
Diante da ameaça iminente de secas severas provocadas pelo fenômeno El Niño, os estados do Nordeste e órgãos federais estruturam planos de contingência para conter os prejuízos na agricultura e assegurar a oferta de água. A apreensão do setor produtivo foca tanto na preservação da agricultura familiar e dos pequenos criadores no semiárido quanto na proteção do Matopiba, região composta por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, responsável por impulsionar a produção de grãos e a segurança alimentar de toda a região.
No Piauí, a estratégia estadual prioriza a ampliação de recursos e da cobertura de programas assistenciais voltados aos produtores rurais do semiárido, ao mesmo tempo em que acompanha os impactos do clima nas áreas produtivas do sul do estado.
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”Para a Safra desse ano o estado está disponibilizando 100.000 cotas para serem distribuídas entre os municípios. O governo do estado prioriza o programa garantia safra, haja vista entender que é uma política publica eficiente, de caráter emergencial, importante para mitigação dos efeitos da estiagem”, informa a Secretaria de Agricultura do estado.
Apoio financeiro e reforço nos estoques de grãos
A liberação dos recursos governamentais busca compensar a queda no rendimento das colheitas no semiárido. O balanço financeiro dos últimos três ciclos agrícolas (2022/2023, 2023/2024 e 2024/2025) aponta um repasse acumulado de R$ 217.633.600,00 no Piauí, consolidando a transferência direta de renda como instrumento central de apoio comunitário.
A resposta ao impacto do clima também envolve o abastecimento de ração animal via Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O órgão mapeou a necessidade de movimentação preventiva de insumos armazenados para suprir a demanda do Programa de Venda em Balcão (ProVB) no Nordeste, que atualmente dispõe de cerca de 48 mil toneladas de milho.
Considerando que a demanda do segundo semestre do ano anterior alcançou 77 mil toneladas, a Conab projeta a remoção antecipada de 115 mil toneladas das regiões Centro-Oeste e Centro-Sul para os armazéns nordestinos. A empresa prevê ainda a compra de 180 mil toneladas adicionais de milho para manter o atendimento aos pequenos criadores.
A força do Matopiba e o impacto no abastecimento regional
Grande parte dos grãos que alimentam a pecuária nordestina e abastecem as cadeias agroindustriais regionais vem do Matopiba. Segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região abrange 337 municípios e responde por mais de 10% de toda a produção nacional de grãos, destacando-se como o motor econômico da agropecuária do Norte e Nordeste.
Embora a região conte com polos irrigados e alto nível tecnológico, as áreas de sequeiro sofrem diretamente com a irregularidade das chuvas trazida pelo El Niño. Como a produção de milho e soja dessa fronteira agrícola abastece indústrias, granjas e rebanhos em estados vizinhos, qualquer queda na safra do Matopiba gera um efeito cascata que encarece a ração animal e pressiona a inflação dos alimentos em todo o Nordeste.
Estruturação hídrica e ações emergenciais nos estados
Além do suporte à produção agrícola, as diretrizes operacionais do Piauí contemplam a distribuição de água por caminhões-pipa, poços tubulares e dessalinizadores. A Agência Reguladora dos Serviços Públicos do Estado do Piauí (Agrespi) conduziu consulta pública para regulamentar o fornecimento emergencial de água potável no meio rural disperso.
O direcionamento de recursos conta com respaldo contratual de concessão que destina até R$ 20 milhões por ano para a infraestrutura hídrica rural. O estado atua em parceria com o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) no Programa Água Doce, operando 88 sistemas de dessalinização e projetando cinco novas unidades para o próximo período.
No âmbito da infraestrutura de grande porte, foram investidos R$ 486,5 milhões em obras como a Adutora Padre Lira, em Dom Inocêncio, que beneficia 12 mil habitantes. O planejamento hídrico abrange também a construção de adutoras em São Lourenço do Piauí, Capitão Gervásio Oliveira e Jaicós, além de intervenções em barragens.
Na Bahia, estado que abriga a porção mais consolidada do Matopiba (no Oeste baiano), o plano integrado para enfrentar o ciclo climático abrange parcerias com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e a Conab no âmbito do Garantia-Safra, alcançando cerca de 360 mil agricultores familiares cadastrados. A atuação engloba a perfuração de poços pela Companhia de Engenharia Hídrica e de Saneamento da Bahia (CERB) e pela Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A. (Embasa).
”O planejamento considera os riscos para a agricultura familiar, o abastecimento de água, a saúde da população, a segurança alimentar, os reservatórios, as bacias hidrográficas e as grandes estruturas de segurança hídrica”, ressalta o Governo da Bahia.

Já no Maranhão, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema) informa que o acompanhamento das bacias é realizado pelo Centro de Prevenção de Desastres Ambientais (CPDAm). Em caso de escassez hídrica severa, o órgão prevê a adoção de medidas graduais para priorizar o consumo humano e a dessedentação animal.
”Caso seja identificada situação de escassez crítica, poderão ser adotadas medidas como reduções temporárias, escalonamento de captações, limitações de tempo de uso ou revisão emergencial das vazões concedidas”, destaca a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão.
Fisiologia vegetal e o dilema hídrico no campo
Além das obras e políticas públicas, a sustentação das lavouras de sequeiro contra o estresse hídrico depende do manejo nutricional preventivo. Em períodos de calor intenso e escassez de água, a planta entra em um impasse fisiológico para regular a transpiração sem interromper seu desenvolvimento.
Especialistas detalham que o uso correto de nutrientes e compostos biológicos desde o início do cultivo garante o equilíbrio metabólico durante os veranicos.
”Em cenários de adversidades climáticas e déficit hídrico, a planta enfrenta um ‘dilema fisiológico’, como abrir os estômatos para captar CO₂ e realizar fotossíntese ou fechar para evitar a perda excessiva de água”, explica o engenheiro agrônomo Bruno Neves, gerente técnico da BRQ Brasilquímica, mestre em Solos e Nutrição de Plantas e doutor em Produção Vegetal.
O potássio, por exemplo, exerce papel fundamental na regulação da abertura e fechamento estomático, aumentando a eficiência do uso da água”, acrescenta.
Nutrição mineral para raízes profundas
Para que as culturas agrícolas resistam a períodos prolongados de estiagem no semiárido e no MATOPIBA, o desenvolvimento do sistema radicular em profundidade torna-se decisivo para buscar a água armazenada no subsolo. A combinação estratégica de minerais estimula a divisão celular e a emissão de raízes desde as fases iniciais da lavoura.
”Na agricultura de sequeiro, especialmente no MATOPIBA e no Nordeste, a produtividade depende diretamente da capacidade de a planta explorar o perfil do solo em profundidade. Os nutrientes mais decisivos para raízes profundas e maior tolerância à estiagem são, principalmente, fósforo, cálcio, potássio e zinco”, afirma Bruno Neves.
Palhada e biologia do solo como “escudo térmico”
O manejo agronômico preventivo também associa a adubação ao sistema de plantio direto na palha, criando uma barreira protetora sobre a superfície do solo para conter os efeitos da radiação solar e reter a umidade das chuvas.
A conservação dos resíduos vegetais aliada à atividade microbiana do solo atua diretamente na fertilidade física e química do terreno. ”A palhada funciona literalmente como um isolante térmico natural, preservando umidade por períodos mais longos. Paralelamente, um solo bem nutrido e biologicamente ativo apresenta maior quantidade de matéria orgânica e agregados estáveis”, destaca Bruno Neves.
Redução de investimento e risco de perda total
Em anos de alerta climático severo, tentar conter custos reduzindo a adubação pode comprometer os mecanismos de defesa dos vegetais, transformando um estresse temporário na perda definitiva da safra.
A nutrição mineral equilibrada fornece a base fisiológica necessária para que a lavoura consiga se recuperar assim que as chuvas retornarem.
”Em uma situação de estiagem severa, a nutrição não deve ser vista apenas como uma técnica para aumentar produtividade, mas como a opção de sobrevivência da lavoura. O produtor não consegue controlar a chuva, mas consegue construir uma planta mais preparada para enfrentar a falta dela”, diz Neves.
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