
Na disputa pela copa das cervejas no Nordeste, a Heineken colocou em campo mais um reforço. A partir deste mês, a Sol Zero, cerveja sem álcool e sem glúten da marca mexicana Sol, passa a ser distribuída em toda a região. Desde novembro de 2025, a bebida só era encontrada nas capitais Recife, Fortaleza e Salvador. Segundo maior mercado cervejeiro do país, responsável por cerca de 20% do consumo nacional, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), o Nordeste vem sendo “atacado” com o lançamento de rótulos do segmento premium com um apelo mais “saudável”. Uma lata de 350 ml de cerveja sem álcool e sem glúten tem entre 50 e 90 calorias, contra 130 a 180 calorias da cerveja convencional do mesmo volume. Com investimentos bilionários, as companhias disputam um mercado em transformação.
A Sol Zero não é o único movimento da Heineken na região. A cervejaria de Igarassu (PE) recebeu R$ 1,2 bilhão em 2025, triplicando a capacidade produtiva da unidade e tornando-a a maior produtora da marca Amstel no Nordeste. A planta abastece diretamente Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia, Alagoas, Paraíba e Sergipe, opera com energia 100% renovável e reduziu o consumo de água em 30% nos últimos três anos.
No portfólio de cervejas leves e sem glúten, a empresa avança com a Praya, marca carioca incorporada à Heineken Spin que passou a ser produzida em Jacareí (SP) a partir de dezembro de 2025 e projeta crescimento de 57% em 2026, com foco de expansão em Maranhão, Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Piauí, Ceará e Pernambuco. Em abril, Rafael Rizzi, diretor da Heineken Spin, avaliou o movimento: “A expansão da Praya reflete uma leitura clara de mercado: o consumidor brasileiro está diversificando suas escolhas e abrindo espaço para novas propostas dentro da categoria.”
Em maio, a empresa lançou a Heineken Ultimate, versão com 97 calorias, 3,5% de teor alcoólico e sem glúten, disponível em São Paulo com expansão nacional prevista até o final de 2026. A Heineken Zero representava cerca de 10% de toda a produção da companhia no Brasil no primeiro trimestre de 2026, com crescimento de 300% em cinco anos. Giovanna Abreu, gerente sênior de marketing da Sol Zero, disse: “A ampliação da distribuição reflete a crescente demanda por alternativas de consumo com moderação e leveza.”

Ambev: Maranhão, Piauí e portfólio fitness
A Ambev não fica atrás. Em abril, anunciou R$ 300 milhões na Fábrica Equatorial, em São Luís, para ampliar a capacidade produtiva e iniciar a produção local da Spaten, um de seus principais rótulos premium. A unidade, com cinco linhas de envase e capacidade para 150 mil garrafas e 130 mil latas por hora, abastece mais de sete estados do Nordeste e Norte. “O Nordeste é estratégico para o nosso negócio e para o futuro da categoria cervejeira no país”, disse Valdecir Duarte, vice-presidente de supply da Ambev. Nos últimos cinco anos, a companhia investiu cerca de R$ 2,8 bilhões no Nordeste, com 12 unidades industriais, 20 centros de distribuição e 87 revendedores, operação que gera mais de 18 mil empregos diretos e indiretos só no Maranhão.
No Piauí, a Ambev opera a cervejaria de Teresina desde 1982, unidade que abastece sete estados do Norte e Nordeste com capacidade de 1,7 milhão de hectolitros por ano. Em 2023, a fábrica piauiense recebeu R$ 90 milhões para abertura de nova linha de produção de garrafas de vidro. A Stella Artois Pure Gold, linha sem glúten lançada no Brasil em 2020, registrou crescimento de 150% em 2025 e de 160% no primeiro trimestre de 2026, com expansão de embalagem de 600 ml prevista para o Nordeste. O segmento classificado pela Ambev como “escolhas equilibradas”, que reúne produtos sem álcool, baixo teor alcoólico, menor teor calórico e sem glúten, cresceu mais de 70% no primeiro trimestre de 2026.
Em fevereiro deste ano, a Ambev lançou a Skol Zero Zero, cerveja sem álcool e sem açúcar. A Skol tem a maior penetração no mercado nordestino entre as marcas da companhia, e o lançamento da versão sem álcool estende o segmento ao consumidor de massa. A Michelob Ultra, outro rótulo do portfólio Ambev no segmento fitness, tem 74 calorias por lata de 350 ml, 3,5% de teor alcoólico e 80% menos carboidratos que as cervejas comuns. Avançou mais de 180% em volume no primeiro trimestre de 2026. O portfólio zero álcool da Ambev cresceu cerca de 30% em 2025 em relação a 2024, e as linhas sem álcool, de baixo teor alcoólico e sem glúten tiveram expansão superior a 65% no período.

Grupo Petrópolis: Itaipava Zero e Petra Ultra
A única grande cervejaria com capital 100% nacional também entra no segmento. O Grupo Petrópolis opera com duas frentes: a Itaipava, que tem a versão Zero Álcool com 0,0% de teor alcoólico e 60 kcal por lata, e a Petra, que em maio lançou a Petra Ultra na APAS Show 2026. A Petra Ultra é puro malte, sem glúten, com 4% de teor alcoólico e 67 kcal na lata de 269 ml, a menor caloria do mercado na versão long neck, segundo a empresa. O segmento de cervejas low carb cresceu 168% em volume desde 2022, de acordo com dados do próprio grupo.
A Itaipava tem no ex-jogador Ronaldinho Gaúcho o garoto-propaganda da Copa do Mundo de 2026, com estratégia de marketing concentrada no futebol. Em paralelo, a Petra entra no segmento fitness com a Ultra, e o grupo prepara ainda o lançamento da Black Princess Zero, versão sem álcool de outro de seus rótulos. “A APAS é uma plataforma onde as tendências ganham escala. Escolhemos este espaço para anunciar nossos lançamentos justamente porque acreditamos que as inovações devem ser apresentadas ao mercado onde elas terão uma presença maior”, disse João Netto, diretor de Marketing e Trade do Grupo Petrópolis.
A estratégia dual do Grupo Petrópolis, futebol para a Itaipava e saudabilidade para a Petra, reflete a leitura de que os dois perfis de consumidor coexistem no mesmo mercado nordestino. O segmento low carb cresceu 168% em volume desde 2022 e os canais de autosserviço respondem por mais de 80% das vendas do grupo, dado que orienta a distribuição da Petra Ultra prioritariamente em supermercados e atacadistas.

Mercado da cerveja no Brasil
A produção de cervejas sem glúten no Brasil cresceu 417,7% em 2025, de 71 milhões para 367,9 milhões de litros, segundo o Anuário da Cerveja 2026, do Mapa. A de cervejas sem álcool avançou 15,48% no mesmo período e já equivale a 1,27% de toda a cerveja fabricada no país. Os dois segmentos crescem enquanto o setor recua: a produção total caiu 8,85% em 2025, para 15,7 bilhões de litros. Cervejas puro malte avançaram 21,3% e chegaram a 29,2% do volume nacional. O Brasil encerrou 2025 com 44.212 cervejas registradas e 56.170 marcas ativas.
Em 2025, 64% dos brasileiros declararam não consumir álcool, contra 55% dois anos antes. Entre jovens de 18 a 24 anos, a abstenção avançou cerca de 20 pontos percentuais no mesmo período. Cervejas sem glúten são indicadas para celíacos e pessoas com sensibilidade ao glúten; a versão sem álcool é voltada a quem busca menor teor calórico e ausência dos efeitos do álcool. O Brasil é o segundo maior mercado de cerveja sem álcool do mundo, atrás apenas da Alemanha, segundo dados do setor.
Para Márcio Maciel, presidente-executivo do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), o setor soube se adaptar ao cenário: “Os números mostram um setor que segue evoluindo e ampliando sua presença no país. Nos cenários desafiadores que enfrentamos em 2025, a cerveja provou que pode se reinventar, se adaptar.”
Setor sob pressão
O mercado que recebe esses investimentos é altamente concentrado. Apenas 5% das cervejarias brasileiras são responsáveis por 98,62% da produção nacional; 1% concentram mais de 42% do volume total. Para as pequenas e médias cervejarias, a disputa pelos segmentos sem glúten e sem álcool envolve tecnologia de remoção de glúten e desalcoolização que exige escala e investimento industrial fora do alcance da maioria das artesanais.
O volume de cervejas importadas no Brasil cresceu 251,4% em 2025, saltando de 7,5 milhões para 26,3 milhões de litros. O público dos segmentos sem glúten e sem álcool, consumidor de maior renda e maior disposição para experimentar rótulos internacionais, está entre os mais expostos à concorrência estrangeira.
No comércio exterior, o setor compensou a retração de volume com valorização do produto. As exportações brasileiras de cerveja caíram 5,1% em volume em 2025, para 315,5 milhões de litros, mas atingiram US$ 218,4 milhões em valor, o maior resultado da série histórica. A cerveja brasileira foi exportada para 77 países, com o Paraguai respondendo por 62,3% do volume embarcado. O superávit da balança comercial cervejeira chegou a US$ 195 milhões, também recorde.
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