
A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) iniciou articulação com governos estaduais para desenvolver uma metodologia de cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste que incorpore especificidades da economia regional não captadas pelos modelos atuais. O primeiro encontro ocorreu nesta terça-feira (28) com representantes da Secretaria de Planejamento de Pernambuco e a proposta prevê ampliar o diálogo para os demais estados nordestinos e outras instituições públicas de produção estatística nos próximos meses. A expectativa da autarquia é apresentar os primeiros resultados em até um ano. Os dados também deverão reforçar o Data Nordeste, plataforma da Sudene voltada à centralização de informações sobre a região.
A iniciativa tem como pano de fundo um diagnóstico já documentado pela própria autarquia. Estudo inédito elaborado pela Sudene em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), divulgado em 24 de fevereiro, analisou os efeitos do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE) sobre emprego, renda e PIB nos municípios atendidos entre 2008 e 2023 e concluiu que municípios com empreendimentos financiados pelo fundo registraram aumento médio de 24% no PIB per capita, com retorno de R$ 32 para cada R$ 1 investido.
O benefício estimado sobre o PIB per capita variou entre R$ 40,2 bilhões e R$ 145,8 bilhões no período — impacto que, segundo a Sudene, os modelos convencionais de mensuração capturam de forma parcial.
“A relevância deste estudo está na transição de uma análise de gastos para uma análise de impacto real. Não avaliamos apenas se o PIB aumentou, mas testamos efeitos em áreas sensíveis, como mortalidade infantil e desempenho escolar”, destacou na época Gabriela Isabel, doutora em Estatística e técnica da unidade de Estudos e Pesquisas da Sudene.
O que os modelos atuais não capturam no PIB
A proposta de nova metodologia parte do reconhecimento de que setores em expansão no Nordeste — energias renováveis, economia criativa e cadeias ligadas à bioeconomia — não são adequadamente mensurados nas estatísticas regionais disponíveis.
“O cálculo atual segue metodologias consolidadas e cumpre papel importante na produção de estatísticas econômicas. O que buscamos agora é complementar esse trabalho com um modelo que incorpore mais especificidades da economia nordestina”, afirmou José Farias, coordenador-geral de Estudos e Pesquisas da Sudene.
O Nordeste respondeu por 14,7% do PIB nacional em 2023, segundo as Contas Regionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com comércio e serviços representando 64% do produto regional, seguidos pela indústria (15%) e agropecuária (11,5%).
O crescimento médio do PIB nordestino foi de 2,4% ao ano entre 2002 e 2023, com os estados da região registrando as maiores taxas de crescimento do país em 2024, segundo a Sudene. Para Farias, a ausência de um modelo que contemple setores emergentes limita a leitura sobre o real dinamismo econômico da região. “Com dados mais próximos da realidade regional, a Sudene torna o planejamento mais assertivo para orientar políticas públicas”, complementou.
Articulação estadual e próximos passos
Durante o encontro com a equipe técnica de Pernambuco, foram discutidas metodologias de mensuração e estratégias para uniformizar os critérios adotados pelos estados, além das atividades econômicas que podem ser objeto de estudo. A agenda de articulação deve envolver os demais governos estaduais nos próximos meses.
O impacto do FDNE em casos concretos ilustra o alcance do que uma mensuração mais precisa pode revelar: em Goiana (PE), o PIB per capita municipal saltou de R$ 13,3 mil em 2010 para R$ 279 mil em 2021 — crescimento superior a 2.000% — após os aportes do fundo para a instalação do polo automotivo. O setor industrial passou a representar 48,1% do PIB local, inserindo o município entre as 100 cidades com maior produção industrial do país.
“Os resultados demonstram que o FDNE cumpre um papel estruturante na geração de renda e na dinamização do mercado de trabalho nos municípios atendidos. Ao mesmo tempo, os resultados nos ajudam a enxergar onde podemos aprimorar critérios, priorização e monitoramento, tornando o fundo ainda mais eficiente”, destacou Heitor Freire, diretor de gestão de Fundos, Incentivos e de Atração de Investimentos da Sudene.
*Com informações da Sudene
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