
O mercado óptico premium segue em expansão no Brasil e o Nordeste aparece cada vez mais como uma região estratégica para esse avanço. O consumo de marcas de maior valor agregado já não se concentra apenas nas capitais e avança também em cidades do interior e polos litorâneos, impulsionado por renda, turismo, estilo de vida e maior busca por produtos que unem moda, identidade e bem-estar.
Os números mais recentes do setor ajudam a dimensionar esse movimento. Dados da Associação Brasileira da Indústria Óptica (Abióptica) mostram que o mercado óptico brasileiro faturou R$ 2,58 bilhões em janeiro de 2026, crescimento de 3% em relação ao mesmo mês de 2025. No Nordeste, o faturamento chegou a R$ 263,1 milhões no período. Para este ano, a projeção da entidade é de alta de 5,2% no setor, indicando continuidade da expansão em um mercado que combina moda, saúde, comportamento e consumo.
Embora o segmento óptico como um todo viva um ambiente mais pressionado por custos, concorrência e disputa por preço, o topo da pirâmide opera com outra lógica. No entendimento de Luca Dalla Zanna, diretor geral da Prestige Eyewear, o mercado premium segue promissor justamente por estar menos exposto à guerra comercial que marca outras faixas do setor.
“O mercado brasileiro óptico vive uma fase levemente complexa, porque há muita pressão por parte dos custos, especialmente depois da pandemia. Já o nosso mercado é diferente, porque a gente atua no topo da pirâmide, com produto de alto valor agregado. Então, ficamos um pouco fora dessa complexidade do mercado”, afirmou.
Segundo ele, esse distanciamento da disputa por preço não significa ausência de desafio, mas uma exigência maior de consistência na entrega de valor. “O nosso desafio é entregar uma proposta consistente de valor e entregar isso de forma constante para o mercado. É um segmento muito promissor e, no nosso caso, mais promissor ainda”, disse.
Esse avanço ajuda a explicar por que o Nordeste passou a ganhar mais atenção no radar das marcas premium. Para Marco Túlio, comunicador e treinador da Prestige, a região deixou de ser vista apenas como mercado complementar e passou a ocupar posição estratégica na distribuição de óculos de luxo e nicho no país.
“Falando especificamente sobre Norte e Nordeste, a gente tem um público muito interessante. Temos um número muito grande de óticas de sucesso que trabalham hoje com luxo, e elas não estão concentradas exclusivamente nas grandes capitais”, afirmou.

Segundo ele, a performance regional chama atenção inclusive nas peças de maior valor agregado. “Se a gente faz a soma das nossas marcas de nicho em venda, o Nordeste é onde nós vendemos em maior quantidade peças de nicho. As nossas peças de maior valor agregado, como Cartier, têm no Nordeste um dos mercados que mais performam”, disse.
A Cartier, por exemplo, tem exemplares de óculos de sol que custam mais de R$ 11 mil. Já Balenciaga e Valentino possuem óculos que variam entre R$ 5 e R$ 10 mil. A leitura da empresa é que esse consumo acompanha transformações mais amplas no perfil da demanda.
Há uma combinação entre capacidade de compra, fortalecimento de negócios locais e um estilo de vida associado a lazer, litoral e busca por produtos mais exclusivos. “A maioria dessas lojas está em regiões litorâneas, isso é um dado interessante. Mas a gente também tem uma boa divisão em cidades que não estão nesse eixo mais tradicional de consumo”, observou Marco Túlio.
Esse movimento também aparece na capilaridade da operação. Dentro de um universo estimado pela empresa em cerca de 1,2 mil pontos aptos a trabalhar com esse tipo de produto no Brasil, a Prestige afirma que pouco mais de 30% estão concentrados entre Norte e Nordeste. Para a companhia, isso mostra que o desejo por marcas premium já está espalhado por diferentes regiões e não exige mais deslocamento para os grandes centros do Sul e Sudeste.
“Quem quer esse produto não precisa mais vir para São Paulo, para o Rio ou para Brasília para comprar. Ele pode comprar perto de onde vive. A gente faz questão de levar esses produtos para o Brasil todo”, afirmou Marco Túlio.

Consumo aspiracional: O Nordeste além do luxo tradicional
Esse avanço regional não se limita ao topo mais exclusivo do mercado. Na avaliação da JR-Adamver, fabricante e licenciada das marcas Mormaii, Colcci e YouY, o Nordeste também ocupa posição relevante em segmentos ligados a solar, bem-estar, moda e consumo aspiracional, reforçando a ideia de que a região absorve diferentes camadas de valor dentro do óptico.
Para Luiz Beltrame, coordenador de marketing da companhia, o Nordeste tem uma conexão muito natural com marcas que trabalham atributos como ar livre, brasilidade e estilo de vida. No caso da Mormaii, essa aderência é ainda mais clara por causa do clima, do perfil de consumo e da força do solar na região.
“O Nordeste hoje representa para a gente uma grande região. É verão o ano inteiro. Inclusive, no marketing, a gente tem que tomar muito cuidado quando faz uma campanha. Eu não posso trazer algo muito invernal, porque eu não converso com o público do Norte e Nordeste”, afirmou.
Segundo ele, essa relação direta com o território ajuda a explicar o desempenho da marca. “A Mormaii conversa muito com isso. É ar livre, é praia, é bem-estar, é saúde. E o público nordestino é o que mais casa com a marca, sem dúvida”, disse.
No caso da Colcci, a aposta está em um consumidor que busca moda e sofisticação como forma de expressão pessoal, mesmo fora do luxo mais tradicional. A empresa trata a marca como uma porta de entrada para esse universo, especialmente em regiões onde o consumo aspiracional vem se fortalecendo.
“A Colcci acaba pegando esse público que não é o luxo, luxo, mas é um público de entrada justamente de moda. As pessoas querem ter um pedacinho da moda dentro do essencial”, afirmou Beltrame.
A leitura da JR é que o mercado óptico passou por uma transformação importante nos últimos anos, com os óculos deixando de ser apenas um item funcional para se consolidar como acessório de identidade. Essa mudança ajuda a explicar por que o setor hoje trabalha com mais repertório de estilo, múltiplos modelos por consumidor e uma comunicação mais ligada a personalidade do que à necessidade.
“Quando a gente fala de moda de óculos, ela deixou de ser uma acessória que as pessoas tinham vergonha de utilizar. Muito pelo contrário, as pessoas se divertem. Existe visagismo, existe estudo do que faz sentido para você, do que você quer comunicar”, disse.
Essa percepção também aparece na Prestige, que vê o luxo óptico menos preso a uma tendência única e mais ligado à exclusividade e à pluralidade de estilos. Para Marco Túlio, o mercado abandonou a lógica vertical da moda, em que todos seguiam a mesma cor ou formato, e passou a operar com uma oferta mais ampla, em que cada marca constrói diferentes portas de entrada para o consumidor.
“Hoje em dia a gente está num crescimento de tendência horizontal. As marcas entendem que têm um mix muito grande de produtos. O foco é dar ao cliente o direito de se encontrar dentro da marca, e não a marca ter que se encontrar no cliente”, afirmou.
Design e tecnologia: as apostas das grandes grifes para 2026
Esse reposicionamento também se reflete nos lançamentos apresentados na feira. Na Prestige, a leitura é de que o desejo segue sendo um motor central do luxo, mas agora combinado a materiais mais tecnológicos, durabilidade, sustentabilidade e narrativas criativas mais fortes.
A Valentino, por exemplo, ganha novo protagonismo com a chegada de Alessandro Michele, em uma coleção que reforça a elegância associada à individualidade. Já a Cartier leva para a coleção Santos armações em titânio leve, combinando conforto, flexibilidade e identidade estética. A Chloé, por sua vez, avança no uso de acetatos reciclados e lentes de menor impacto ambiental, enquanto a Gucci mantém sua linguagem mais ousada, mas amplia o repertório com leituras que transitam entre o maximalismo e o minimalismo.
Recentemente, a atriz Tânia Maria, do premiado O Agente Secreto estampou a capa da nova edição da Elle Brasil usando um dos lançamentos da Balenciaga.

Na JR-Adamver, os lançamentos seguem outra lógica, mais ligada ao comportamento e ao cotidiano. A Mormaii reforça o foco em performance, leveza e funcionalidade, em sintonia com o avanço do wellness e do consumo ligado à saúde e ao bem-estar. A Colcci mantém a aposta em shapes conectados às tendências de moda, enquanto a YouY trabalha com uma proposta mais democrática, baseada em modelos casuais e atemporais.
“As nossas coleções seguem o consumidor como pilar. Não adianta fazer apenas o que o mercado pede no sentido comercial. É o consumidor final que dita a regra”, afirmou Luiz Beltrame.
As empresas participam da Expo Óptica 2026, que acontece de 8 a 11 de abril no Expo Center Norte, em São Paulo. O evento reúne mais de 140 participantes e poderá atrais público superior ao da edição de 2025.
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