
A atração de grandes investimentos industriais para o interior de Alagoas deixou de depender exclusivamente de incentivos fiscais tradicionais para se ancorar em uma infraestrutura invisível, mas altamente competitiva: a segurança da matriz energética e ambiental. Na segunda matéria da série Rota Energética, vamos mostrar como o setor industrial têm recorrido ao gás natural para garantir seu funcionamento e ampliar o processo de descarbonização em território alagoano.
Um dos avanços mais recentes tem ocorrido no Sertão de Alagoas, que passou a contar com o gás natural canalizado para atender as indústrias de laticínios instaladas na pujante Bacia Leiteira. Historicamente reféns de matrizes energéticas poluidoras e de alta oscilação de preço, as indústrias de laticínios da região dependiam quase que exclusivamente da queima de lenha e de óleo combustível pesado para movimentar suas caldeiras.
Diagnósticos de competitividade da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA) e relatórios de mercado da própria Algás mostram que estes materiais eram intensamente utilizados nos processos de produção, uma vez que as etapas de pasteurização e a fabricação de leite em pó exigem picos contínuos de calor extremo, enquanto a refrigeração e a estocagem de derivados demandam sistemas de resfriamento ininterruptos.

Produção de leite atrai gigantes do setor de laticínios para Alagoas
Desde abril, a cidade de Batalha passou a contar com a rede de gás natural canalizado. A Algás investiu R$ 5 milhões para instalar cinco quilômetros de rede local de distribuição, que vai atender de imediato três indústrias nacionais instaladas na região: a Natville, o Grupo Alvoar (dono das marcas Camponesa, Embaré e Betânia) e, mais recentemente, a Piracanjuba, que adquiriu o Laticínio Sertão, em Monteirópolis.
Segundo dados da Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, a Bacia Leiteira alagoana movimenta R$ 1,3 bilhão anualmente, resultado de uma produção de cerca de 597 milhões de litros de leite. O alto volume produzido atraiu essas grandes corporações, que já confirmaram que irão utilizar o gás natural em suas unidades, impulsionando a movimentação financeira e a geração de empregos na região.

Somente a Natville anunciou que pretende investir R$ 500 milhões na unidade que está sendo construída em Batalha, e que será totalmente abastecida com gás natural, gerando 500 empregos diretos e 5 mil indiretos. Já o grupo Alvoar adquiriu a Cooperativa de Produção Leiteira de Alagoas (CPLA) e anunciou investimentos de R$ 40 milhões para impulsionar a manufatura de lácteos.
Na prática, a chegada dos dutos a polos como Batalha redesenha a eficiência de chão de fábrica, garantindo a estabilidade térmica necessária para padronizar a qualidade dos derivados e reduzindo sensivelmente o custo operacional por litro de leite processado.
Segundo o presidente da Algás, Ediberto Omena, a estação de gás de Batalha vai atender toda a região da Bacia Leiteira, garantindo mais economia aos produtores. “Eles vão ter uma economia maior, uma energia limpa, mais sustentabilidade, substituindo a lenha e o briquete pelo gás natural, que é da Algás”, destacou.

Polo Cloroquímico e a âncora da energia contínua
Se no interior o gás natural é sinônimo de atração de indústrias, na Região Metropolitana ele atua na fixação de grandes empresas e consolida um hub de produção que posiciona o estado de forma estratégica no balanço energético do país. No Polo Cloroquímico, situado em Marechal Deodoro, o fornecimento contínuo de gás funciona como fator de atração e expansão para multinacionais como a Braskem, que demanda alto volume de energia térmica para a produção de PVC, e a fabricante de tubos e conexões Krona.
A própria fábrica da Braskem é abastecida com vapor verde produzido pela Veolia. As empresas firmaram um contrato de 20 anos para o fornecimento de energia renovável a partir de biomassa. Somente no primeiro ano de funcionamento, a planta da Veolia produziu 900 mil toneladas de vapor verde.
“O uso desta fonte de energia renovável representa uma redução anual de, aproximadamente, 150 mil toneladas de CO₂, se comparado ao uso de combustíveis fósseis. Todo o preparo, armazenamento e processamento delas é realizado no próprio site da companhia. Nossa intenção é aumentar cada vez mais o mix de combustível usado na usina, com outras fontes renováveis disponíveis na região, como a casca de coco, por exemplo”, explicou a diretora de Operações Industriais da Veolia Brasil, Natalie Figueiredo, ao Movimento Econômico em entrevista concedida ano passado.
Para expandir ainda mais essa presença, a Algás pretende construir este ano um ramal para distribuir gás natural para condomínios e hotéis instalados em Marechal Deodoro. As obras fazem parte de um pacote de R$ 15 milhões de investimentos em expansão de oferta no estado.
O movimento acompanha o crescimento do mercado: o relatório anual da Agência Reguladora de Serviços de Alagoas (Arsal) mostra que em 2025 o número de indústrias abastecidas com gás saltou de 45 para 48 no estado.
Os dados apontam que o mercado cativo fechou o ano com 10.438 unidades consumidoras activas (alta de 1,43% sobre dezembro de 2024) e 660,83 quilômetros de rede de distribuição (+3,47%). O volume total de gás distribuído em 2025 ficou em 145,88 milhões de metros cúbicos, com média diária de 400,26 mil m³.

Estocagem no Pilar reforça segurança energética
Enquanto a rede de distribuição avança para atender indústrias, Alagoas também se prepara para ganhar um ativo estratégico no mercado de gás. No Pilar, a Origem Energia desenvolve um projeto de estocagem subterrânea em antigos reservatórios do Polo Alagoas, com previsão de início no segundo semestre deste ano.
A primeira fase terá capacidade inicial de 50 milhões de metros cúbicos e investimento de cerca de US$ 20 milhões. A estrutura deve funcionar como uma reserva para equilibrar oferta e demanda, permitindo injeção de até 800 mil metros cúbicos por dia e retirada de aproximadamente 500 mil metros cúbicos.

ESG em escala: resíduos industriais e urbanos viram biogás e biomassa
Se as indústrias precisam de energia limpa para funcionar, a sustentabilidade do ecossistema exige pensar na destinação correta do lixo residual produzido no processo. Alinhada a isso, a Veolia adquiriu as empresas Alagoas Ambiental e Serquip Tratamentos e Resíduos, que hoje se somam à sua planta de geração de vapor em Marechal Deodoro.
Os novos EcoParques e unidades da Veolia no estado oferecem serviços que vão do beneficiamento de pneus à geração de energia por meio do biogás, passando por tratamento por incineração e autoclave, disposição final de resíduos de serviços de saúde, reciclagem de entulho da construção civil, tratamento de resíduos perigosos (Classe I) e não perigosos (Classe II), além do tratamento de chorume por osmose reversa.

Também foram incorporados ao complexo uma usina de biomassa, uma de blendagem para coprocessamento e uma estação de tratamento de efluentes.
O diretor operacional da Veolia em Alagoas, Marnes Gomes, informou ao Movimento Econômico que o volume de resíduos aproveitados nas duas unidades corresponde a 40 mil toneladas mensais, que abastecem diretamente a matriz limpa do estado. “O biogás gerado nessas unidades de Pilar e Craíbas abastece cinco motores, que geram cinco megawatts de energia por hora”, concluiu.
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