
O governo dos Estados Unidos deve decidir, nesta quarta-feira (15), se aplicará uma tarifa adicional de 25% às importações brasileiras que não estiverem na lista de exceções ou se recuará. A medida foi proposta com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana, mecanismo utilizado para reagir a práticas consideradas discriminatórias ou prejudiciais às empresas dos Estados Unidos.
Para o Nordeste, o impacto não seria uniforme. Frutas como manga e castanha de caju tendem a ser preservadas pelas exceções, enquanto calçados, pescados, mel, pneus, produtos químicos e determinados bens industriais podem perder competitividade. O risco maior está nas cadeias que dependem fortemente dos Estados Unidos, empregam muita mão de obra e têm dificuldade para redirecionar rapidamente a produção.
A investigação conduzida pelo USTR (United States Trade Representative, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) questiona políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, aos serviços de pagamento eletrônico — incluindo o Pix —, à propriedade intelectual, ao acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro, ao combate à corrupção e à fiscalização do desmatamento ilegal. O governo brasileiro contesta as alegações e considera a medida de natureza política e comercial.
Entre os itens inicialmente poupados estão carne bovina, café, castanha de caju e diversas frutas tropicais, aeronaves civis e seus componentes. Produtos já submetidos às tarifas da Seção 232, como determinados itens de aço, alumínio e cobre, também não receberiam essa nova cobrança, embora continuem sujeitos às barreiras específicas que já incidem sobre esses metais.
Calçados e pescados, entretanto, não aparecem entre as exceções apresentadas na minuta. A lista ainda poderá ser alterada na decisão final, mas a manutenção desses setores na tarifa atingiria cadeias importantes do Nordeste.
O setor calçadista merece atenção especial. O Ceará é o segundo maior exportador de calçados do Brasil, depois do Rio Grande do Sul. Nos quatro primeiros meses de 2026, a receita das exportações cearenses do setor já havia recuado 27,3%. Para o conjunto dessa indústria brasileira, os Estados Unidos continuavam sendo o principal mercado externo, mas as vendas ao país acumulavam queda de 25% em valor até maio de 2026. Uma tarifa de 25% poderia aprofundar essa retração, sobretudo em um setor intensivo em mão de obra e com forte presença industrial no interior nordestino.
A Paraíba também está exposta devido ao peso da indústria calçadista e de outros produtos manufaturados. Em 2024, os Estados Unidos foram o segundo maior destino das exportações paraibanas, com compras de US$ 35,6 milhões, equivalentes a 21,6% das vendas externas do estado.
Na pesca, o risco se concentra principalmente no Ceará e no Rio Grande do Norte grandes produtores de lagosta, peixes e camarão. O mercado norte-americano tem peso relevante para a atividade, e a experiência de 2025 mostrou a sensibilidade do setor: estudo do BNDES identificou redução de 53% nas exportações brasileiras de peixes e crustáceos para os Estados Unidos depois das tarifas adicionais daquele ano. O Rio Grande do Norte registrou queda de 42,5% no conjunto das vendas ao país entre agosto e novembro de 2025, na comparação anual.
A Bahia apresenta uma pauta mais diversificada. Em 2025, exportou US$ 819,4 milhões para os Estados Unidos, queda de 7,1% em relação ao ano anterior. O recuo atingiu pneus, produtos químicos, minerais, pescados, frutas e calçados.
Para o governo e alguns setores empresariais, a tarifa tem sido vista como uma medida política porque os Estados Unidos registram superávit nas relações comerciais com o Brasil. Em 2025, o saldo positivo norte-americano no comércio de bens chegou a US$ 14,4 bilhões.
Etanol fica de fora
O governo brasileiro descartou a possibilidade de reduzir a tarifa de importação do etanol norte-americano como parte das negociações comerciais em andamento com os Estados Unidos. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, disse que há riscos diretos para a produção sucroalcooleira do Nordeste. Para o governo, qualquer abertura nesse setor comprometeria a indústria nacional, especialmente a do Nordeste.
Para a advogada especialista em Comércio Internacional Anna Dolores Sá Malta, um dos principais argumentos brasileiros é que não existe separação prática entre as cadeias do etanol e do açúcar. “O etanol e o açúcar são produzidos a partir da mesma matéria-prima e fazem parte de uma cadeia integrada. Por isso, o governo entende que não faz sentido discutir apenas a tarifa incidente sobre o etanol enquanto o açúcar brasileiro continua enfrentando barreiras extremamente elevadas para entrar no mercado norte-americano. Existe uma questão de reciprocidade que precisa ser considerada”, argumenta.
Para os representantes da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), da União Nacional do Etanol de Milho (Unem) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a redução das importações de etanol norte-americano decorre principalmente do crescimento da produção nacional de etanol de milho, e não de barreiras comerciais impostas pelo Brasil. Eles apoiaram a posição defendida pelo governo brasileiro durante audiência pública promovida pelo USTR, na semana passada. As entidades argumentaram que a Brasil e Estados Unidos, os dois maiores produtores mundiais de etanol, deveriam concentrar esforços na ampliação do mercado global de biocombustíveis, em vez de intensificar disputas comerciais bilaterais.
Lula eleva o tom enquanto a diplomacia tenta conter a tarifa
Em paralelo, o governo federal vem adotando estratégias em duas frentes. No discurso público, o presidente Lula endureceu o confronto com comentários que provocam o presidente Trump e membros de seu governo. Ele acusou o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, de ser “anti-América Latina” e de não gostar do Brasil. Ao tentar reforçar a imagem de independência brasileira, o presidente Lula reduz o espaço para que a Casa Branca recue sem aparentar derrota.

Num ano eleitoral, a disputa comercial foi logo absorvida pela campanha presidencial brasileira. Lula procura apresentar a tarifa como uma agressão à soberania e ligar o problema à família Bolsonaro. O governo classificou como “deplorável” a ida do senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos para tratar de assuntos brasileiros. Uma pesquisa Quaest mostrou que 47% dos entrevistados concordavam com a acusação de Lula de que o senador teria estimulado as tarifas, enquanto 35% aceitavam a versão de que ele tentava evitá-las.
Mas Flávio Bolsonaro, por sua vez, tentou tirar vantagem da situação pedindo ao governo Trump que a aplicação das tarifas fosse adiada para depois das eleições. A estratégia é transformar a medida comercial em argumento eleitoral, associando eventual desgaste econômico ao governo atual. Ao pedir a suspensão da decisão até depois das eleições de outubro, o senador afirmou que cada tarifa adicional reforçaria justamente o governo que Washington desejaria pressionar.
Enquanto Lula alimenta a narrativa política, a diplomacia e a equipe econômica trabalham em registro diferente. Representantes brasileiros vêm mantendo rodadas de negociação, apresentando argumentos técnicos e participando do processo formal aberto pelo USTR. O governo tenta demonstrar que a sobretaxa prejudicaria também importadores, indústrias e consumidores norte-americanos, além de negociar a ampliação da lista de produtos excluídos.
O governo aposta que conseguirá colher o ganho político da firmeza sem pagar integralmente o custo econômico de uma escalada comercial. Tem em conta que o governo norte-americano tem interesses a tratar com o Brasil, como o assunto dos minerais críticos. A conferir.
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