
Por Lívia Santos*
O desenvolvimento urbano no Brasil vive um momento de transição de paradigma. Se no século passado o foco era a expansão volumétrica e rodoviarista, no século 21, especialmente diante das emergências climáticas e de segurança pública, é a resiliência, sustentabilidade e, acima de tudo, a gestão da vida cotidiana.
Em Pernambuco, o sucesso de políticas habitacionais como o Morar Bem, em parceria com o Minha Casa, Minha Vida (programas de acesso ao crédito para aquisição da casa própria, sobretudo para famílias de baixa renda), aponta para uma realidade incontornável: a mulher é o esteio da política habitacional.
No entanto, o mercado e o Estado precisam avançar na promoção de medidas para que esse protagonismo deixe de ser apenas na recepção das chaves e passe a ser na formulação das ideias de cidade em que elas desejam viver.
De acordo com análise e pesquisa publicada pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) em outubro de 2025, a mulher é a principal responsável pela decisão final na aquisição de um imóvel no Brasil. Estima-se que, em muitas famílias, ela influência ou determina a compra em mais de 80% dos casos. Esse dado reflete a sua posição central na gestão da vida familiar e do lar, onde a localização, a segurança e a proximidade de serviços essenciais são prioridades.
A inclusão de mulheres em cargos de decisão, conselhos técnicos e na redação de leis que impactam o setor imobiliário e da construção civil não é uma questão de cota, mas de junção da habilidade técnica com foco na realidade.
Espaço urbano pensado por homens
Historicamente, a construção da ideia de espaço urbano foi segmentada, pensada por homens para homens, por meio da tradicional política do capital, que distinguiu a cidade entre o “viver” e o “trabalhar”, ignorando que, entre esses polos, há uma rede invisível voltada ao cuidado, que hoje precisa ser integrada, a fim de fechar a conta.
É nesse cenário que a “Teoria do Cuidado” e o conceito de “cidades de 15 minutos” entram em ação, onde as necessidades essenciais podem ser atendidas em curtas distâncias a pé ou de bicicleta, revelando-se como diferencial competitivo econômico e social.
Ao desenhar um produto imobiliário ou uma lei de zoneamento, a gestora projeta para além da unidade de uso privado, enxergando o trajeto da criança até a escola, a disponibilidade de creches e parquinhos; a acessibilidade na calçada para o idoso e pessoas com deficiência; a ocupação de fachadas com vistas a pôr olhos nas ruas e, assim, garantir a segurança e a funcionalidade necessárias para que ela e todos possam habitar.
Essa “gestão do viver” traduz-se em cidades mais eficientes e, por consequência, mais valorizadas, com a implantação de projetos que consideram a dinâmica social, gerando bairros mais resilientes e menos propensos à degradação. Quando as mulheres ocupam os espaços de poder no setor da construção e do urbanismo, o resultado é um produto que dialoga com quem realmente utiliza a cidade.
Olhar feminino
Pernambuco tem a oportunidade de liderar essa vanguarda. Para isso, não basta que os programas habitacionais tenham o recorte de gênero na titularidade dos imóveis; é preciso que o setor produtivo e o legislativo incorporem o olhar feminino na concepção dos espaços urbanos.
Fomentar o protagonismo das mulheres na engenharia, na arquitetura, na política urbana é, portanto, garantir que o crescimento das cidades seja sólido, inclusivo e, acima de tudo, inteligente. A cidade que cuida de seus cidadãos prospera para todos e desperta o desejo de estar e viver.
*Por Lívia Santos é advogada especialista em estruturação de projetos de parcelamento do solo, vice-presidente da Comissão de Imobiliário da OAB/PE, coordenadora do Grupo de Mulheres do Instituto Brasileiro de Direito Imobiliário (Ibradim) e associada do Imobi por Elas.











