
O Ceará pode estar mais perto de produzir o próprio trigo. Pesquisas conduzidas pela Embrapa Agroindústria Tropical desde 2018 acumularam evidências de que variedades de ciclo curto, desenvolvidas especialmente para o clima tropical, são capazes de se desenvolver e produzir no semiárido nordestino, inclusive sob temperaturas que chegaram a 43 graus Celsius durante os experimentos. O resultado mais expressivo foi registrado em Barbalha, no Cariri Cearense, onde dez cultivares foram avaliadas simultaneamente e a variedade BR-18 atingiu produtividade média de 2 mil quilos por hectare em apenas 60 dias.
“Iniciamos as pesquisas com trigo no Ceará em 2018 e já testamos outras cultivares, com bons resultados. Mas esses materiais de ciclo curto, fruto de melhoramento genético, são adaptados à realidade climática do semiárido. As cultivares começaram a ser testadas em 2024 e os primeiros resultados mostram que podem ser plantadas e produzir muito bem na região”, afirma o pesquisador Afrânio Arley Montenegro, da Embrapa Agroindústria Tropical, em entrevista exclusiva ao Movimento Econômico.
O projeto que abriga as pesquisas chama-se “Solução de Inovação: Trigo para Novas Fronteiras no Brasil” e é liderado pela Embrapa Trigo, sediada em Passo Fundo (RS), com participação de outras unidades da empresa. Além do Ceará, os estudos contemplam Alagoas, Maranhão, Piauí e Roraima, com o objetivo de identificar quais variedades se adaptam melhor às condições de cada estado.
De Tianguá a Barbalha: seis anos de experimentos
Os primeiros testes, em 2018, aconteceram com apenas três cultivares em dois municípios cearenses de características opostas: Tianguá, na Chapada da Ibiapaba, a 900 metros de altitude e clima ameno, e Limoeiro do Norte, a cerca de 200 metros e temperaturas mais elevadas. O pesquisador explica a lógica da escolha: Tianguá oferecia condições climáticas mais favoráveis, mas a topografia irregular e a vocação para culturas de alto valor por hectare tornavam inviável a expansão do trigo na região. Limoeiro, por outro lado, já contava com áreas planas, solo adequado e infraestrutura de irrigação com pivô central.
“Nós concluímos, com toda a certeza, que seria possível trabalhar o trigo na região tropical como a nossa, mesmo o resultado não sendo, em termos de produtividade, tão bom. Então a gente deu esse início”, disse o pesquisador Afrânio Arley Montenegro.
Em 2024, o projeto foi ampliado. Os experimentos passaram a incluir dez cultivares e novos municípios: Quixeré, próximo a Limoeiro do Norte e também na faixa de 200 metros de altitude, Paraipaba, no litoral, e Barbalha, no Cariri. O resultado em Paraipaba, nas areias próximas ao mar, foi o menos satisfatório, com problemas de germinação e desenvolvimento das plantas. O de Barbalha, realizado a tempo de coincidir com uma feira agropecuária regional em novembro, foi, nas palavras do pesquisador, “o mais exitoso de todas as experiências”.
“Durante a feira, o trigo estava no ponto de colheita, que era o que a gente queria. Chamou muita atenção. Você podia ver claramente as dez cultivares bem desenvolvidas, inclusive com algumas diferenças de ciclo entre elas. Foi uma experiência bastante exitosa”, afirma o pesquisador Afrânio Arley Montenegro.

Sessenta dias que mudam a conta
A principal diferença em relação ao trigo cultivado no Sul do país não está apenas na produtividade absoluta, a média nacional supera 3.500 kg/ha, mas no tempo que o grão leva para chegar à colheita. No Rio Grande do Sul e em outros estados produtores tradicionais, o ciclo dura de quatro a seis meses. No Ceará, encerra-se em 60 a 65 dias. Montenegro aponta que essa característica, embora não compense diretamente a diferença de rendimento por hectare, abre uma janela importante: a possibilidade de realizar múltiplos cultivos na mesma área ao longo do ano.
“Se eu tenho uma produtividade menor, mas tenho a metade do tempo, então se eu usar o mesmo período de lá, dobro essa produtividade aqui. A gente teria, teoricamente, quatro ou até cinco ciclos de trigo na mesma área ao longo do ano, coisa que eles não conseguiriam lá num ciclo mais longo”, afirma o pesquisador Afrânio Arley Montenegro.
O pesquisador pondera, porém, que do ponto de vista agronômico não é recomendável repetir a mesma cultura indefinidamente. A solução indicada é a rotação com leguminosas, como feijão ou soja, que fixam nitrogênio no solo e reduzem a vulnerabilidade a pragas e doenças. No calendário proposto, seria possível fazer dois ciclos de trigo intercalados com duas outras culturas ao longo do ano. O trigo ainda pode preencher o chamado “vazio sanitário” da soja, período obrigatório entre safras da oleaginosa, aproveitando um intervalo que hoje não gera renda ao produtor.

Por que o Ceará? Os moinhos respondem
A escolha do estado para integrar o projeto nacional não foi aleatória. O Ceará abriga alguns dos maiores moinhos de trigo do país, com destaque para o grupo M. Dias Branco. Todo o grão processado por essas indústrias precisa percorrer milhares de quilômetros desde o Sul do Brasil, ou ser importado do exterior. Produzir trigo localmente eliminaria parte expressiva desse frete, reduzindo custos para os moinhos e tornando a cadeia mais eficiente.
“Os moinhos estão no Nordeste. Aqui no Ceará, temos o maior deles. Todo o trigo que é consumido, que é processado nos moinhos cearenses, vem lá do Sul ou de fora do país. Para os donos de moinhos, ter trigo produzido aqui seria excelente, eles vão poder comprar muito mais barato porque não vão pagar frete”, afirma o pesquisador Afrânio Arley Montenegro.
O interesse da indústria já se manifestou antes mesmo do projeto atual. A primeira experiência, em 2018, foi financiada pelo moinho Santa Lúcia S.L. Alimentos, que encomendou análises de qualidade das amostras colhidas. Segundo Montenegro, os resultados, guardados pela própria empresa, indicaram que o grão cearense era adequado para processamento industrial.

Da parcela ao campo: o salto que ainda falta dar
Todos os experimentos realizados até hoje ocuparam áreas de no máximo 400 metros quadrados e foram conduzidos manualmente, do sulco ao plantio, da adubação à colheita. Para que a viabilidade econômica possa ser avaliada de fato, é necessário escalar para uma área comercial, com mecanização completa. E é isso que o pesquisador projeta para os próximos meses, após o fim do período de chuvas do Nordeste.
“A gente precisa validar esses resultados feitos em pequena escala em uma área grande, feita com máquinas. Porque feito com máquinas, a gente pode avaliar também o custo. Se você me perguntar se é viável agora, para saber isso, eu preciso saber quanto gastei. E da forma que a gente fez, plantar manualmente 100 hectares não teria como ser viável”, afirma o pesquisador Afrânio Arley Montenegro.
Produtores do Cariri que visitaram a vitrine de Barbalha durante a feira demonstraram interesse em ceder terra e maquinário para os próximos testes em escala. A Embrapa articula essas parcerias com a iniciativa privada para dar o próximo salto: transformar o que hoje é um resultado experimental promissor em um indicativo real de viabilidade econômica para a agricultura cearense.
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