
O mercado de lentes no Brasil tem caminhado de forma acelerada em busca de inovação para conter o avanço de uma epidemia: o uso severo de telas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que metade da população, com boa parcela de crianças, estará míope até 2050. Durante a Expo Óptica, realizada em São Paulo, empresas do setor apresentaram desde soluções voltadas à progressão da miopia infantil até tecnologias de medição com inteligência artificial e lentes pensadas para adultos que passam boa parte do dia entre celular, computador e ambientes com variação de luz.
A mudança de perfil do consumidor ajuda a explicar esse movimento. Se antes a lente era vista apenas como item técnico de correção, hoje ela passa a responder também a novas exigências de rotina, ergonomia, adaptação e personalização. Para a diretora executiva da Abióptica, Ambra Nobre, esse avanço precisa ser entendido dentro de uma lógica mais ampla, em que saúde visual, tecnologia e comportamento caminham juntos.
“Hoje nós somos um setor de saúde visual. O que fazemos é ajudar as pessoas a enxergarem melhor. E tudo isso pode vir acompanhado de autoestima, identidade e expressão”, afirmou.
A executiva observa que o óculos deixou de ocupar apenas o lugar da obrigação e passou a ser percebido também como instrumento de expressão. Nesse contexto, as lentes ganham importância crescente porque são elas que determinam adaptação, conforto, nitidez e proteção visual em uma rotina cada vez mais mediada por telas e luz artificial.

Miopia em crianças e adolescentes entra no radar da indústria
Uma das frentes que mais mobilizam o setor hoje é a preocupação com a progressão da miopia em crianças e adolescentes. A Hoya, fabricante japonesa de lentes com presença nacional, apresentou na feira soluções voltadas a esse cenário, entre elas a MiYOSMART, desenvolvida para ajudar no controle da progressão da miopia infantil.
“Até 2050, estima-se que 50% da população mundial será míope. Por isso, a gente investe muito em estudos clínicos e em soluções voltadas à progressão da miopia infantil”, afirmou Déborah Mechi, gerente de marketing da Hoya, ao Movimento Econômico.
Segundo ela, a preocupação ganhou força sobretudo após a pandemia, quando o aumento do tempo de exposição a telas e a redução das atividades ao ar livre passaram a ser associados ao crescimento dos casos. Ela afirma que, além da lente em si, a empresa também trabalha com ações de conscientização voltadas a pais e responsáveis.
“Depois da pandemia, nós tivemos também um aumento dos casos de miopia em crianças e adolescentes. E o uso de telas acaba sendo prejudicial para o desenvolvimento da miopia, além do fator genético”, disse.
Longas jornadas digitais ampliam busca por lentes de conforto
Se a miopia infantil concentra boa parte da atenção no público mais jovem, entre os adultos o avanço do uso de telas vem puxando a procura por soluções voltadas a conforto visual, hidratação e redução do cansaço ocular. É aí que entram lentes com antirreflexo, bloqueio de luz azul, adaptação a diferentes condições de luminosidade e materiais mais confortáveis para uso prolongado.
“Hoje nós temos uma lente indicada para adultos que passam muito tempo diante de telas, além de antirreflexos que ajudam a bloquear a incidência da luz azul. É uma procura que cresce a cada dia”, afirmou Déborah Mechi.

No segmento de lentes de contato, a Bausch Lomb também vê esse movimento ganhar espaço. Segundo Erica Massarotti, Professional Affairs Specialist da companhia, o consumidor vem demonstrando maior interesse por soluções que aliem praticidade e saúde ocular, especialmente no caso das lentes de descarte diário.
“O mundo ideal, para saúde ocular, seria a lente one day. Você coloca de manhã e joga fora à noite. Isso traz muito mais segurança e conforto para o usuário”, afirmou.
Ela explica que, embora as lentes mensais ainda tenham peso importante no mercado, as lentes de uso diário representam uma tendência relevante por reduzirem o risco de acúmulo de resíduos e ampliarem o conforto ao longo do dia. Ela destaca ainda o avanço de tecnologias voltadas à retenção de hidratação e ao equilíbrio da lágrima, fatores importantes para quem usa lente por muitas horas.
“Essa lente oferece 16 horas de hidratação ao longo do dia e consegue reter 96% de toda a hidratação que entrega. Isso ajuda muito no conforto do usuário”, disse Erica, ao comentar uma das linhas foco da empresa.

Medição digital e IA aceleram precisão e adaptação das lentes
Outro eixo forte de inovação no setor é a digitalização do processo de medição e fabricação. A Hoya apresentou na feira equipamentos como o VisuReal e o Tracer, que ajudam a captar medidas da armação e do rosto com maior precisão e a transmitir esses dados diretamente para a produção da lente.
“O VisuReal utiliza várias câmeras acopladas para captar medidas essenciais da armação, e o Tracer envia as informações direto para o sistema, permitindo que a lente já chegue no corte exato que a armação precisa”, afirmou Déborah.
Segundo ela, esse tipo de tecnologia reduz erros, melhora a adaptação e agiliza a entrega. Em vez de depender de uma cadeia mais longa de medições e recortes manuais, a ótica passa a trabalhar com informações digitalizadas, integradas ao laboratório e adaptadas ao desenho exato da lente.
Na avaliação da Abióptica, essa incorporação de inteligência artificial e medição digital aconteceu de forma muito rápida no mercado brasileiro. Ambra diz que a IA já entrou na rotina das óticas não apenas na gestão e no atendimento, mas também na demonstração das lentes e na produção.
“A IA entrou silenciosa no setor óptico e hoje está em toda a cadeia, do atendimento ao consumidor e na produção das lentes. Ela já virou ferramenta de rotina”, afirmou.
Ela destaca que, além de totens e tablets usados para capturar medidas do rosto e da armação, a tecnologia também vem sendo usada para explicar ao consumidor a diferença entre tipos de lente, campos de visão e filtros. Isso ajuda a tornar mais compreensível um produto que, por natureza, é técnico e pouco visível.
“A lente é mais difícil de vender porque ela é um produto técnico e praticamente desaparece no rosto do cliente. Então a tecnologia ajuda a mostrar como ele vai enxergar com cada tipo de lente”, disse.

Expo Óptica bate recorde de visitação e amplia presença internacional
A força do tema ficou evidente também no desempenho da própria feira. Segundo a Abióptica, a Expo Óptica registrou recorde de visitação nos dois primeiros dias de evento, com mais de 16,8 mil visitantes.
“Tivemos a presença de todos os estados brasileiros, além de 30 países”, afirmou Ambra Nobre.
De acordo com a entidade, a feira também atingiu antes do previsto a meta de ampliar em 20% a participação de visitantes da América Latina. O evento reúne profissionais do varejo óptico de todo o país e funciona como uma vitrine para lançamentos, tendências e negociações do setor.
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