
As exportações de melão do Ceará somaram US$ 90,94 milhões nos cinco primeiros meses de 2026. O valor, alcançado em apenas cinco meses, já supera todo o montante exportado em 2025, que fechou em US$ 85,67 milhões, e representa crescimento de 15,83% em relação ao mesmo período do ano passado. O desempenho consolida o Ceará na segunda posição do ranking nacional dos estados exportadores de melão, atrás apenas do Rio Grande do Norte, segundo dados da Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE-CE). Nesse cenário de expansão, a Itaueira Agropecuária, uma das principais produtoras de melões e melancias do Nordeste, aposta na diversificação do portfólio: a minimelancia sem sementes da marca Magali, ainda com participação pequena no faturamento da empresa, é tratada internamente como uma estratégia de médio prazo para mudar o hábito de consumo da fruta no país.
Em entrevista ao Movimento Econômico, Caito Prado, diretor comercial da Itaueira, explica que a meta da empresa é substituir gradualmente as melancias grandes e com sementes, modelo predominante no mercado brasileiro há décadas, por frutas menores, sem sementes e mais práticas para o cotidiano das famílias. O formato, segundo o executivo, reduz o desperdício no varejo e sustenta a lembrança da marca, ou recall, ao longo do ano, e não apenas nos períodos de safra concentrada.
“Ela representa um pequeno percentual do faturamento total da empresa, mas possui alta importância por liderar uma transição de consumo no mercado brasileiro. O grande diferencial se fundamentou em focar no mercado nacional, oferecendo uma fruta de categoria premium, com prioridade para o sabor e a doçura constantes, a fim de conquistar a confiança dos consumidores”, afirma Prado.

Itaueira aposta em fruta sem semente
A lógica de driblar a sazonalidade não fica restrita ao mercado interno. A melancia sem sementes é um dos produtos em expansão na pauta de exportação cearense, favorecida pela maior durabilidade da fruta, que permite o escoamento mesmo fora dos picos da safra europeia, período em que o consumo no continente costuma ser menor.
A própria Itaueira é protagonista desse movimento. Depois de sete anos produzindo nos estados da Bahia e do Piauí, a empresa anunciou a retomada da produção em solo cearense a partir do segundo semestre de 2025, com operação concentrada em Morada Nova. A meta era alcançar 34 mil toneladas de produção local já naquele ano, com 85% do volume composto por melões de alta qualidade destinados à exportação para a Europa, o Canadá e a região do Golfo Pérsico. A expansão motivou a abertura de 900 vagas de emprego na região, entre funções de campo e de embalagem.
O movimento da Itaueira acompanha uma tendência mais ampla do setor. Em 2025, as exportações cearenses de frutas somaram US$ 182,9 milhões, alta de 46,3% sobre o ano anterior, impulsionadas por produtos como o melão fresco. No mesmo ano, as vendas externas totais do Ceará alcançaram US$ 2,28 bilhões, em uma recuperação histórica do comércio exterior do estado. Na pauta de frutas do Ceará, o melão ocupa hoje a segunda posição entre os produtos mais exportados, atrás apenas da manga.

Um reforço poderá ser utilizado nas exportações a partir de 2027, com uma nova via de escoamento para a fruticultura do estado. Segundo a Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE), a operação da Omnia, braço logístico ligado a plataformas como o TikTok, deve trazer cerca de 15 cargueiros aéreos mensais da China ao Ceará a partir do ano que vem, transportando equipamentos para a construção data center. O ponto central da estratégia, segundo o governo estadual, está no que acontece depois da descarga: hoje, esses aviões chegam carregados e retornariam vazios à China caso não haja planejamento e é justamente esse espaço de carga ocioso que a SDE pretende ocupar com produtos perecíveis do interior cearense. A meta é ocupar os porões das aeronaves com frutas premium, pescados finos, água de coco e castanhas.
“Os aviões chegam com equipamentos de alta tecnologia e nossa missão é fazer com que retornem levando o que o Ceará tem de melhor. Estamos planejando usar o frete de retorno para exportar melão, que é uma fruta altamente perecível, além de vestuário, calçados e flores”, afirma o secretário da SDE, Fábio Feijó.
Caju e acerola no portfólio para a China
De olho no mercado asiático, a Itaueira participou, entre 15 e 17 de junho, da Food Ingredients China 2026, evento em que apresentou à indústria asiática de alimentos, bebidas e nutracêuticos do seu portfólio de sucos clarificados, polpas e concentrados de frutas tropicais, entre eles de acerola, caju, melancia e melão. A empresa busca se posicionar como fornecedora estratégica do setor, com rastreabilidade e padronização como diferenciais, em um modelo que reproduz a integração já praticada pela Agropecuária: parcerias com pequenos produtores garantem o abastecimento de frutas tropicais ao longo do ano, sustentando a mesma lógica de previsibilidade que orienta as apostas do grupo tanto no mercado interno quanto no externo.
No caso da acerola e o caju, as frutas são compradas de diversos produtores com os quais a empresa tem parceria e são processados na Itaueira Industrial Ltda, que faz parte do grupo e fica em Palhano, no Vale do Jaguaribe. A participação dessa empresa no faturamento consolidade do grupo chega a 4%, mas a Itaueira informa que acredita no potencial e crescimento do segmento.

Ingredients (Fi) China 2026, que busca parcerias e expansão no mercado chinês – Foto: Divulgação
Infraestrutura energética e hídrica ainda são entraves, diz diretor
Questionado sobre o que ainda falta avançar para que o setor sustente esse ritmo de crescimento, Prado foi direto ao apontar os gargalos estruturais que, em sua avaliação, seguem limitando o potencial exportador do Ceará. Na infraestrutura energética, ele defende que o sistema elétrico rural, redes de alta tensão e subestações, precisa de reforço contínuo, já que a modernização dos sistemas de irrigação automatizados depende diretamente da disponibilidade de energia no campo. No caso da Itaueira, foi necessário um investimento público de R$ 33 milhões do Estado para implantar uma linha de transmissão de 69 KV de quase 69 km para viabilizar os modernos sistemas de irrigação automatizados no campo.
Na gestão hídrica, o diretor cobra ampliação do volume de água transposto do Rio São Francisco para o Açude Castanhão, hoje entre 10 e 20 m³/s, volume que, segundo ele, é mínimo se comparado ao que o rio despeja no mar e que limita a expansão de novas áreas irrigadas no semiárido. Já no campo regulatório, Prado reconhece avanços recentes, mas pede mais agilidade dos órgãos ambientais na liberação de licenças de operação e expansão de lavouras, um entrave que, na visão do executivo, pode frear o ritmo de crescimento projetado pela empresa e por outros produtores da região nos próximos anos.
“O volume de água que chega hoje ao agronegócio cearense pela transposição, entre 10 e 20 m³/s é mínimo comparado ao que o rio despeja no mar. Esse volume precisa ser ampliado”, defende.

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