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Força da fruticultura impulsiona projeto de novo ramal

Realizado em Petrolina, evento Conexões Transnordestina discutiu a viabilidade de um ramal ligando o polo de fruticultura do Vale do São Francisco a Salgueiro e Porto de Suape
Patricia Raposo
Patricia Raposo
De Recife CEO do Movimento Econômico [email protected]
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frutas
Cerca de 46% das exportações de uvas do Vale do S. Francisco vão para países da União Europeia/Foto: Divulgação Sebrae

A fruticultura do Vale do São Francisco é um motor de desenvolvimento econômico e social para o Sertão nordestino. A região responde por 78% das frutas exportadas pelo Brasil e, em 2024, gerou aproximadamente US$ 480 milhões em vendas externas apenas com manga e uva — as duas culturas mais emblemáticas da produção local. Ainda assim, o país ocupa apenas a 23ª posição no ranking mundial de exportadores, apesar de ser o 3º maior produtor global, atrás apenas de China e Índia.

Esse descompasso é resultado de um conjunto de gargalos logísticos e estruturais que encarecem os custos e reduzem a competitividade da produção. Terceiro maior produtor e 23º exportador significa uma oportunidade gigantesca de crescimento. O problema não é produzir, é escoar de forma eficiente, como disse o consultor Júnior Silveira, representando a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados. (Abrafrutas) A nesta quarta-feira (13), no seminário Conexões Transnordestina – A Ferrovia que Mudará Pernambuco, realizado em Petrolina.

Conexões Transnordestina
O seminário Conexões Transnordestina foi realizado nesta quarta-feira, em Petrolina/Foto: ME

Iniciativa do Movimento Econômico, portal do Grupo EQM, liderado pelo empresário Eduardo de Queiroz Monteiro, o evento itinerante que chegou ao Vale do São Francisco reuniu autoridades estaduais e municipais, reitores, técnicos e representantes da sociedade civil para discutir a proposta do ramal ferroviário Petrolina–Salgueiro. O estudo de viabilidade está sendo conduzido pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por meio de um convênio com a Sudene.

Gargalos e custos da logística atual

A concretização do ramal Petrolina–Salgueiro reduziria o custo logístico do escoamento das frutas do Vale por Suape. Hoje, esse porto pernambucano não exporta nenhuma das frutas cultivadas às margens do Rio São Francisco. O escoamento acontece basicamente por três portos nordestinos.

O Porto de Salvador é a principal porta de exportação, com 3.249 contêineres exportados em 2023 (dados mais atualizados), contra 1.352 do Porto do Pecém e 708 do Porto de Fortaleza. Assim como Suape, o Porto de Santos também não exporta as frutas colhidas na região.

O porto baiano é a opção mais próxima geograficamente, mas enfrenta dois entraves: atrasos frequentes nos navios e um tempo de travessia até a Europa mais longo que o oferecido por portos como Pecém e Fortaleza.

Para culturas sensíveis como a manga, que continua amadurecendo após a colheita, alguns dias a mais podem significar perda de qualidade e de valor comercial. Portos mais ao norte, como Fortaleza, oferecem rotas até cinco dias mais curtas para o principal mercado comprador, a União Europeia, mas o custo do transporte rodoviário até lá é significativamente mais alto, comprometendo a margem de lucro do exportador.

“Se conseguirmos embarcar pelo Porto de Suape via ferrovia, teremos uma redução expressiva nos custos e um ganho logístico fundamental, especialmente para frutas perecíveis. Mais competitividade significa mais negócios, mais renda e mais empregos no Vale do São Francisco”, destacou Silveira.

Secretário Guilherme Cavalcanti
Secretário Guilherme Cavalcanti, no seminário Conexões Transnordestina, ressaltou competitividade que se abre para Suape com novo ramal da ferrovia/Foto: ME

O secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Guilherme Cavalcanti, presente à mesa de debates, ressaltou que os portos do Sul e Sudeste estão com espera de 30 a 40 dias. “Nosso Porto de Suape está ganhando um novo terminal de contêineres. Com esse novo terminal de contêineres (da APM Terminals) vem um trabalho de desenvolvimento de novas linhas e um serviço com frequência e custo competitivo para levar a nossa fruta para a Europa e para outros portos também”, ressaltou.

Potencial de impacto econômico

Segundo dados da Abrafrutas, 46% das exportações de uvas do Vale vão para países da União Europeia, 23% para os EUA e 20,9% para o Reino Unido. No caso da manga, a União Europeia absorve 70%, os Estados Unidos, 14,3%, e o Reino Unido, 7,6%. Essa diversificação de mercados reforça a necessidade de uma logística ágil e múltiplas rotas de embarque.

Além do escoamento da produção, o ramal ferroviário também poderia reduzir custos na importação de insumos, como embalagens, que hoje chegam principalmente pelos portos de Salvador e Recife. “Se o material de embalagem vier por trem até Petrolina, isso reduz ainda mais o custo para o exportador, tornando-o mais competitivo no mercado internacional”, explicou Silveira.

Júnior Silveira
Júnior Silveira apontou números que garantem potencial da região para um novo ramal/Foto: ME

O efeito multiplicador sobre a economia regional seria expressivo: a cadeia frutícola emprega milhares de trabalhadores e é um dos principais vetores de aumento do IDH nos municípios produtores. “Juazeiro, Petrolina, Casa Nova, Lagoa Grande, Sobradinho e Curaçá são exemplos claros de como a fruticultura impulsiona o desenvolvimento local, gera empregos e distribui renda. Com uma logística mais eficiente, esse impacto só tende a crescer”, completou.

Acordos que beneficiam fruticultura

O setor acompanha com atenção as negociações do Acordo Mercosul–União Europeia. Se o tratado for firmado, a redução de tarifas e barreiras poderia ampliar significativamente a presença das frutas brasileiras no mercado europeu. “Se tivermos mais competitividade para o produtor e para as empresas, esse número de exportações tende a crescer muito. Mas, para sustentar esse crescimento, é preciso resolver o gargalo logístico”, alertou Silveira.

Além disso, questões como o “tarifaço” de 50% imposto pelos Estados Unidos sobre a manga brasileira — que pode gerar perdas de até R$ 150 milhões para o Vale — mostram como a diversificação de destinos e a redução de custos internos são vitais para proteger a competitividade do setor.

Uma obra de integração regional

O ramal Petrolina–Salgueiro, caso viabilizado, beneficiaria não apenas a fruticultura, mas também outros setores produtivos da região, criando um novo corredor de exportação para Suape e, indiretamente, para outros portos do Nordeste. José Farias, Coordenador-Geral de Estudos e Pesquisas, Avaliação, Tecnologia e Inovação da Sudene, lembrou que nessa conta também entra a cana produzida na região pela Agrovale. “A integração ferroviária também poderia estimular investimentos privados e públicos, consolidando o Vale do São Francisco como um hub logístico e produtivo de alcance global”, disse.

“Essa solução não é só para Petrolina, é para todo o Vale e para o Nordeste. É a chance de dar um salto na nossa competitividade, gerar mais negócios e fortalecer nossa posição no mercado internacional de frutas”, concluiu Silveira.

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