia do entorno, atraindo novos investimentos e se tornando um case”, comentou.
Moreno afirma que os investidores passaram a olhar com mais atenção para cidades secundárias do Nordeste, que ainda possuem espaço para expansão da hotelaria, segunda residência e novos produtos turísticos. “Hoje as cidades secundárias têm muito mais atratividade do que muitas capitais. Existe espaço para hotelaria, segunda residência, loteamentos e, principalmente, entretenimento”, disse.

Setor aposta em diferenciais para atrair turistas em Alagoas
O Hibiscus Beach Club, localizado em Maceió, ilustra essa mudança de estratégia. Criado inicialmente como um restaurante à beira-mar, o empreendimento passou por uma reformulação em 2013 para se transformar em um beach club voltado ao público familiar, inspirado em modelos internacionais, mas adaptado ao perfil do turista que visita Alagoas.
“Nós não queríamos fazer um beach club de balada. O nosso turismo é muito mais familiar. Então criamos vários ambientes para diferentes perfis de visitantes. Tem espaço com música, DJ e banda, mas também áreas onde a pessoa escuta apenas o barulho do mar”, explicou o presidente do Grupo Hibiscus, Vanderlei Turatti, em entrevista ao Movimento Econômico.
Segundo Turatti, cerca de 95% do público é formado por turistas, principalmente de São Paulo, Centro-Oeste e Sul do país. Em 2025, o empreendimento recebeu aproximadamente 145 mil visitantes e projeta alcançar 150 mil este ano.
“Hoje recebemos aproximadamente 145 mil turistas por ano e devemos chegar a 150 mil. O nosso desafio deixou de ser apenas receber visitantes; queremos que eles vivam uma experiência completa”, disse.
Para ampliar essa permanência, o empreendimento passou a oferecer oito ambientes distintos, recreação infantil, música ao vivo, piscinas, eventos corporativos e até um clube de fidelidade voltado ao retorno dos clientes. Além do impacto sobre o turismo, o Hibiscus mantém aproximadamente 300 colaboradores, dos quais cerca de 95% são moradores das comunidades próximas, como Barra de Santo Antônio, Paripueira e Ipioca.

O movimento também aparece na hotelaria. O Japaratinga Lounge Resort estruturou seu modelo All Inclusive Premium integrando gastronomia, lazer e entretenimento em uma única experiência.
O resort reúne diferentes restaurantes temáticos, bares distribuídos pelas áreas de lazer e programação integrada às piscinas e espaços de convivência, buscando ampliar a permanência e o consumo dos hóspedes durante toda a estadia.
Segundo o grupo, tudo foi pensado para proporcionar uma experiência premium em meio às belezas naturais de Japaratinga, unindo exclusividade, conforto e hospitalidade.
O empreendimento recebe principalmente visitantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Goiás e emprega aproximadamente 759 colaboradores, sendo 98% deles moradores da própria região, reforçando o impacto econômico da atividade turística sobre os municípios do litoral norte alagoano.

Grupos hoteleiros miram turismo de entretenimento no NE
A estratégia de transformar a hospedagem em uma experiência completa também aparece em novos investimentos anunciados para o Nordeste. A rede de luxo Anantara, da Minor Hotels, prepara dois resorts na região: o Anantara Mamucabo Bahia Resort, em Baixio (BA), e o Anantara Preá Ceará Resort, no litoral cearense, com investimento previsto de R$ 160 milhões e inauguração em 2028. Mais do que oferecer acomodações de alto padrão, os projetos foram concebidos para integrar beach clubs, spas, gastronomia, esportes, atividades de bem-estar, clubes infantis e experiências ligadas à natureza.
No Ceará, o empreendimento será implantado dentro do complexo Vila Carnaúba e ainda dará acesso aos equipamentos de lazer já existentes no destino, como kite club, sunset club, espaço kids e áreas esportivas, reforçando a tendência de criação de ecossistemas turísticos capazes de ampliar o tempo de permanência dos visitantes.
O grupo tcheco Alchymist Group também prevê ampliar suas operações no Ceará com a inauguração de um parque aquático na área do Alchymist Luxury Resort, que está em construção às margens da Lagoa do Paraíso, em Jijoca de Jericoacoara. O investimento gira em torno de R$ 30 milhões.
O Alchymist já opera, desde 2023, um clube de praia e um parque temático de dinossauros na cidade de Caucaia, região Metropolitana de Fortaleza.

Em Alagoas, o grupo português Vila Galé trará sua primeira unidade fora de Portugal de um hotel voltado para o público infantil, o Vila Galé Nep Kids. A unidade está em construção no município de Coruripe e terá 350 apartamentos e equipamentos de lazer voltados a famílias que viajam com crianças. O investimento de R$ 200 milhões ainda contempla outro hotel, o Vila Galé Collection, da linha de resorts de luxo da rede, com 144 apartamentos.
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