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​NE aciona planos de contingência e nutrição de solo em prevenção ao El Niño

​Estados reforçam investimentos no Garantia-Safra, expandem adutoras e recorrem a insumos tecnológicos para proteger lavouras e assegurar o abastecimento de água no campo
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  1. Nordeste estrutura planos de contingência contra secas severas provocadas pelo El Niño e seus impactos.
  2. Piauí disponibiliza 100 mil cotas do programa garantia safra para agricultores do semiárido estadual.
  3. Governo repassou R$ 217,6 milhões acumulados em três ciclos agrícolas para compensar quedas de rendimento.
  4. Conab pretende movimentar 115 mil toneladas de milho do Centro-Oeste para armazéns nordestinos preventivamente.
  5. Matopiba responde por mais de 10% da produção nacional de grãos e abastece pecuária regional.
lavoura de milho
A Conab mapeou a necessidade de movimentação preventiva de insumos armazenados para suprir a demanda do Programa de Venda em Balcão (ProVB) no Nordeste, que atualmente dispõe de cerca de 48 mil toneladas de milho. Foto: divulgação

Diante da ameaça iminente de secas severas provocadas pelo fenômeno El Niño, os estados do Nordeste e órgãos federais estruturam planos de contingência para conter os prejuízos na agricultura e assegurar a oferta de água. A apreensão do setor produtivo foca tanto na preservação da agricultura familiar e dos pequenos criadores no semiárido quanto na proteção do Matopiba, região composta por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, responsável por impulsionar a produção de grãos e a segurança alimentar de toda a região.

​No Piauí, a estratégia estadual prioriza a ampliação de recursos e da cobertura de programas assistenciais voltados aos produtores rurais do semiárido, ao mesmo tempo em que acompanha os impactos do clima nas áreas produtivas do sul do estado.

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​”Para a Safra desse ano o estado está disponibilizando 100.000 cotas para serem distribuídas entre os municípios. O governo do estado prioriza o programa garantia safra, haja vista entender que é uma política publica eficiente, de caráter emergencial, importante para mitigação dos efeitos da estiagem”, informa a Secretaria de Agricultura do estado.

​Apoio financeiro e reforço nos estoques de grãos

​A liberação dos recursos governamentais busca compensar a queda no rendimento das colheitas no semiárido. O balanço financeiro dos últimos três ciclos agrícolas (2022/2023, 2023/2024 e 2024/2025) aponta um repasse acumulado de R$ 217.633.600,00 no Piauí, consolidando a transferência direta de renda como instrumento central de apoio comunitário.

​A resposta ao impacto do clima também envolve o abastecimento de ração animal via Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O órgão mapeou a necessidade de movimentação preventiva de insumos armazenados para suprir a demanda do Programa de Venda em Balcão (ProVB) no Nordeste, que atualmente dispõe de cerca de 48 mil toneladas de milho.

​Considerando que a demanda do segundo semestre do ano anterior alcançou 77 mil toneladas, a Conab projeta a remoção antecipada de 115 mil toneladas das regiões Centro-Oeste e Centro-Sul para os armazéns nordestinos. A empresa prevê ainda a compra de 180 mil toneladas adicionais de milho para manter o atendimento aos pequenos criadores.

​A força do Matopiba e o impacto no abastecimento regional

Grande parte dos grãos que alimentam a pecuária nordestina e abastecem as cadeias agroindustriais regionais vem do Matopiba. Segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região abrange 337 municípios e responde por mais de 10% de toda a produção nacional de grãos, destacando-se como o motor econômico da agropecuária do Norte e Nordeste.

​Embora a região conte com polos irrigados e alto nível tecnológico, as áreas de sequeiro sofrem diretamente com a irregularidade das chuvas trazida pelo El Niño. Como a produção de milho e soja dessa fronteira agrícola abastece indústrias, granjas e rebanhos em estados vizinhos, qualquer queda na safra do Matopiba gera um efeito cascata que encarece a ração animal e pressiona a inflação dos alimentos em todo o Nordeste.

​Estruturação hídrica e ações emergenciais nos estados

Além do suporte à produção agrícola, as diretrizes operacionais do Piauí contemplam a distribuição de água por caminhões-pipa, poços tubulares e dessalinizadores. A Agência Reguladora dos Serviços Públicos do Estado do Piauí (Agrespi) conduziu consulta pública para regulamentar o fornecimento emergencial de água potável no meio rural disperso.

​O direcionamento de recursos conta com respaldo contratual de concessão que destina até R$ 20 milhões por ano para a infraestrutura hídrica rural. O estado atua em parceria com o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) no Programa Água Doce, operando 88 sistemas de dessalinização e projetando cinco novas unidades para o próximo período.

​No âmbito da infraestrutura de grande porte, foram investidos R$ 486,5 milhões em obras como a Adutora Padre Lira, em Dom Inocêncio, que beneficia 12 mil habitantes. O planejamento hídrico abrange também a construção de adutoras em São Lourenço do Piauí, Capitão Gervásio Oliveira e Jaicós, além de intervenções em barragens.

​Na Bahia, estado que abriga a porção mais consolidada do Matopiba (no Oeste baiano), o plano integrado para enfrentar o ciclo climático abrange parcerias com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e a Conab no âmbito do Garantia-Safra, alcançando cerca de 360 mil agricultores familiares cadastrados. A atuação engloba a perfuração de poços pela Companhia de Engenharia Hídrica e de Saneamento da Bahia (CERB) e pela Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A. (Embasa).

​”O planejamento considera os riscos para a agricultura familiar, o abastecimento de água, a saúde da população, a segurança alimentar, os reservatórios, as bacias hidrográficas e as grandes estruturas de segurança hídrica”, ressalta o Governo da Bahia.

arte Matopiba

​Já no Maranhão, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema) informa que o acompanhamento das bacias é realizado pelo Centro de Prevenção de Desastres Ambientais (CPDAm). Em caso de escassez hídrica severa, o órgão prevê a adoção de medidas graduais para priorizar o consumo humano e a dessedentação animal.

​”Caso seja identificada situação de escassez crítica, poderão ser adotadas medidas como reduções temporárias, escalonamento de captações, limitações de tempo de uso ou revisão emergencial das vazões concedidas”, destaca a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão.

​​Fisiologia vegetal e o dilema hídrico no campo

Além das obras e políticas públicas, a sustentação das lavouras de sequeiro contra o estresse hídrico depende do manejo nutricional preventivo. Em períodos de calor intenso e escassez de água, a planta entra em um impasse fisiológico para regular a transpiração sem interromper seu desenvolvimento.

​Especialistas detalham que o uso correto de nutrientes e compostos biológicos desde o início do cultivo garante o equilíbrio metabólico durante os veranicos.
​”Em cenários de adversidades climáticas e déficit hídrico, a planta enfrenta um ‘dilema fisiológico’, como abrir os estômatos para captar CO₂ e realizar fotossíntese ou fechar para evitar a perda excessiva de água”, explica o engenheiro agrônomo Bruno Neves, gerente técnico da BRQ Brasilquímica, mestre em Solos e Nutrição de Plantas e doutor em Produção Vegetal.

O potássio, por exemplo, exerce papel fundamental na regulação da abertura e fechamento estomático, aumentando a eficiência do uso da água”, acrescenta.

​Nutrição mineral para raízes profundas

Para que as culturas agrícolas resistam a períodos prolongados de estiagem no semiárido e no MATOPIBA, o desenvolvimento do sistema radicular em profundidade torna-se decisivo para buscar a água armazenada no subsolo. ​A combinação estratégica de minerais estimula a divisão celular e a emissão de raízes desde as fases iniciais da lavoura.

​”Na agricultura de sequeiro, especialmente no MATOPIBA e no Nordeste, a produtividade depende diretamente da capacidade de a planta explorar o perfil do solo em profundidade. Os nutrientes mais decisivos para raízes profundas e maior tolerância à estiagem são, principalmente, fósforo, cálcio, potássio e zinco”, afirma Bruno Neves.

​Palhada e biologia do solo como “escudo térmico”

O manejo agronômico preventivo também associa a adubação ao sistema de plantio direto na palha, criando uma barreira protetora sobre a superfície do solo para conter os efeitos da radiação solar e reter a umidade das chuvas.

​A conservação dos resíduos vegetais aliada à atividade microbiana do solo atua diretamente na fertilidade física e química do terreno. ​”A palhada funciona literalmente como um isolante térmico natural, preservando umidade por períodos mais longos. Paralelamente, um solo bem nutrido e biologicamente ativo apresenta maior quantidade de matéria orgânica e agregados estáveis”, destaca Bruno Neves.

​Redução de investimento e risco de perda total

Em anos de alerta climático severo, tentar conter custos reduzindo a adubação pode comprometer os mecanismos de defesa dos vegetais, transformando um estresse temporário na perda definitiva da safra.

​A nutrição mineral equilibrada fornece a base fisiológica necessária para que a lavoura consiga se recuperar assim que as chuvas retornarem.

​”Em uma situação de estiagem severa, a nutrição não deve ser vista apenas como uma técnica para aumentar produtividade, mas como a opção de sobrevivência da lavoura. O produtor não consegue controlar a chuva, mas consegue construir uma planta mais preparada para enfrentar a falta dela”, diz Neves.

Leia também: El Niño: comitê antecipa geração de 1,8 GW para reforçar sistema elétrico

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