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Com 194 cidades no “clube do bilhão”, NE é a 2ª maior força consumidora do país

Com crescimento de 6,2% em 2025, região avança sobre o Sul e concentra 18,6% do consumo nacional, revela IPC Maps. Salvador é a cidade que lidera consumo no NE
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Salvador Nordeste turismo consumo economia
Salvador lidera ranking regional como a cidade com maior volume de gastos estimados em 2025, com projeção de R$ 101,4 bilhões. Foto: Márcio Filho/MTur

A região Nordeste ultrapassou o Sul e tornou-se, em 2025, a segunda maior força consumidora do país, com 18,6% de participação nacional. Os dados são do IPC Maps 2025, estudo da IPC Marketing Editora, que há mais de 30 anos avalia o Índice de Potencial de Consumo (IPC) dos estados e municípios brasileiros a partir de dados oficiais. Mais do que a troca de posição com o Sul — que ficou com 18,5% do consumo —, o destaque está na ampliação da base econômica regional: 194 dos 1.793 municípios nordestinos agora movimentam mais de R$ 1 bilhão por ano, um salto de 26 cidades em relação a 2024. “Não é um acaso. O Nordeste já havia ultrapassado o Sul em 2008. Agora retorna por mérito próprio”, resume Marcos Pazzini, coordenador da pesquisa.

O Brasil deverá movimentar R$ 8,2 trilhões em consumo em 2025, com crescimento de 3,01% em relação a 2024, impulsionado pela melhoria no emprego formal e renda. De acordo com os dados do IPC Maps 2025, o Nordeste deverá crescer acima da média nacional e movimentar R$ 1,52 trilhão em consumo neste ano, ficando atrás apenas do Sudeste (48,1%). O valor é quase equivalente ao PIB de países como o Paraguai ou o Kuwait, destacando o peso nordestino na economia brasileira.

Com um IPC de 1,2441 e um volume de gastos estimado em R$ 101,41 bilhões por ano, a capital baiana ocupa a 6ª posição no ranking nacional, destacando-se como principal motor econômico da região. Logo atrás, Fortaleza aparece em segundo lugar no Nordeste e 7º no Brasil, com um IPC de 1,18109 e consumo total de R$ 96,27 bilhões. O terceiro lugar regional fica com Recife, que registra R$ 59,82 bilhões em consumo anual e IPC de 0,73383, ocupando a 12ª posição no país.

São Luís (4º), Maceió (5º), João Pessoa (6º), Natal (7º), Teresina (8º) e Aracaju (9º) completam a lista das capitais nordestinas no top 10. Já Jaboatão dos Guararapes (PE), cidade da região metropolitana do Recife, fecha o grupo das dez maiores, com consumo de R$ 23,28 bilhões.

No entanto, o interior ganha peso cada vez maior. Municípios como Feira de Santana (BA), Campina Grande (PB), Juazeiro do Norte (CE) e Imperatriz (MA) se destacam entre os 50 maiores mercados do país, refletindo o crescimento do emprego formal e a migração de microempreendedores para cidades com menor custo de vida. “A força do consumo está se interiorizando. São municípios fora das capitais que já mostram musculatura própria, o que exige atenção de investidores e do poder público”, afirma Pazzini.

Classe média puxa consumo, mas ainda para o básico

Grande parte do avanço está ancorada na força das classes C1 e C2, que juntas representam mais de 85% dos domicílios urbanos da região Nordeste, segundo o IPC Maps 2025. Embora no cenário nacional as classes A e B1 estejam presentes em 22,1% dos lares e respondam por cerca de 40% do consumo das famílias brasileiras, no Nordeste essas faixas superiores de renda ocupam apenas 14,8% dos domicílios. “É a classe média que está puxando o consumo no Nordeste — e isso é positivo porque mostra base ampla, mas também indica que há espaço para crescer qualitativamente”, analisa Marcos Pazzini.

O consumo avança, mas o perfil ainda é básico: a maior parte do orçamento doméstico nordestino segue comprometida com despesas essenciais, como habitação, saúde, transporte e alimentação. “Só agora começa a haver folga para eletrodomésticos, reformas ou educação”, observa.

Um dado marcante da pesquisa é o peso crescente dos gastos com veículos próprios, que já superam os gastos com alimentação no domicílio em muitas cidades. “O carro virou instrumento de sustento. O entregador, o motorista de aplicativo, o autônomo — todos dependem do carro. Por isso, combustível, manutenção, seguros entram forte no orçamento doméstico”, explica Pazzini. O fenômeno não representa luxo, mas sim uma adaptação à nova lógica de renda e sobrevivência em cidades com baixa formalização e oferta limitada de empregos convencionais.

Desafio do Bolsa Família como gerador de consumo no NE

O estudo também toca em um tema sensível: o impacto dos programas sociais, em especial o Bolsa Família, no mercado de trabalho e no consumo. Para Pazzini, o programa foi essencial nos primeiros anos, mas perdeu efetividade ao longo do tempo. “Na primeira fase, o Bolsa Família girou a economia e tirou muita gente da miséria. Mas depois, passou a desestimular o ingresso no mercado de trabalho formal, principalmente em setores de baixa remuneração.” Ele defende uma reavaliação do modelo. “Não basta transferir renda. É preciso acoplar qualificação, formalização, crédito produtivo. Senão, gera dependência e não riqueza.”

Outro indicador de maturidade econômica regional é o novo perfil das empresas. O número de empresas cresceu 4,2% no país em 2025, puxado pelas microempresas (MEs), enquanto os microempreendedores individuais (MEIs) praticamente estagnaram. “Isso mostra um avanço na formalização e na robustez empresarial, especialmente nos centros urbanos e no interior estruturado”, aponta Pazzini. Ainda assim, a densidade empresarial do Nordeste segue baixa: são 70,32 empresas por mil habitantes, contra 150,75 no Sul e 145,16 no Sudeste.

Bahia lidera em número de municípios “bilionários”

Em números absolutos, a Bahia lidera com 46 municípios acima de R$ 1 bilhão em consumo, seguida por Ceará (33), Pernambuco (31), Maranhão (22), Paraíba (16), Rio Grande do Norte (14), Piauí (12), Alagoas (11) e Sergipe (9). Todas as capitais nordestinas integram o “clube do bilhão”, mas os destaques mais recentes vêm do interior, com cidades que ganharam força nos últimos cinco anos graças à combinação de crescimento populacional, dinamismo no setor de serviços e maior circulação de renda. “São municípios que antes estavam fora do radar e agora se mostram essenciais na estratégia de consumo nacional”, diz o pesquisador.

A perspectiva para os próximos anos é positiva, mas requer atenção. Com o câmbio ainda favorável, o Nordeste continuará atraindo turistas estrangeiros, o que beneficia especialmente os estados costeiros. No entanto, para manter o ritmo de crescimento, será necessário investir em infraestrutura, logística, acesso ao crédito, educação e inovação. “O Nordeste é hoje um campo fértil para negócios, mobilidade social e interiorização do desenvolvimento. Mas isso precisa ser sustentado por políticas públicas consistentes e olhar estratégico de longo prazo”, conclui Pazzini.

Consumo urbano no Nordeste ultrapassa R$ 1,3 trilhão

Segundo o IPC Maps, o Nordeste brasileiro apresenta um perfil de consumo marcado por contrastes e oportunidades, com um mercado de R$ 1,52 trilhão movimentado por 57,2 milhões de habitantes. A região, que ocupa a 2ª posição no ranking nacional de consumo, tem na Classe C seu principal motor econômico – responsável por 42,4% dos domicílios urbanos e R$ 487 bilhões em gastos, especialmente em eletrodomésticos, vestuário e serviços essenciais. Enquanto as classes D/E, que representam 42,8% da população, concentram-se em itens básicos como alimentação e habitação (R$ 237 bilhões), os estratos mais altos (A/B) impulsionam setores como educação, veículos e turismo. O consumo urbano (R$ 1,33 trilhão) mostra maior diversificação, com destaque para habitação (R$ 283 bi) e saúde (R$ 101 bi somando medicamentos e planos), enquanto o rural (R$ 190 bi) mantém foco em agricultura e infraestrutura básica.

Essa dinâmica revela um mercado em transformação, onde o crescimento da Classe C e a urbanização acelerada abrem espaços para negócios inovadores em educação profissionalizante, saúde complementar e soluções financeiras acessíveis. Ao mesmo tempo, a forte presença do comércio tradicional (1,1 milhão de empresas varejistas) e a demanda por habitação popular indicam oportunidades para indústrias e varejistas que equilibrem preço competitivo e qualidade. Com PIB per capita de R$ 21,5 mil e taxa de urbanização crescente, o Nordeste consolida-se como fronteira estratégica para empresas que souberem combinar escala e adaptação às particularidades regionais.

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