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Rota Energética: indústria de Alagoas avança com gás, vapor verde e resíduos

Segunda matéria da série Rota Energética mostra como o setor industrial tem recorrido ao gás natural para garantir seu funcionamento e ampliar o processo de descarbonização
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  1. Indústrias de Alagoas migram de lenha e óleo combustível para gás natural canalizado
  2. Batalha recebe investimento de R$ 5 milhões da Algás em infraestrutura de distribuição de gás
  3. Natville investe R$ 500 milhões em nova unidade que gerará 500 empregos diretos em Batalha
  4. Bacia Leiteira alagoana movimenta R$ 1,3 bilhão anualmente com produção de 597 milhões de litros
  5. Segurança energética e descarbonização substituem incentivos fiscais como atrativo para grandes investimentos industriais
Polo cloroquimico de Marechal Deodoro
Polo cloroquímico, em Marechal Deodoro, concentra hoje indústrias que utilizam gás natural e outros biocombustíveis para abastecer paques fabris. Foto: Divulgação

A atração de grandes investimentos industriais para o interior de Alagoas deixou de depender exclusivamente de incentivos fiscais tradicionais para se ancorar em uma infraestrutura invisível, mas altamente competitiva: a segurança da matriz energética e ambiental. Na segunda matéria da série Rota Energética, vamos mostrar como o setor industrial têm recorrido ao gás natural para garantir seu funcionamento e ampliar o processo de descarbonização em território alagoano.

Um dos avanços mais recentes tem ocorrido no Sertão de Alagoas, que passou a contar com o gás natural canalizado para atender as indústrias de laticínios instaladas na pujante Bacia Leiteira. Historicamente reféns de matrizes energéticas poluidoras e de alta oscilação de preço, as indústrias de laticínios da região dependiam quase que exclusivamente da queima de lenha e de óleo combustível pesado para movimentar suas caldeiras.

Diagnósticos de competitividade da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA) e relatórios de mercado da própria Algás mostram que estes materiais eram intensamente utilizados nos processos de produção, uma vez que as etapas de pasteurização e a fabricação de leite em pó exigem picos contínuos de calor extremo, enquanto a refrigeração e a estocagem de derivados demandam sistemas de resfriamento ininterruptos.

Produção de leite na Bacia Leiteira de Alagoas
Principal hub de produção de leite em Alagoas, Batalha atraiu empresas e trouxe junto rede de gás natural para atender demanda para produção de laticínios e derivados. Foto: Thiago Sampaio

Produção de leite atrai gigantes do setor de laticínios para Alagoas

Desde abril, a cidade de Batalha passou a contar com a rede de gás natural canalizado. A Algás investiu R$ 5 milhões para instalar cinco quilômetros de rede local de distribuição, que vai atender de imediato três indústrias nacionais instaladas na região: a Natville, o Grupo Alvoar (dono das marcas Camponesa, Embaré e Betânia) e, mais recentemente, a Piracanjuba, que adquiriu o Laticínio Sertão, em Monteirópolis.

Segundo dados da Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, a Bacia Leiteira alagoana movimenta R$ 1,3 bilhão anualmente, resultado de uma produção de cerca de 597 milhões de litros de leite. O alto volume produzido atraiu essas grandes corporações, que já confirmaram que irão utilizar o gás natural em suas unidades, impulsionando a movimentação financeira e a geração de empregos na região.

Natville Batalha Alagoas
Natville está construindo segunda unidade em Alagoas, no município de Batalha e irá usar gás natural para abastecer parque industrial. Foto: Thiago Sampaio/Agência Alagoas

Somente a Natville anunciou que pretende investir R$ 500 milhões na unidade que está sendo construída em Batalha, e que será totalmente abastecida com gás natural, gerando 500 empregos diretos e 5 mil indiretos. Já o grupo Alvoar adquiriu a Cooperativa de Produção Leiteira de Alagoas (CPLA) e anunciou investimentos de R$ 40 milhões para impulsionar a manufatura de lácteos.

Na prática, a chegada dos dutos a polos como Batalha redesenha a eficiência de chão de fábrica, garantindo a estabilidade térmica necessária para padronizar a qualidade dos derivados e reduzindo sensivelmente o custo operacional por litro de leite processado.

Segundo o presidente da Algás, Ediberto Omena, a estação de gás de Batalha vai atender toda a região da Bacia Leiteira, garantindo mais economia aos produtores. “Eles vão ter uma economia maior, uma energia limpa, mais sustentabilidade, substituindo a lenha e o briquete pelo gás natural, que é da Algás”, destacou.

Veiolia Grunie Alagoas
Veolia produz vapor verde para abastecer unidade de PVC da Braskem em Marechal Deodoro. Foto: Divulgação

Polo Cloroquímico e a âncora da energia contínua

Se no interior o gás natural é sinônimo de atração de indústrias, na Região Metropolitana ele atua na fixação de grandes empresas e consolida um hub de produção que posiciona o estado de forma estratégica no balanço energético do país. No Polo Cloroquímico, situado em Marechal Deodoro, o fornecimento contínuo de gás funciona como fator de atração e expansão para multinacionais como a Braskem, que demanda alto volume de energia térmica para a produção de PVC, e a fabricante de tubos e conexões Krona.

A própria fábrica da Braskem é abastecida com vapor verde produzido pela Veolia. As empresas firmaram um contrato de 20 anos para o fornecimento de energia renovável a partir de biomassa. Somente no primeiro ano de funcionamento, a planta da Veolia produziu 900 mil toneladas de vapor verde.

“O uso desta fonte de energia renovável representa uma redução anual de, aproximadamente, 150 mil toneladas de CO₂, se comparado ao uso de combustíveis fósseis. Todo o preparo, armazenamento e processamento delas é realizado no próprio site da companhia. Nossa intenção é aumentar cada vez mais o mix de combustível usado na usina, com outras fontes renováveis disponíveis na região, como a casca de coco, por exemplo”, explicou a diretora de Operações Industriais da Veolia Brasil, Natalie Figueiredo, ao Movimento Econômico em entrevista concedida ano passado.

Para expandir ainda mais essa presença, a Algás pretende construir este ano um ramal para distribuir gás natural para condomínios e hotéis instalados em Marechal Deodoro. As obras fazem parte de um pacote de R$ 15 milhões de investimentos em expansão de oferta no estado.

O movimento acompanha o crescimento do mercado: o relatório anual da Agência Reguladora de Serviços de Alagoas (Arsal) mostra que em 2025 o número de indústrias abastecidas com gás saltou de 45 para 48 no estado.

Os dados apontam que o mercado cativo fechou o ano com 10.438 unidades consumidoras activas (alta de 1,43% sobre dezembro de 2024) e 660,83 quilômetros de rede de distribuição (+3,47%). O volume total de gás distribuído em 2025 ficou em 145,88 milhões de metros cúbicos, com média diária de 400,26 mil m³.

Estocagem de gás natural em Alagoas operado pela Origem Energia
Origem Energia desenvolve projeto pioneiro no Brasil de estocagem de gás natural no município de Pilar, região Metropolitana de Maceió. Foto: Origem Energia

Estocagem no Pilar reforça segurança energética

Enquanto a rede de distribuição avança para atender indústrias, Alagoas também se prepara para ganhar um ativo estratégico no mercado de gás. No Pilar, a Origem Energia desenvolve um projeto de estocagem subterrânea em antigos reservatórios do Polo Alagoas, com previsão de início no segundo semestre deste ano.

A primeira fase terá capacidade inicial de 50 milhões de metros cúbicos e investimento de cerca de US$ 20 milhões. A estrutura deve funcionar como uma reserva para equilibrar oferta e demanda, permitindo injeção de até 800 mil metros cúbicos por dia e retirada de aproximadamente 500 mil metros cúbicos.

Veolia Alagoas
Veolia ampliou atuação em Alagoas e passou a gerir ecoparques para produzir biogás de resíduos e lixo. Foto: Assessoria

ESG em escala: resíduos industriais e urbanos viram biogás e biomassa

Se as indústrias precisam de energia limpa para funcionar, a sustentabilidade do ecossistema exige pensar na destinação correta do lixo residual produzido no processo. Alinhada a isso, a Veolia adquiriu as empresas Alagoas Ambiental e Serquip Tratamentos e Resíduos, que hoje se somam à sua planta de geração de vapor em Marechal Deodoro.

Os novos EcoParques e unidades da Veolia no estado oferecem serviços que vão do beneficiamento de pneus à geração de energia por meio do biogás, passando por tratamento por incineração e autoclave, disposição final de resíduos de serviços de saúde, reciclagem de entulho da construção civil, tratamento de resíduos perigosos (Classe I) e não perigosos (Classe II), além do tratamento de chorume por osmose reversa.

Usina de energia da Veolia
Veolia passou a contar também com usina de biomassa, que produz energia limpa a partir de resíduos. Foto: Assessoria

Também foram incorporados ao complexo uma usina de biomassa, uma de blendagem para coprocessamento e uma estação de tratamento de efluentes.

O diretor operacional da Veolia em Alagoas, Marnes Gomes, informou ao Movimento Econômico que o volume de resíduos aproveitados nas duas unidades corresponde a 40 mil toneladas mensais, que abastecem diretamente a matriz limpa do estado. “O biogás gerado nessas unidades de Pilar e Craíbas abastece cinco motores, que geram cinco megawatts de energia por hora”, concluiu.

Leia outras matérias da série: Rota Energética: tecnologia descarboniza o agro em usinas de Alagoas

Rota Energética: pesquisa prepara interior de AL para transição energética

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