
Depois da energia gerada no campo e da infraestrutura que abastece a indústria, a transição energética em Alagoas passa por outro eixo decisivo: a formação de mão de obra e a pesquisa aplicada no interior. Na última matéria da série Rota Energética, vamos mostrar pesquisas de vanguarda que transformam passivos ambientais crônicos em biocombustíveis e a abertura de cursos técnicos pioneiros focados nas demandas reais do mercado privado capacita jovens para atuar com alta tecnologia fora da capital.
No Sertão alagoano, o Laboratório do Instituto Federal de Alagoas (IFAL ) Campus Piranhas desenvolve uma pesquisa que ataca duas frentes simultâneas: a busca por matrizes limpas e a despoluição do Rio São Francisco. Sob a coordenação do professor Willyan Costa, os estudantes pesquisam a viabilidade de converter o bagaço do milho e plantas aquáticas invasoras, como o aguapé e a alface-d’água, em etanol de segunda geração (2G).
Willyan explicou que as espécies de plantas aquáticas se proliferam de forma desordenada nos Cânions do São Francisco, criando barreiras físicas que sufocam o tráfego de embarcações turísticas, prejudicam a pesca local e comprometem o ecossistema subaquático ao bloquear a luz e o oxigênio. Até então, o material retirado não possuía nenhum destino nobre.

“Realizamos etapas chamadas de pré-tratamento, onde agentes químicos atuam sobre a estrutura da biomassa e liberam os açúcares presentes em sua composição. Em seguida, esses açúcares liberados são quantificados e fermentados por microrganismos (leveduras), que convertem esse açúcar em etanol“, explica o professor Willyan Costa ao Movimento Econômico.
Já nas pesquisas para produção de etanol de segunda geração a partir do milho, o grupo recebe o apoio indireto de profissionais do setor agroindustrial que cedem pequenas amostras, entre 10 kg e 30 kg, para os testes laboratoriais.
De acordo com Costa, após a otimização dos processos químicos, todo o ciclo de conversão biotecnológica leva em torno de uma semana para atingir o etanol pronto. “É um período ótimo para processos biotecnológicos que dependem da ação de células vivas (leveduras)”, completou.
O avanço técnico é tão expressivo que várias etapas do modelo desenvolvido durante as pesquisas já estão em processo de patenteamento, abrindo caminho para uma futura transferência de tecnologia para o setor privado.

Novo curso do IFAL foca no biogás do Agreste
Se o Sertão desenvolve a tecnologia, o Agreste prepara a mão de obra para operar a nova realidade do mercado. De olho na expansão de projetos estruturantes, o IFAL vai ofertar o curso pioneiro de Auxiliar de Operação de Biodigestores. Vinculada à Pró-Reitoria de Extensão, a formação Inicial e Continuada (FIC) terá 160 horas e será viabilizada por meio do Pronatec e do programa EnergIFE, do Ministério da Educação.
No caso da região da Bacia Leiteira, as aulas ocorrerão no município de Girau do Ponciano, onde será implementado o novo campus da instituição.
O professor Elias Gallina, coordenador da iniciativa, detalha que o foco do curso é formar profissionais capazes de monitorar e dar manutenção a sistemas de biodigestão, desde o manejo dos substratos até a destinação do biogás e do biometano. O movimento acompanha uma recente reformulação sofrida também pelo curso técnico integrado em Biotecnologia do campus de Batalha, redesenhado para aproximar os estudantes das indústrias sucroenergética e láctea.
“Identificou-se a necessidade de expandir a formação para outras fontes renováveis além da [energia] solar, como o biogás. Há um grande potencial de produção em Alagoas, especialmente pela forte presença do setor sucroenergético, que gera grandes volumes de resíduos e efluentes como a vinhaça”, aponta Gallina.
O professor cita como exemplo prático de mercado a recente parceria firmada entre a Cooperativa Pindorama e a multinacional Veolia para a construção de uma planta industrial voltada a esse fim.

Pesquisas destacam potencial do campo
A aposta do IFAL na formação de operadores de biodigestores antecipa uma demanda que deve explodir nos próximos anos no campo alagoano. De um lado, o crescimento da atividade leiteira abre espaço para que pequenas propriedades e cooperativas adotem biodigestores particulares, tratando os dejetos animais para gerar energia própria e produzir biofertilizantes para as pastagens.
De outro, Alagoas se destaca no cenário regional por já possuir um arcabouço legal moderno e estruturado, em total consonância com as agências federais, regulamentando a produção, a venda e, principalmente, a injeção do biometano diretamente na rede estadual de distribuição de gás natural canalizado operada pela Algás.
“Esse conjunto de fatores indica que a demanda por profissionais capacitados para operar e monitorar biodigestores tende a crescer fortemente nos próximos anos, acompanhando a expansão dos projetos sustentáveis”, conclui Elias Gallina.
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Rota Energética: indústria de Alagoas avança com gás, vapor verde e resíduos











