
O Ceará vai sediar a maior torre eólica das Américas. Em reunião realizada nesta terça-feira (2) na Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE), o governo estadual anunciou parceria com o Grupo Cortez para a construção do Projeto Everest, uma estrutura de 166 metros de altura que, com as pás, atingirá 257 metros, com investimento de R$ 100 milhões. As obras de preparação e fundação começam na próxima semana no pátio da ArcelorMittal Pecém, em São Gonçalo do Amarante. O padrão nacional de torres eólicas varia entre 80 e 120 metros, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia.
A tecnologia é desenvolvida e patenteada pela CTZ Eolic Tower, braço do Grupo Cortez, holding cearense sediada em Fortaleza com raízes no Cariri. A empresa não chega ao Projeto Everest sem histórico: já construiu 56 torres em Água Doce (SC), 27 em Taíba (CE), 31 em Icaraí de Amontada (CE) e 69 em Itarema (CE), acumulando expertise em fabricação e montagem de torres de concreto pré-moldado por meio de unidades móveis de produção instaladas dentro dos próprios parques eólicos. O modelo de fábrica itinerante gera empregos locais e utiliza matéria-prima regional, dois argumentos que reforçam o impacto econômico direto do projeto para o Ceará.
O diferencial central do Projeto Everest é o sistema de içamento desenvolvido em parceria com a Protende, empresa com 37 anos de atividade em sistemas de protensão e içamento pesado. A solução elimina a necessidade de guindastes heavy lift, equipamentos de alto custo, logística complexa e mobilização demorada que atualmente não estão disponíveis no Brasil para alturas superiores a 135 metros.

Sistema auto içável: como funciona
A estrutura é construída em dois módulos: uma torre externa e uma torre interna. Os segmentos de concreto têm 4 metros de altura cada, com diâmetros variando de 7,6 metros na base a 3,2 metros no topo, e são empilhados por guindastes telescópicos de 500 toneladas, modelo Liebherr LTM 1500, equipamento disponível no mercado.
O aerogerador é montado na torre interna a 60 metros de altura. Em seguida, 6 strand jacks de 120 toneladas cada, posicionados no topo da torre externa, içam o conjunto formado pela torre interna e pelo aerogerador até o nó cônico de conexão entre as duas estruturas. A tecnologia também adota juntas secas entre os segmentos, dispensando grout e resinas e reduzindo tempo de execução e risco de desperdícios.
A opção pelo concreto em vez do aço tem justificativa técnica e econômica. A torre metálica se torna mais cara que a de concreto a partir de 90 metros e exige fundações com volume 72% maior, de 1.265 toneladas-força contra 730 tf da estrutura em concreto. O concreto também oferece durabilidade superior a 50 anos, maior tolerância a impactos e rajadas de vento, resistência ao fogo superior ao aço e necessidade insignificante de manutenção ao longo da vida útil.

Parceiros, financiamento e licenciamento
As turbinas e a tecnologia dos aerogeradores serão fornecidas pela Goldwind, fabricante chinesa entre as maiores do mundo no segmento eólico. A Casa dos Ventos e a TotalEnergies, empresa de origem francesa que em 2022 formou uma joint-venture com a Casa dos Ventos para desenvolver um portfólio de 12 GW em renováveis no Brasil, integram o projeto pelo interesse na nova tecnologia.
O apoio federal veio por meio de subvenção econômica da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, via edital de chamadas públicas para renováveis. A licença ambiental foi emitida na semana passada pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace). O lançamento da Pedra Fundamental está previsto para julho em evento oficial no Complexo do Pecém.
Cadeia produtiva para projetos eletro-intensivos
O impacto do projeto ultrapassa o setor eólico. Com energia renovável produzida a custo menor e em escala maior, o Ceará amplia a competitividade para atrair investimentos em segmentos eletro-intensivos. Para o engenheiro Edgar Nunes, do Grupo Cortez, os desdobramentos são diretos: uma energia mais barata abre caminho para iniciativas como a produção de Hidrogênio Verde e a instalação de Data Centers. O secretário Fábio Feijó, da SDE, destacou que o governador Elmano de Freitas já havia articulado a atração do maior data center das Américas para o Ceará, criando a demanda que torna o Projeto Everest ainda mais estratégico para a matriz energética estadual.
A SDE e o Grupo Cortez trabalham em agenda conjunta de cinco pontos estratégicos para dar visibilidade institucional à tecnologia. Entre as ações planejadas está a aproximação com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com campus em implantação no Ceará, para envolver pesquisadores e estudantes no projeto que o estado pretende consolidar como referência global em engenharia eólica.
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