
Ainda é noite quando Márcia Ribeiro, 50 anos, acende o motor da jangada e parte em direção ao mar aberto de Canoa Quebrada, no litoral leste do Ceará. Ela é a única pescadora em alto-mar da comunidade e a única fonte de renda da própria atividade, exercida há mais de três décadas. Com recursos do Edital Mulheres Rurais, vinculado ao Projeto São José (PSJ) e gerenciado pela Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA) com financiamento do Banco Mundial, Márcia reformou completamente a embarcação e adquiriu um motor mais potente — recursos que chegam a R$ 30 mil por iniciativa contemplada.
A trajetória de Márcia com o mar começou aos 17 anos, quando seu atual marido a convidou para pescar pela primeira vez. Desde então, ela passou a operar sozinha em águas profundas, em busca de espécies como serra, cavala, guarajuba, atum e biquara. A embarcação anterior apresentava falhas mecânicas recorrentes: em uma das ocorrências, o motor parou em alto-mar e ela ficou à deriva por várias horas. Em outra situação, precisou abrir a vela e reparar o equipamento em pleno oceano.
“Eu não tinha uma jangada boa. Fizemos uma nova jangada, com motor novo. Posso ir para o mar com mais confiança. Essa tem até onde dormir, no interior. Antes eu dormia fora e levava muita chuva”, descreve.

De Canoa Quebrada ao ambiente digital
A resistência de parte dos colegas de trabalho é um obstáculo constante. “O maior desafio é sempre por ser mulher. Muitos pescadores não aceitam. Tem uns que olham com aquele olhar, acham que a mulher não tem capacidade de pescar”, relata. Márcia diz não alterar a rotina por pressão externa: “Embora alguns ainda ignorem, digam que está na hora de parar, eu não ligo. Eu me orgulho muito.”
Além do equipamento, o programa foi o ponto de entrada de Márcia no ambiente digital. Ao longo das formações que acompanharam o edital, ela teve o primeiro contato com plataformas como GOV.BR e Licitabem, ferramentas que ampliam o acesso a políticas públicas e crédito. “Eu só sabia mexer no meu whatsapp, depois do projeto aprendi muita coisa de tecnologia. Aprendi a usar o site Gov, a fazer compras pela internet, entrar em uma chamada de vídeo. Hoje consigo fazer o necessário”, disse.
A pesca em alto-mar continua sendo a única fonte de renda de Márcia e ela não demonstra intenção de encerrar a atividade. “Por mim, moraria dentro do mar. É onde sou feliz. Pretendo pescar até ficar velhinha.”
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