
Os gastos dos brasileiros com apostas online superaram R$ 30 bilhões por mês em março de 2026, crescimento de mais de 500% desde janeiro de 2023, quando os valores partiam de “praticamente zero”, revela estudo inédito da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgado nesta terça-feira (28) em Brasília. O volume mensal de gastos com apostas se aproxima das receitas mensais de todo o setor de planos de saúde privada do Brasil: segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as operadoras registraram receitas de R$ 391,6 bilhões em 2025, equivalente a R$ 32,6 bilhões por mês.
O levantamento, intitulado “Impactos das Apostas Online (Bets) no Endividamento e Inadimplência das Famílias Brasileiras”, estima que a inadimplência gerada pelos gastos com plataformas de apostas retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026, montante equivalente ao volume de vendas nos períodos de Natal de 2024 e 2025.
O documento foi citado na justificativa do Projeto de Lei nº 1.808/2026, protocolado em 14 de abril pelo deputado Pedro Uczai (PT-SC), líder da bancada do PT na Câmara dos Deputados, com a assinatura de 67 parlamentares de partidos como PT, Rede e PSOL. A proposta proíbe definitivamente a oferta de apostas de quota fixa em todo o território nacional e revoga as Leis nº 13.756/2018 e nº 14.790/2023, que estruturaram o marco legal das apostas esportivas e jogos online no país.
O estudo, elaborado pela Gerência Executiva de Análise e Desenvolvimento Econômico (Geade) da CNC, utiliza dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) e aplica a metodologia de diferenças em diferenças (DiD) para analisar o período de 2021 a 2026. O método remove o efeito de tendências macroeconômicas gerais como aumento da renda, redução do desemprego e elevação dos juros, e isola exclusivamente o impacto causado pela expansão das plataformas de apostas.
A análise estabelece pela primeira vez uma relação de causalidade entre o uso de bets e o aumento da inadimplência, estimando que 268 mil famílias ingressaram em situação de inadimplência severa, caracterizada por atrasos de 90 dias ou mais. “Nos últimos dois anos, o comércio deixou de faturar R$ 143 bilhões por conta desse fenômeno”, afirmou o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, responsável pela apresentação do estudo.
Perfil do risco das bets e efeito substituição
O impacto das bets sobre o endividamento varia conforme o grupo demográfico. O estudo aponta que homens, famílias de baixa renda (até cinco salários mínimos), pessoas com 35 anos ou mais e aquelas com maior escolaridade (segundo grau completo ou mais) apresentam maior vulnerabilidade.
Nas camadas de renda mais baixa, o efeito é generalizado: deterioração do orçamento, aumento do endividamento global e dificuldade crescente de reversão das dívidas. Nas faixas de renda acima de dez salários mínimos, houve redução das dívidas formais, mas aumento dos atrasos de pagamento, com desvio de recursos para as plataformas. “As bets afetam principalmente as famílias mais vulneráveis, aumentando seu endividamento global, enquanto para os mais ricos funcionam como substituto de outras formas de endividamento, embora também gerem inadimplência”, descreve o estudo.
Para Bentes, o mecanismo é o de “efeito substituição”: parcela da renda que deveria quitar dívidas ou sustentar o consumo é direcionada às plataformas. “Podem deixar de trocar de celular ou podem deixar de comprar uma peça de vestuário por causa de agravamento da sua dívida”, exemplificou.
Atualmente, oito em cada dez famílias (80,4%) estão endividadas no Brasil, indicador próximo aos 78% verificados no final de 2022. Entre 2019 e 2022, essa proporção cresceu quase 20 pontos percentuais. O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, defendeu a implementação de políticas públicas regulatórias para as plataformas e de proteção aos consumidores. “O impacto já deixou de ser pontual e se tornou macroeconômico. Precisamos discutir os limites desse mercado, especialmente no que diz respeito à publicidade e à proteção das famílias brasileiras”, afirmou.
IBJR questiona metodologia e aciona contraponto
Na véspera da divulgação do estudo, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa as plataformas de aposta eletrônica que operam legalmente no Brasil, enviou notificação formal à CNC exigindo “transparência metodológica” e acesso integral às bases de dados utilizadas, incluindo modelos estatísticos, variáveis consideradas, hipóteses adotadas e critérios de causalidade. O prazo indicado para resposta é de cinco dias úteis.
Para o IBJR, as conclusões divulgadas pela CNC são “alarmistas e contrariam frontalmente as métricas oficiais”, e parte delas estaria “completamente desalinhada com os dados oficiais”. O instituto também citou estudo da LCA Consultoria Econômica, encomendado pela própria entidade, que indica participação reduzida dos gastos com apostas no consumo das famílias e no Produto Interno Bruto (PIB). O estudo completo da CNC está disponível em: https://static.poder360.com.br/2026/04/pesquisa-cnc-1.docx
*Com informações da CNC e da Agência Brasil
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