
A fruticultura do Vale do São Francisco é um motor de desenvolvimento econômico e social para o Sertão nordestino. A região responde por 78% das frutas exportadas pelo Brasil e, em 2024, gerou aproximadamente US$ 480 milhões em vendas externas apenas com manga e uva — as duas culturas mais emblemáticas da produção local. Ainda assim, o país ocupa apenas a 23ª posição no ranking mundial de exportadores, apesar de ser o 3º maior produtor global, atrás apenas de China e Índia.
Esse descompasso é resultado de um conjunto de gargalos logísticos e estruturais que encarecem os custos e reduzem a competitividade da produção. Terceiro maior produtor e 23º exportador significa uma oportunidade gigantesca de crescimento. O problema não é produzir, é escoar de forma eficiente, como disse o consultor Júnior Silveira, representando a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados. (Abrafrutas) A nesta quarta-feira (13), no seminário Conexões Transnordestina – A Ferrovia que Mudará Pernambuco, realizado em Petrolina.

Iniciativa do Movimento Econômico, portal do Grupo EQM, liderado pelo empresário Eduardo de Queiroz Monteiro, o evento itinerante que chegou ao Vale do São Francisco reuniu autoridades estaduais e municipais, reitores, técnicos e representantes da sociedade civil para discutir a proposta do ramal ferroviário Petrolina–Salgueiro. O estudo de viabilidade está sendo conduzido pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por meio de um convênio com a Sudene.
Gargalos e custos da logística atual
A concretização do ramal Petrolina–Salgueiro reduziria o custo logístico do escoamento das frutas do Vale por Suape. Hoje, esse porto pernambucano não exporta nenhuma das frutas cultivadas às margens do Rio São Francisco. O escoamento acontece basicamente por três portos nordestinos.
O Porto de Salvador é a principal porta de exportação, com 3.249 contêineres exportados em 2023 (dados mais atualizados), contra 1.352 do Porto do Pecém e 708 do Porto de Fortaleza. Assim como Suape, o Porto de Santos também não exporta as frutas colhidas na região.
O porto baiano é a opção mais próxima geograficamente, mas enfrenta dois entraves: atrasos frequentes nos navios e um tempo de travessia até a Europa mais longo que o oferecido por portos como Pecém e Fortaleza.
Para culturas sensíveis como a manga, que continua amadurecendo após a colheita, alguns dias a mais podem significar perda de qualidade e de valor comercial. Portos mais ao norte, como Fortaleza, oferecem rotas até cinco dias mais curtas para o principal mercado comprador, a União Europeia, mas o custo do transporte rodoviário até lá é significativamente mais alto, comprometendo a margem de lucro do exportador.
“Se conseguirmos embarcar pelo Porto de Suape via ferrovia, teremos uma redução expressiva nos custos e um ganho logístico fundamental, especialmente para frutas perecíveis. Mais competitividade significa mais negócios, mais renda e mais empregos no Vale do São Francisco”, destacou Silveira.

O secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Guilherme Cavalcanti, presente à mesa de debates, ressaltou que os portos do Sul e Sudeste estão com espera de 30 a 40 dias. “Nosso Porto de Suape está ganhando um novo terminal de contêineres. Com esse novo terminal de contêineres (da APM Terminals) vem um trabalho de desenvolvimento de novas linhas e um serviço com frequência e custo competitivo para levar a nossa fruta para a Europa e para outros portos também”, ressaltou.
Potencial de impacto econômico
Segundo dados da Abrafrutas, 46% das exportações de uvas do Vale vão para países da União Europeia, 23% para os EUA e 20,9% para o Reino Unido. No caso da manga, a União Europeia absorve 70%, os Estados Unidos, 14,3%, e o Reino Unido, 7,6%. Essa diversificação de mercados reforça a necessidade de uma logística ágil e múltiplas rotas de embarque.
Além do escoamento da produção, o ramal ferroviário também poderia reduzir custos na importação de insumos, como embalagens, que hoje chegam principalmente pelos portos de Salvador e Recife. “Se o material de embalagem vier por trem até Petrolina, isso reduz ainda mais o custo para o exportador, tornando-o mais competitivo no mercado internacional”, explicou Silveira.

O efeito multiplicador sobre a economia regional seria expressivo: a cadeia frutícola emprega milhares de trabalhadores e é um dos principais vetores de aumento do IDH nos municípios produtores. “Juazeiro, Petrolina, Casa Nova, Lagoa Grande, Sobradinho e Curaçá são exemplos claros de como a fruticultura impulsiona o desenvolvimento local, gera empregos e distribui renda. Com uma logística mais eficiente, esse impacto só tende a crescer”, completou.
Acordos que beneficiam fruticultura
O setor acompanha com atenção as negociações do Acordo Mercosul–União Europeia. Se o tratado for firmado, a redução de tarifas e barreiras poderia ampliar significativamente a presença das frutas brasileiras no mercado europeu. “Se tivermos mais competitividade para o produtor e para as empresas, esse número de exportações tende a crescer muito. Mas, para sustentar esse crescimento, é preciso resolver o gargalo logístico”, alertou Silveira.
Além disso, questões como o “tarifaço” de 50% imposto pelos Estados Unidos sobre a manga brasileira — que pode gerar perdas de até R$ 150 milhões para o Vale — mostram como a diversificação de destinos e a redução de custos internos são vitais para proteger a competitividade do setor.
Uma obra de integração regional
O ramal Petrolina–Salgueiro, caso viabilizado, beneficiaria não apenas a fruticultura, mas também outros setores produtivos da região, criando um novo corredor de exportação para Suape e, indiretamente, para outros portos do Nordeste. José Farias, Coordenador-Geral de Estudos e Pesquisas, Avaliação, Tecnologia e Inovação da Sudene, lembrou que nessa conta também entra a cana produzida na região pela Agrovale. “A integração ferroviária também poderia estimular investimentos privados e públicos, consolidando o Vale do São Francisco como um hub logístico e produtivo de alcance global”, disse.
“Essa solução não é só para Petrolina, é para todo o Vale e para o Nordeste. É a chance de dar um salto na nossa competitividade, gerar mais negócios e fortalecer nossa posição no mercado internacional de frutas”, concluiu Silveira.
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