
Uma região historicamente associada à produção de gesso e à agricultura familiar começa a ganhar um novo protagonismo econômico no Nordeste. A Chapada do Araripe, território compartilhado por Pernambuco, Ceará e Piauí, vem atraindo produtores rurais e investidores interessados no cultivo de grãos em larga escala, inaugurando o que especialistas já classificam como uma nova fronteira agrícola brasileira.
A mudança ainda é recente, mas os números chamam atenção. Em áreas localizadas entre municípios pernambucanos, como Exu, e cidades cearenses, como Santana do Cariri, produtores estão alcançando índices de produtividade de milho e soja superiores à média nacional.
O movimento, impulsionado por tecnologia, correção de solo e mecanização, também abre caminho para outras culturas, como algodão, frutas, café e hortaliças.
Segundo o professor de Agronomia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Geraldo Eugênio, a Chapada do Araripe reúne características muito mais próximas do Cerrado brasileiro do que do semiárido tradicional.
A Chapada do Araripe ocupa cerca de 1,036 milhão de hectares, distribuídos entre Ceará, Pernambuco e Piauí, sendo marcada por solos profundos, relevo plano e elevada capacidade de infiltração de água.
“Eu sempre vi que aquilo está mais para um cerrado do que para um semiárido típico. A chapada tem solos semelhantes aos do Cerrado brasileiro, e o grande diferencial foi perceber que, com correção adequada e uso de tecnologia, ela poderia se tornar uma importante área produtora de grãos”, afirma o pesquisador.
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Ciência e tecnologia impulsionam o Araripe
Os primeiros experimentos científicos na região começaram ainda na década de 1990. Em 1996, estudos conduzidos por Geraldo Eugênio e pela Embrapa já apontavam o potencial da Chapada para a produção de soja e sorgo.
Na época, os resultados indicaram colheitas de três toneladas por hectare, desempenho considerado promissor para uma área até então dedicada principalmente ao cultivo de mandioca.
Apesar dos testes bem-sucedidos, o tema permaneceu adormecido por muitos anos. O cenário começou a mudar em 2021, quando empresários ligados à avicultura pernambucana passaram a buscar alternativas para reduzir a dependência do milho e da soja vindos do Centro-Oeste e da região do Matopiba.
Entre eles estava Josimário Florêncio, diretor da OvoNovo, empresa sediada em Caruaru e responsável pela produção diária de 500 mil ovos de galinha e 200 mil ovos de codorna. A disparada no preço dos grãos durante a pandemia levou a companhia a buscar novas soluções.
“Em 2020, milho e soja atingiram valores estratosféricos. Entendemos que a atividade não seria sustentável sem produzir parte dos próprios insumos”, explica Florêncio.
Após conhecer a Chapada do Araripe e visitar experimentos conduzidos pelo Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), a empresa iniciou o plantio em Exu. O começo foi marcado por dificuldades ambientais e burocráticas, mas os resultados começaram a aparecer.
Hoje, a propriedade cultiva mais de mil hectares e já registrou produtividades de até 152 sacas de milho por hectare. A média da safra deve ultrapassar 120 sacas, muito acima dos cerca de 70 obtidos anteriormente no Agreste pernambucano.
“O conjunto de fatores fez a diferença: correção do solo, agricultura de precisão, escolha dos híbridos e as condições climáticas da Chapada. Isso aqui é um oásis”, resume o empresário.
Hoje, a fazenda tem uma área plantada de 1.200 hectares. O milho produzido é suficiente para abastecer metade da granja. Para o próximo ano, ele pretende ampliar a área para 2.000 hectares e iniciar o plantio de soja. A expectativa é que as duas produções tornem a OvoNovo autossuficiente em produção de alimentos para as galinhas.

Araripe atrai produtores do Centro-Oeste
O potencial produtivo da região também despertou o interesse de agricultores experientes vindos do Centro-Oeste. Um deles é Sebastiaan Spekken, produtor de Maracaju, no Mato Grosso do Sul, onde sua família cultiva soja desde 1989.
Em Santana do Cariri, no Ceará, a Fazenda Ouro da Serra iniciou suas atividades em 2024 e atualmente planta 330 hectares. A produtividade alcançada surpreendeu até produtores acostumados ao agronegócio consolidado do Centro-Oeste. Rendeu 69 sacas de soja e 110 sacas de milho por hectare.
Spekken investe na combinação entre solo, altitude, regime de chuvas e localização estratégica cria condições para que a produção agrícola se consolide nos próximos anos. “A primeira safra confirmou aquilo que os estudos já indicavam. O potencial da região está comprovado e tende a crescer à medida que o solo vai sendo construído e manejado com tecnologia”, afirma.
Na avaliação do agricultor, outro diferencial competitivo está na proximidade do mercado consumidor. Segundo ele, a demanda por milho e soja no Nordeste é muito superior à oferta regional, o que garante liquidez para a produção.
“Tudo o que se produz encontra comprador. A região ainda depende de grãos vindos de outras partes do país para abastecer granjas, pecuária, ovinocultura e outras atividades. Nossa proposta é produzir aqui para abastecer esse mercado local, reduzindo custos e fortalecendo toda a cadeia produtiva”, destaca.
Animado com os resultados, Spekken já prepara a expansão da área cultivada. A fazenda passará de 330 hectares para 600 hectares na próxima safra, mas, segundo ele, esse aumento ainda representa uma fração da demanda existente.
“O que produzimos hoje não abastece nem 1% da necessidade da região. Há um espaço enorme para crescer e substituir parte dos grãos que ainda precisam ser transportados de longas distâncias para o Nordeste”, afirma.
“A Chapada do Araripe tem potencial para virar uma tremenda área agricultável para grãos, carne, aves, frutas e café. Daqui a dez anos, pode se transformar em uma Luiz Eduardo Magalhães”, projeta Spekken, em referência ao município baiano que se tornou símbolo da expansão agrícola do Cerrado.
O agricultor afirma que já foram investidos cerca de R$ 20 milhões em aquisição de propriedades, infraestrutura, correção do solo e construção de benfeitorias. A estratégia inclui agricultura de precisão, análises georreferenciadas, uso de produtos biológicos, plantio direto e manejo integrado de pragas.
Além do milho e da soja
Embora a produção de grãos seja o principal motor desse novo ciclo econômico, especialistas apontam que o futuro da Chapada pode ser ainda mais diversificado.
De acordo com o secretário executivo do Agronegócio do Ceará, Silvio Carlos Ribeiro, a combinação entre altitude, disponibilidade hídrica e logística cria condições para o desenvolvimento de culturas de maior valor agregado.
“Temos potencial não apenas para milho e soja, mas também para frutas, café, cacau, flores e hortaliças. A região reúne condições excelentes para produzir com tecnologia e sustentabilidade”, afirma.
Segundo ele, ao menos 10 mil hectares já estão sendo preparados ou cultivados no lado cearense da Chapada. A expectativa é de expansão acelerada nos próximos anos, impulsionada pela chegada da Transnordestina e pela proximidade com os portos nordestinos.
Outro diferencial está na disponibilidade de água subterrânea e na presença do Projeto de Integração do Rio São Francisco, fatores que podem fortalecer a agricultura irrigada.
Desafio de conciliar produção e preservação
O avanço agrícola sobre a Chapada também traz preocupações ambientais. Parte da região está inserida em áreas protegidas e próxima à Floresta Nacional do Araripe. Por isso, produtores e autoridades reforçam a necessidade de respeitar a legislação ambiental.
Josimário Florêncio destaca que todas as propriedades vinculadas ao projeto receberam licenciamento ambiental e seguem exigências de compensação e preservação. “Tudo está sendo feito dentro da legalidade e com muita consciência ambiental”, afirma.
Para Geraldo Eugênio, o desafio é encontrar equilíbrio entre desenvolvimento econômico e conservação dos recursos naturais. “Precisamos de uma agricultura sustentável, mas também não podemos manter uma região na pobreza em nome de um discurso de preservação. É possível produzir respeitando as regras e gerando oportunidades”, observa.
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