
A aprovação da Medida Provisória 1.343/2026 pela Câmara dos Deputados acendeu um alerta entre as indústrias nordestinas. A proposta, conhecida como MP do Frete, fortalece a política de pisos mínimos para o transporte rodoviário de cargas e pode ampliar um dos principais gargalos históricos da região: o alto custo logístico.
Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Nordeste já é a região mais impactada pelo tabelamento dos fretes, com aumento médio de 20,3% nos custos de transporte, acima da média nacional de 16,4%.
O novo texto, relatado pelo deputado Zé Trovão (PL-SC), determina o bloqueio digital de operações contratadas abaixo do piso mínimo definido pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), impedindo o início da viagem. A MP também estabelece um piso salarial de R$ 5 mil mensais para motoristas de longa distância. A proposta segue agora para análise do Senado, que terá até 16 de julho para deliberar antes que a medida perca a validade.
Para empresários e entidades industriais do Nordeste, a iniciativa amplia distorções históricas de uma região fortemente dependente do modal rodoviário e com baixa disponibilidade de cargas de retorno.
Dependência das estradas pesa no frete do Nordeste
De acordo com a Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), a estrutura logística nordestina possui menor participação de modais alternativos, como ferrovias e hidrovias, o que reduz as opções de transporte e aumenta a dependência das rodovias.
Outro fator decisivo é a dinâmica dos fretes de retorno. Como grande parte das mercadorias segue do Sudeste para o Nordeste sem que haja volume equivalente no sentido inverso, tornou-se comum a prática de negociar fretes mais baratos para evitar que caminhões retornem vazios. Com a exigência de cumprimento integral da tabela mínima também nessas operações, a economia gerada por esse modelo tende a desaparecer.
O presidente da Federação das Empresas de Transportes de Cargas e Logística do Nordeste (Fetracan), Nilson Gibson, afirma que a disparidade entre oferta e demanda de cargas explica o impacto mais severo na região.
“Existe uma oferta muito maior de transporte vindo do Sudeste para o Nordeste e pouca oferta no sentido contrário. O chamado frete de retorno praticamente cobria apenas os custos operacionais do motorista. Com o piso mínimo, esse equilíbrio foi rompido e os custos aumentaram”, explica.
Segundo ele, setores que precisam transportar grandes volumes de matéria-prima e produtos acabados em longas distâncias sentirão os efeitos de forma mais intensa. “A indústria que depende de insumos e precisa escoar sua produção para outras regiões sofre mais porque muitas vezes não há perspectiva de carga de retorno”, afirma.
Gibson acrescenta que transportadores e empresários discutem junto à ANTT a criação de parâmetros regionais. “O agro e a indústria têm pressionado por uma tabela diferenciada para o Nordeste, mas ainda não existe nenhuma perspectiva concreta”, acrescenta.
Polo gesseiro prevê alta de até 90% nos fretes
Entre os segmentos mais vulneráveis está o Polo Gesseiro do Araripe, responsável por cerca de 90% da produção nacional de gipsita. A cadeia produtiva concentra aproximadamente 560 empresas e responde por 13,8 mil empregos diretos e 69 mil indiretos na região. O setor estima que os novos critérios poderão elevar os custos de transporte entre 60% e 90%, dependendo da rota e do tipo de carga.
O diretor da Fiepe no Sertão do Araripe, Fábio Monteiro, afirma que o impacto pode comprometer a viabilidade econômica de diversas operações. “Na cadeia do gesso, a melhor situação de reajuste do frete fica próxima de 60%, mas há casos que chegam a 90%. Em alguns cenários, o custo praticamente dobra”, afirma.
Segundo ele, a distância dos grandes centros consumidores agrava o problema. “O gesso está a cerca de 700 quilômetros das principais capitais do Nordeste e a 2,6 mil quilômetros de São Paulo, nosso maior mercado consumidor. É uma cadeia de baixo valor agregado, na qual o frete representa uma parcela muito significativa do preço final”, explica.
Dados apresentados pelo Sindusgesso mostram que o frete de uma carreta de nove eixos entre o Araripe e São Paulo pode ter um aumento de 71% com a aplicação integral da tabela da ANTT. Em rotas para veículos menores, a variação supera 100%.
O estudo também aponta que o custo do transporte pode superar o valor da mercadoria. Atualmente, uma tonelada de gipsita é comercializada por cerca de R$ 50, enquanto o frete para grandes centros consumidores pode alcançar R$ 700 por tonelada.
“No caso do gesso para construção civil, a tonelada custa entre R$ 290 e R$ 320. O frete pode chegar a quase R$ 600. Não faz sentido econômico. O consumidor tende a migrar para produtos substitutos”, alerta Monteiro. Entre as alternativas apontadas pelo setor estão o aumento do uso de drywall industrializado, argamassas estabilizadas e sistemas construtivos baseados em concreto e alvenaria.
Setor teme perda de competitividade e avanço das importações
Em ofício encaminhado ao Ministério dos Transportes e à ANTT, o Sindusgesso solicita a criação de um regime logístico diferenciado para o Polo Gesseiro do Araripe, com coeficientes específicos para a região. A entidade argumenta que a metodologia atual desconsidera fatores como a previsibilidade das rotas, os ganhos de escala e o aproveitamento do frete de retorno.
O documento destaca ainda que a aplicação uniforme da política de pisos mínimos tem ampliado a competitividade da gipsita importada e estimulado a instalação de unidades industriais mais próximas dos mercados consumidores do Sul e Sudeste.
“Não se trata apenas de uma demanda setorial, mas de uma ação estruturante de política pública para evitar a desarticulação de uma cadeia estratégica para Pernambuco e para o país”, afirma o sindicato no documento.
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