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Vale do Catimbau: tesouro arqueológico de PE ganha impulso turístico

Projeto liderado pelo Sebrae no Vale do Catimbau aposta na qualificação de pequenos negócios e na estruturação do destino para ampliar fluxo turístico
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Catimbau se estrutura para virar polo de ecoturismo no Brasil
Vale do Catimbau será foco de ação do Sebrae com objetivo de desenvolver o turismo – Foto: Wedas Neto/Sebrae

O Vale do Catimbau, no Agreste pernambucano, passa a ocupar posição estratégica na agenda nacional de turismo com um novo ciclo de investimentos liderado pelo Sebrae. Com aporte de R$ 4 milhões, financiados pelo Sebrae Nacional e Sebrae Pernambuco, o projeto será lançado na próxima quinta-feira (26), em Buíque, município porta de entrada para o Parque Nacional. O foco será a capacitação e estruturação dos pequenos negócios locais, com o objetivo de melhorar a percepção dos turistas a atrair mais visitantes.

Com cerca de 62 mil hectares e localizado a 280 quilômetros do Recife, o Parque Nacional do Catimbau é considerado o segundo maior parque arqueológico do Brasil, reunindo relevantes conjuntos de sítios arqueológicos, além de paisagens naturais singulares. A iniciativa busca posicionar o território como um dos principais destinos de ecoturismo do país, formando uma cadeia produtiva sustentável. As ações começam em maio e seguem até 2027.

Esta é a primeira matéria da série de reportagens “Descobrindo o Vale do Catimbau”, do portal Movimento Econômico. A série vai explorar as potencialidades turísticas, econômicas e sociais da região.

Capacitação para empreendedores e comunidades

O foco da qualificação será dos serviços e na valorização da identidade local como diferencial competitivo. “Nosso trabalho envolve desde consultorias para melhoria dos empreendimentos até capacitações em gastronomia, com apoio do Instituto César Santos, promovendo desde a reformulação de cardápios até a qualificação do atendimento. A ideia é preparar o território para receber melhor o turista, gerando renda e fortalecendo os pequenos negócios de forma sustentável”, afirma a gestora do Sebrae-PE no Agreste Meridional, Amanda Ferreira.

Segundo a gestora, serão capacitados cerca de 80 pequenos empresários locais que atuam em equipamentos turísticos, como bares, restaurantes, pousadas, hotéis, guias de turismo, além de associações de guias de turistas, de equipamentos turísticos e de mulheres e comunidades quilombolas. Artesãos e povos indígenas também serão atendidos.

“A partir de um mapeamento de todos os envolvidos na cadeia do turismo do Catimbau, estruturamos ações mais assertivas, que dialoguem com a realidade do território e potencializem suas vocações”, afirma Amanda.

Um dos destaques do projeto é o investimento na gastronomia como vetor de valorização cultural e geração de renda. Em parceria com o Instituto César Santos, o Sebrae promoverá capacitações que incluem reformulação de cardápios, qualificação de serviços e desenvolvimento de identidade gastronômica regional, conectando a culinária local à experiência turística.

Mestre José Bezerra trabalha com artesanato em madeira e será um dos atendidos pela ação – Foto: Anderson Ângelo/Divulgação

Qualificação dos serviços

Para os guias locais, a qualificação dos serviços e a organização do destino podem representar um salto na profissionalização da atividade e na geração de renda. Segundo Anderson Ângelo, vice-presidente da Associação de Guias de Turismo do Vale do Catimbau, o projeto chega em um momento estratégico para fortalecer quem já atua na região. “O Catimbau já desperta interesse de visitantes do Brasil e do exterior, mas ainda precisamos avançar em estrutura e qualificação. Esse apoio vai ajudar a organizar melhor a atividade e valorizar o trabalho dos guias”, afirma.

De acordo com ele, a expectativa é que o aumento do fluxo turístico venha acompanhado de uma experiência mais qualificada para o visitante. “Não é só trazer mais gente, é fazer com que o turista saia daqui com uma vivência completa, entendendo a história, a cultura e a importância do território. Quando isso acontece, ele retorna e ainda recomenda o destino”, destaca.

A articulação entre capacitação, governança e promoção do destino é vista como essencial para consolidar o Catimbau no mapa do turismo nacional. “A gente sempre acreditou no potencial daqui. Com planejamento e apoio, conseguimos transformar esse potencial em desenvolvimento para as comunidades”, completa Anderson Ângelo.

Anderson Ângelo é guia turístico no Vale do Catimbau desde 2013 – Foto: Acervo Pessoal

Histórico de apoio ao Catimbau

A nova etapa reforça uma trajetória de atuação contínua da instituição na região. Apenas entre 2024 e 2025, em parceria com a Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Adepe), foram realizadas capacitações em idiomas, formação de guias turísticos e consultorias em marketing, atendimento e governança, beneficiando diretamente o trade turístico local.

Outra frente estruturante será a implementação do Programa LIDER, metodologia do Sebrae voltada à mobilização de lideranças regionais. A proposta é reunir representantes dos setores público, privado e do terceiro setor dos municípios de Buíque, Tupanatinga, Ibimirim e Arcoverde para construir uma agenda de desenvolvimento sustentável, com foco na governança territorial e na atração de investimentos.

Inscrição rupestre no Vale do Catimbau, segundo maior parque arqueológico do Brasil, ficando atrás apenas da Serra da Capirava (PI) – Foto: Wedas Neto/Sebrae

Nordeste concentra mais de 11 mil sítios arqueológicos

Segundo dados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Brasil possui 40.592 sítios arqueológicos cadastrados. Desses, 11.208 estão no Nordeste, sendo 384 em Alagoas; 3.303 na Bahia; 1.479 no Ceará; 403 no Maranhão; 528 na Paraíba; 1.131 em Pernambuco; 2.278 no Piauí; 1.151 no Rio Grande do Norte; e 371 em Sergipe.

Desses, os mais famosos são o Parque Nacional Serra da Capivara (PI), Parque Nacional do Catimbau (PE), Geopark do Araripe (CE), Serra da Barriga (AL) e Pedra do Ingá (PB).

Você sabe a diferença?

O sítio arqueológico é a unidade básica da arqueologia. Trata-se de um local específico onde foram encontrados vestígios de ocupação humana antiga, que pode conter pinturas rupestres, fósseis, utensílios, sepultamentos, entre outros achados. Normalmente, é um local delimitado, como uma caverna, lajedo ou abrigo rochoso.

Já um parque arqueológico é uma área maior, organizada e protegida, que reúne vários sítios arqueológicos dentro de um território. Conta com gestão oficial (governo ou instituições) e possui infraestrutura para visitação, como trilhas, guias, centros de visitantes, com foco em preservação, educação e turismo.

Parques arqueológicos impulsionam turismo

No Nordeste brasileiro, a diversidade de parques e sítios arqueológicos revela não apenas a antiguidade da presença humana na região, mas também a complexidade das relações entre cultura, território e natureza ao longo de milhares de anos. Do semiárido piauiense ao agreste paraibano, passando pela Zona da Mata alagoana e pelo interior do Maranhão, esses espaços funcionam como verdadeiros arquivos a céu aberto da história das Américas.

No Parque Nacional da Serra da Capivara, no sul do Piauí, está a maior concentração de sítios pré-históricos das Américas. São mais de mil áreas catalogadas, com pinturas rupestres que podem chegar a 25 mil anos, retratando cenas de caça, rituais e interações sociais. Reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1991, o parque ocupa mais de 129 mil hectares e conta com uma extensa rede de trilhas e acessos. A gestão compartilhada entre a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM) e o ICMBio tem sido fundamental para a preservação de um acervo que desafia teorias tradicionais sobre o povoamento do continente.

Serra da Capivara, no Piauí, é o maior parque arqueológico do Brasil – Foto: Parque Nacional Serra da Capivara

No Ceará, o Geopark Araripe amplia o conceito de patrimônio ao integrar arqueologia, paleontologia e geologia em uma mesma narrativa territorial. Primeiro geoparque das Américas reconhecido pela UNESCO, em 2006, o território reúne 11 geossítios e dezenas de áreas de interesse científico distribuídas por municípios do Cariri. Com fósseis que datam de até 150 milhões de anos, o geoparque não apenas preserva registros do período Cretáceo, mas também articula ciência, educação e turismo como vetores de desenvolvimento regional, envolvendo universidades, poder público e comunidades locais.

Já em Alagoas, a Serra da Barriga se destaca não apenas como sítio arqueológico, mas como símbolo histórico e político da resistência negra no Brasil. Local onde se estabeleceu o Quilombo dos Palmares — o maior das Américas —, a área foi transformada no Parque Memorial Quilombo dos Palmares, que recria estruturas e modos de vida da comunidade. Reconhecida como Patrimônio Cultural do Mercosul, a serra representa um espaço de memória e reparação histórica, evidenciando o papel dos quilombos na formação das identidades afrodescendentes no continente.

Serra da Barriga, em Alagoas – Foto: Fundação Cultural Palmares

Na Paraíba, o Pedra do Ingá permanece como um dos maiores enigmas arqueológicos do país. O paredão de cerca de 24 metros de comprimento é coberto por inscrições rupestres cuja autoria e significado ainda não foram totalmente decifrados. Com símbolos geométricos e representações que sugerem formas naturais e possivelmente astronômicas, o sítio intriga pesquisadores e atrai visitantes interessados em compreender os sistemas simbólicos de povos que habitaram o agreste há milhares de anos. A própria origem do nome — Itacoatiara, “pedra riscada” em tupi — reforça a dimensão estética e comunicacional desse registro ancestral.

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