
“Nunca foi sorte.” O quadro na parede do quarto de Andreza Almeida em San Martin, no Recife, compõe o cenário, junto com estante, máquinas de impressão e corte e computador, de um escritório onde funciona a Deza Papelaria. O empreendimento está prestes a mudar para uma loja física, acompanhando o sucesso de encomendas que chegam a mais de 200 topos de bolo por mês. Andreza começou a batalhar por seu próprio negócio ainda na adolescência e tem o perfil dos jovens empreendedores mapeados pelo Sebrae no levantamento Empreendedorismo Jovem: resilientes, informais no início e responsáveis pelo sustento da família.
O estudo do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) analisou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do primeiro trimestre de 2012 ao quarto trimestre de 2025 e mapeou 4,9 milhões de jovens donos de negócio no Brasil, volume 20% superior ao de 2012. O levantamento considera jovem qualquer pessoa com até 29 anos e classifica como donos de negócio os trabalhadores por conta própria, que atuam sozinhos ou com sócio sem empregados, e os empregadores, que contratam pelo menos um funcionário.
Andreza se enquadra no primeiro grupo. Começou aos 17 anos, ainda no ensino médio, modernizando o negócio da mãe, que trabalhava manualmente com EVA para decoração de festas. A aposta inicial foi numa máquina de corte que ela aprendeu a operar pelo YouTube, sem curso formal. “Eu não fiz curso nenhum porque na época a gente não tinha condições. Abri o YouTube, comprei a máquina e fui aprendendo”, contou.
A virada veio durante a pandemia, quando fotografou um topo de bolo feito para o irmão doente e publicou nas redes sociais. A partir desse momento, o produto se tornou sua principal fonte de renda. Ela migrou do EVA para o papel, material com custo até 50% menor, e hoje opera duas máquinas de impressão e corte para dar conta da demanda, dedicando ao negócio uma jornada diária que varia conforme a entrada de pedidos.
A pesquisa do Sebrae mostra que esse perfil, jovem trabalhando por conta própria no setor de serviços, é o que predomina entre os empreendedores da faixa etária no Brasil. O setor de serviços concentra 57,3% dos jovens donos de negócio, crescimento de 22,5 pontos percentuais desde 2012 e recorde histórico da série, enquanto os demais setores recuaram: comércio (17,1%, queda de 5,8 p.p.), construção (10,8%, queda de 8 p.p.), agropecuária (9,5%, queda de 7 p.p.) e indústria (5,4%, queda de 1,6 p.p.).
No total, 93% dos jovens empreendedores atuam sem empregados, proporção significativamente maior que a de adultos (85%) e seniores (85,1%). Os trabalhadores por conta própria jovens dedicam em média 36 horas semanais ao negócio; os que chegam a contratar funcionários trabalham 44 horas, sete a mais que a média do grupo. Apenas 7% são empregadores, percentual que corresponde à metade do observado nas faixas etárias mais velhas.
Formalização: o passo que muda a renda
A formalização chegou para Andreza em 2023, quando ela abriu o CNPJ pelo próprio site do Sebrae. “Eu vi que estava trabalhando de forma informal e disse: a gente precisa de um CNPJ. Abri no site do Sebrae, tinha tudo explicando lá, foi super fácil”, relatou. O registro abriu acesso a descontos em distribuidores e à emissão de nota fiscal para vendas pela internet. O impacto na renda, segundo a pesquisa do Sebrae, é direto: jovens donos de negócio com CNPJ registraram rendimento médio habitual de R$ 4.758 no quarto trimestre de 2025, valor 156% superior ao dos que atuam sem registro (R$ 1.860). A evolução histórica reforça o argumento: jovens sem CNPJ partiram de R$ 1.433 em 2015 e chegaram a R$ 1.860 em 2025, crescimento real de 29,8%; os formalizados saíram de R$ 3.627 para R$ 4.758 no mesmo período, crescimento de 31,2%.
O levantamento mostra que a formalização avança entre os jovens, mas ainda está abaixo da média geral. A proporção com CNPJ saltou de 20,9% em 2015 para 28,4% em 2025, o maior avanço entre todas as faixas etárias, superando adultos (6,7 p.p.), total de donos de negócio (6,2 p.p.) e seniores (2,2 p.p.). Ainda assim, o percentual permanece 6,3 pontos percentuais abaixo da média geral (34,7%). Na previdência, apenas 31,3% dos jovens donos de negócio contribuem para a Previdência Social, contra 40,5% da média geral. “Sem proteção social, o jovem dono de negócio fica mais vulnerável. É fundamental orientar esse público sobre as vantagens de atuar na formalidade, protegido pela figura do microempreendedor individual”, afirmou o presidente do Sebrae, Rodrigo Soares.

Sustento, estudo e responsabilidade familiar
Andreza passou no vestibular de medicina e abriu mão do curso para manter o negócio. “Eu não me arrependo hoje porque eu tenho uma fonte de renda bem legal, mas eu tive que abrir mão de muitas coisas da minha vida”, disse. Hoje ajuda no sustento da mãe e contribui para o orçamento da casa que divide com o namorado. O caso reflete um dos dados centrais da pesquisa do Sebrae: 37,2% dos jovens empreendedores brasileiros são chefes de domicílio no quarto trimestre de 2025, percentual superior em 5 pontos percentuais ao de 2012. Até 2023, a posição mais comum do jovem empreendedor na família era a de filho.
O mesmo levantamento aponta que 14,6% dos jovens donos de negócio frequentavam instituições de ensino em 2025, taxa 4 vezes maior que a de adultos donos de negócio (3,6%) e 14 vezes maior que a de seniores (1,0%). Andreza é um caso particular: conciliou escola e negócio aos 17 anos, mas precisou escolher entre a universidade e a empresa quando a demanda cresceu. O perfil do grupo mapeado pela pesquisa tem predominância masculina e negra: homens respondem por 63,5% do total e negros por 57,1%, percentual acima da participação de negros entre todos os donos de negócio do país (52,3%). A escolaridade avançou ao longo dos 13 anos da série: os com ensino médio completo passaram de 31,2% para 46,2% e os com ensino superior incompleto ou mais saltaram de 14,1% para 27,8%.
O Nordeste dos jovens empreendedores
O Nordeste concentra 24,9% dos jovens empreendedores do Brasil, mas registra, segundo a pesquisa do Sebrae, a menor taxa de empreendedorismo jovem entre todas as regiões: apenas 8,9% dos jovens nordestinos são donos de negócio, contra 10,8% no Sudeste e 10,7% no Sul. A participação regional no total nacional caiu 8,3 pontos percentuais desde 2012, quando o Nordeste e o Sudeste tinham participações praticamente iguais, em torno de 33%. Em 2025, a fatia nordestina encolheu para 24,9% enquanto o Sudeste avançou para 43,2%.
Dentro da região, o desempenho é desigual por estado. O Maranhão (10,5%) é o único estado nordestino entre os cinco com maior taxa de empreendedorismo jovem do país, ao lado de Santa Catarina (12,4%), São Paulo (11,2%), Paraná (10,7%) e Rio de Janeiro (10,7%). Na outra ponta, Paraíba (7,2%), Pernambuco (7,9%) e Piauí (7,6%) registram as menores taxas da região. Bahia (10,3%), Sergipe (9,1%), Alagoas (8,4%), Ceará (8,1%) e Rio Grande do Norte (8,0%) ocupam posições intermediárias. O levantamento aponta ainda quatro desafios centrais para o grupo: abismo de rendimento em relação às demais faixas etárias, baixa proteção social pela ausência de previdência e formalização, crescente responsabilidade familiar e baixo número de jovens que chegam a contratar funcionários.
O próximo passo
Em 2025, Andreza tornou-se parceira de uma fabricante de máquinas de corte e passou a dar mentorias online, presenciais e workshops para outras empreendedoras, a maioria mães jovens que não conseguem sair de casa para trabalhar e encontram na máquina uma fonte de renda doméstica. A visão que ela transmite nessas mentorias é também uma filosofia de negócio: ela compartilha dicas gratuitamente porque acredita que não adianta guardar conhecimento num mercado com demanda maior do que qualquer produtora individual consegue atender. “Às vezes são coisas pequenas que não vão fazer diferença na nossa vida e vão até ajudar outras pessoas”, disse.
Para este ano, planeja inaugurar a loja física no próprio bairro de San Martin, no Recife. “Minha ideia sempre foi ter uma loja em que a pessoa entre e encontre tudo para sua festa”, projetou. O rendimento médio dos jovens donos de negócio, segundo o levantamento do Sebrae, cresceu 28% em termos reais entre 2012 e 2025, ritmo superior à média geral (16,6%), e passou a corresponder a 73% do rendimento total dos donos de negócio, contra 66% em 2012. A defasagem persiste, R$ 955 por mês a menos que a média geral, mas a trajetória aponta na direção certa. Para Andreza, o medo faz parte do percurso. “A gente não sabe qual é o próximo passo que vai dar, realmente dá muito medo de empreender, mas o importante é organizar as ideias e saber que quando o próximo passo vier, a gente vai saber lidar”, disse. “Se eu tivesse desistido, não estaria acontecendo tudo isso comigo hoje.”
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