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Edital Mulheres Rurais seleciona 200 iniciativas de empreendedoras no CE

Gerenciado pela Secretaria do Desenvolvimento Agrário com financiamento do Banco Mundial, o programa apoia produção, comercialização e capacitação digital de mulheres da agricultura familiar
Bruno Brandão
Bruno Brandão
De Fortaleza
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Izamara de Paula produz bananas-passas, doces e balas artesanais no Sítio Jordão, em Baturité (CE) - Foto: Divulgação
Izamara de Paula produz bananas-passas, doces e balas artesanais no Sítio Jordão, em Baturité (CE) – Foto: Divulgação

O Ceará registra 59.730 mulheres atuando na agricultura familiar, o quarto maior contingente feminino do setor no país. Elas representam 20,1% dos 297,8 mil produtores familiares cadastrados no estado, sendo 73,3% negras e pardas, segundo o Censo Agropecuário do IBGE. No Brasil, mais de 6 milhões de mulheres movimentam a economia rural. Para estruturar esse potencial produtivo, o governo do Ceará opera o Edital Mulheres Rurais, vinculado ao Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável — Projeto São José (PSJ), gerenciado pela Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA) com financiamento do Banco Mundial.

O programa contempla atividades econômicas agrícolas e não agrícolas, desde pesca artesanal e pecuária até extrativismo vegetal e produção artesanal, com a condição de que os projetos sejam conduzidos por mulheres vinculadas à agricultura familiar em comunidades rurais cearenses. Cada iniciativa recebe recursos de até R$ 30 mil, destinados a investimentos produtivos e assessoria técnica.

No último edital, 200 iniciativas foram selecionadas em todo o estado. Os resultados relatados pelas beneficiárias incluem ampliação da capacidade produtiva, aumento das vendas e crescimento da renda familiar.

Segundo Nadir Chaves, Coordenadora do Edital Mulheres Rurais, o impacto vai além da estrutura física: “Com os investimentos realizados, muitas mulheres relatam avanços significativos na capacidade de produção e comercialização de seus produtos, o que tem refletido positivamente no aumento das vendas e, consequentemente, na elevação da renda familiar. Além disso, o projeto tem promovido maior autonomia econômica para essas mulheres, valorizando e dando visibilidade ao trabalho que elas desenvolvem no meio rural, historicamente pouco reconhecido.”

O modelo de comercialização das beneficiárias concentra-se em circuitos curtos. A coordenadora aponta que “uma grande maioria das mulheres comercializa sua produção dentro da própria comunidade, por meio da venda direta aos consumidores, principalmente em mercadinhos locais, nas vendas porta a porta e nas feiras livres dos municípios”, mantendo a circulação de recursos no próprio território.

Entre os casos apoiados está Izamara de Paula, que transformou a tradição doceira da família do marido em um negócio que alcança consumidores em seis estados. Os Produtos Artesanais Sítio Jordão nasceram de uma história iniciada em 1970, quando Dona Maria Helena Vasconcelos Pinto, conhecida como Marilene, avó do esposo de Izamara, decidiu dar nova forma às frutas produzidas no sítio da família. Em 2012, Izamara passou a trabalhar ao lado de Marilene, unindo a sabedoria das receitas tradicionais ao conhecimento adquirido em sua formação acadêmica e em capacitações técnicas.

Izamara de Paula produz bananas-passas, doces e balas artesanais no Sítio Jordão, em Baturité (CE) - Foto: Divulgação
A receita veio da avó do marido, criada em 1970. O negócio hoje chega a seis estados – Foto: Divulgação

O cardápio atual inclui bananas-passas, doce de banana com abacaxi e goiaba, e balas de banana, produtos que saem da roça e chegam às gôndolas de lojas de produtos naturais, padarias e restaurantes de Baturité, e também às prateleiras do Mercado Alimenta CE, em Fortaleza. Pelo WhatsApp Business e pelo Instagram, os pedidos chegam de Piauí, Paraíba, Maranhão, Goiás, Santa Catarina e São Paulo. “Aos poucos fomos alcançando novos públicos e mercados”, resume Izamara, que comercializa os produtos também pelo PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e em feiras de agricultura familiar, incluindo o Baturité Food Festival. Toda a produção é beneficiada no próprio sítio e, com o crescimento da demanda, Izamara já compra frutas de vizinhos da comunidade.

A jornada é marcada por desafios que vão além do empreendedorismo comum. “Esses anos de empreendimento têm sido bem desafiadores. Sempre trabalhando com capital próprio, produzindo, vendendo, investindo, e aos poucos construindo nossa estrutura de produção de acordo com as normas, mudando embalagens, mudando rotulagem. Acho que esse tem sido um dos maiores desafios enfrentados por nós”, reflete.

Toda a produção é beneficiada no próprio sítio. Com o crescimento da demanda, Izamara já compra frutas de vizinhos da comunidade - Foto: Divulgação
Toda a produção é beneficiada no próprio sítio. Com o crescimento da demanda, Izamara já compra frutas de vizinhos da comunidade – Foto: Divulgação

O Edital Mulheres Rurais chegou como um ponto de inflexão. Com o apoio do programa, Izamara ampliou a estrutura física, adquiriu equipamentos e acessou capacitações que impulsionaram a visibilidade do negócio. “O investimento trouxe, além da estrutura física e equipamentos, a possibilidade de evolução, capacitação, ampliação de mercados e melhoria de renda familiar. Após o início das ações junto à SDA, conseguimos uma maior visibilidade e aumento do público consumidor, impactando diretamente no número de vendas e no aumento da renda familiar.”

Para Izamara, empreender vai além da questão financeira. “Empreender enquanto mulher, produtora rural, mãe, esposa, dona de casa… são tantas atribuições. É um grande desafio, mas extremamente engrandecedor e satisfatório. É muito gratificante poder contribuir com a preservação e propagação da tradição familiar, com o fortalecimento da agricultura familiar, com a valorização da mulher do campo.”

O programa também incluiu formações digitais, com introdução de beneficiárias a plataformas como GOV.BR e Licitabem, ampliando o acesso a políticas públicas e crédito.

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