
O estudo “Economia brasileira e regional: retomada ameaçada”, elaborado pelo Banco do Nordeste traz um recorte sobre os conflitos geopolíticos — em especial a que envolve Estados Unidos, Irã e Israel — como um dos principais fatores de risco para o cenário econômico brasileiro projetado para 2026. Divulgado esta semana, o documento assinado pelo economista-chefe Rogério Sobreira, deixa claro que o ambiente externo adverso tem potencial de influenciar diretamente o desempenho do Brasil e, por consequência, da economia nordestina.
Com o prolongamento do conflito no cenário internacional, a inflação doméstica fica cada vez mais pressionada, sobretudo por meio da elevação dos preços do petróleo e seus derivados.
Os primeiros sinais desse movimento já aparecem nos indicadores recentes de preços. O IPCA-15 divulgado em 28 de abril mostrou forte aceleração no grupo Transportes, cuja variação passou de 0,21% para 1,34%, refletindo principalmente o aumento nos preços da gasolina e do óleo diesel — comportamento consistente com o ambiente externo mais pressionado no mercado de petróleo.
Com os efeitos do conflito começando a serem transmitidos para a economia brasileira, o temor é que os danos avancem sobre outras cadeias produtivas além dos combustíveis, caso a guerra persista. Se isso ocorrer, entende Rogério Sobreira, o atual processo de desinflação pode ser interrompido, com repercussões diretas sobre a política de juros e, consequentemente, sobre o ritmo de recuperação da atividade econômica.
Caso os choques externos elevem ainda mais a inflação, o espaço para redução da taxa de juros diminui, prolongando esse ambiente restritivo. O economista alerta que isso impacta diretamente o crédito, que, apesar de crescer, já dá sinais de desaceleração. Entre janeiro de 2024 e março de 2026, o saldo de crédito no Brasil avançou 25,3%, enquanto no Nordeste o crescimento foi mais intenso, de 30,1% . Em um cenário global adverso, esse ritmo tende a perder força.
Guerra afeta mercado à vista
Uma forma de medir as expectativas do mercado em relação a esse cenário é a comparação entre os preços do petróleo no mercado à vista (LCO) e os contratos futuros com vencimento em dezembro de 2026 (BRNZ26). Em termos simples, essa diferença indica se os agentes esperam alta, estabilidade ou queda dos preços ao longo do tempo.
Considerando o comportamento dos preços desde o início do conflito, a leitura inicial era de que o mercado não precificaria uma guerra longa, sugerindo uma acomodação a partir de meados do ano. No entanto, essa percepção perde força quando se observa a evolução das cotações após o cessar-fogo anunciado em 7 de abril – acordo temporário que sinalizou uma possível contenção das tensões, mas sem resolução definitiva do conflito — acordo temporário que sinalizou uma possível contenção das tensões, mas sem resolução definitiva do conflito —, indicando maior incerteza sobre a duração e intensidade do conflito.
Apesar desse ambiente de instabilidade, há fatores que funcionam como freio a uma escalada mais intensa. O estudo destaca que um agravamento significativo da guerra — com uso de armamentos mais potentes e envio de tropas — encontra forte desincentivo por parte dos Estados Unidos. A referência histórica são os choques do petróleo da década de 1970, que resultaram em forte aceleração da inflação, elevação dos juros e recessão na economia americana. Embora o contexto atual seja distinto, uma escalada semelhante poderia provocar efeitos macroeconômicos comparáveis, o que aumenta a cautela das principais economias globais, especialmente em um ano eleitoral nos Estados Unidos.
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