
O Nordeste brasileiro possui todas as condições para assumir o protagonismo industrial que marcou o Sudeste no século passado. Esta foi a tese central defendida por especialistas da mesa 1 durante o evento Análise Ceplan 2026, que aconteceu nesta quinta-feira (28), no RioMar Trade Center, no Recife. Em uma realização da Ceplan Consultoria e do Movimento Econômico, o painel destacou que a abundância de energia renovável e a infraestrutura portuária posicionam a região como o novo motor da economia de baixo carbono.
Para João Junqueira, diretor de Inovação e Relações Institucionais da SIMM Soluções, o atual excedente de geração renovável, que muitas vezes é desperdiçado por falta de consumo, é a chave para essa transformação.
Ele acredita que o cenário é propício para uma mudança de patamar produtivo. “Existe condição de a gente do Nordeste brasileiro ser a nova São Paulo da reindustrialização. Com eficiência energética, na era da descarbonização e através da infraestrutura que já tem no Porto de Suape”, afirmou Junqueira.
O especialista ressaltou que a vantagem competitiva histórica da região está sendo renovada. Se no passado a energia firme de Paulo Afonso impulsionou Pernambuco, agora o desafio é estabilizar as novas fontes.
“O mundo inteiro quer trocar os seus produtos, a transição energética passa antes pela descarbonização”, explicou, ressaltando o potencial que a região tem tanto com renováveis quanto com biocombustíveis.
Apesar da energia ser barata no Nordeste, Junqueira alertou que a “neoindustrialização” exige qualidade e estabilidade. Segundo ele, investimentos em baterias de armazenamento e linhas de transmissão de corrente contínua são urgentes.
Suape e a Transnordestina
No campo da logística, Armando Monteiro Bisneto, diretor-presidente do Porto de Suape, destacou que o complexo é uma plataforma estratégica. Ele comparou o porto e a ferrovia Transnordestina a construções que atravessam gerações. “A transnordestina precisa ter esse caráter também intergeracional e de Estado”, disse.
Bisneto anunciou que Suape deve se tornar em breve um polo regional de distribuição de GLP (gás de cozinha) e gás natural, com um terminal de regaseificação.
“Certamente isso vai incrementar e trazer energia firme para a nossa indústria. Então, eu acho que não é só ter um equipamento que orgulha todos os pernambucanos, é que a gente tem que cuidar, preservar bem e aprimorar cada vez mais”, defendeu.
Oportunidade bilionária nos Data Centers
O setor de tecnologia também surge como um pilar dessa nova era. Daniel Gomes, CEO da Atlantic Data Centers, revelou que o Nordeste detém apenas 3% da capacidade nacional de data centers, enquanto 95% estão no eixo Rio-São Paulo.
Ele vê nisso uma oportunidade gigantesca de descentralização. “Se Pernambuco atraíssem 5% daquela potencial demanda de dez gigas de data center, teríams R$ 200 bilhões de investimentos”, estimou.
Gomes desmistificou a ideia de que esses centros consomem muita água, explicando que os sistemas modernos são de arrefecimento fechado. Para ele, o maior desafio é a infraestrutura de dados.
“A logística do data center é exatamente a conectividade. Através da conectividade que os dados chegam e saem. Então, quando a gente fala em porto, em estrada, na área do data center, a gente está falando de conectividade”, comparou.
A necessidade de coordenação estratégica
Maurício Laranjeira, chefe de Política Industrial da Fiepe, focou na importância de políticas industriais articuladas entre os estados. Ele criticou a competição isolada e defendeu que o Nordeste precisa se vender como um bloco competitivo, especialmente diante da reforma tributária.
“Falta uma coordenação estratégica para transformar a energia em competitividade. A gente precisa ter políticas industriais muito claras”, apontou.
Laranjeira enfatizou que o preço final da energia para o industrial ainda é um obstáculo. Para ele, a região deve focar em setores onde pode ser líder global.
“A partir daí são exemplos claros que você consegue ter um setor prioritário, que você vai fazer uma produção de produto descarbonizado e você consegue se inserir melhor, tanto no mercado nacional como no mercado internacional”, observou.
Sustentabilidade e inserção global
O debate reforçou que a descarbonização é a maior vitrine do Nordeste para atrair capital estrangeiro. O acordo entre Mercosul e União Europeia foi citado como uma oportunidade para a região exportar produtos de baixo carbono. Para os debatedores, o sucesso desse projeto industrial exige infraestrutura básica, como estradas de qualidade e mão de obra capacitada.
A visão compartilhada no Análise Ceplan 2026 é de que o Nordeste não pode mais se contentar apenas em ser um exportador de energia limpa para outras regiões. O objetivo é internalizar essa riqueza, transformando-a em fábricas, empregos e tecnologia de ponta.
O evento é realização da Ceplan Consultoria em parceria com o Movimento Econômico, com patrocínio da Caixa Econômica Federal e do Banco do Nordeste.
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