- Publicidade -

Fim do tarifaço reacende exportações cearenses: pescados seguem à espera

A retirada parcial das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos agrícolas brasileiros abriu espaço para o Ceará recuperar parte das exportações afetadas pelo tarifaço

De Fortaleza

- Publicidade -
Produtores cearenses de castanha de caju planejam retomar ritmo após retirada de tarifas pelos EUA – Foto: Thiara Montefusco/Governo do Ceará

A decisão do governo Donald Trump de retirar as tarifas de 40% sobre parte dos produtos agrícolas brasileiros repercutiu fortemente no Ceará, um dos estados mais afetados pelo chamado “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos desde agosto. Embora a medida ainda seja parcial, mantendo itens importantes de fora, como pescados e calçados, produtores e entidades cearenses avaliam que o gesto abre uma janela concreta para a recuperação das exportações e a reorganização das cadeias produtivas locais.

As ações estaduais têm sido decisivas para amortecer os impactos das tarifas norte-americanas: a Secretaria da Fazenda do Ceará (Sefaz-CE) já liberou aproximadamente R$ 6,65 milhões para empresas prejudicadas, incluindo setores de pescado, carnaúba, couro e autopeças.

Entre os mais diretamente beneficiados está o setor de castanha de caju, uma das principais exportações do agronegócio cearense. A retirada das tarifas recoloca o produto em condições competitivas no mercado norte-americano, segundo André Moraes, gerente de comércio exterior da Amêndoas do Brasil, que afirma que as exportações, interrompidas após a sobretaxa, serão retomadas sem demora.

“Os canais com os clientes norte-americanos nunca foram fechados; seguimos em contato próximo com todos e retomaremos as vendas para os Estados Unidos imediatamente. A lista de produtos isentos inclui a castanha de caju, e essa mudança devolve o Brasil à normalidade. Voltamos a ser uma opção para o mercado norte-americano. Sem dúvida alguma, as exportações serão retomadas de imediato”, disse.

Pescados são os mais afetados pelo tarifaço no CE
Indústria de pesca do Ceará segue exportando, mesmo ainda fora da nova rodada de isenções norte-americanas – Foto: Ascom SEDET-CE

Sindifrios vê “luz no horizonte”

O setor de pesca, altamente relevante para a economia cearense, ficou de fora da nova rodada de isenções anunciadas por Trump. Ainda assim, o anúncio animou o Sindicato das Indústrias de Frio e Pesca do Ceará (Sindifrios), que enxerga um possível caminho para negociações futuras. O vice-presidente da entidade, Paulo Soares, reconhece que a exclusão dos pescados mantém desafios significativos, mas afirma que o gesto americano renova expectativas.

“A princípio, estamos desde julho lidando com o tarifaço e, desde lá, com esperança de resolver. Apesar de não estarmos na lista de isenção, a notícia nos deixou esperançosos; achamos que seja um caminho que pode acontecer em breve”, afirmou.

Graças ao programa emergencial do Governo do Ceará, que compensou até 40% das tarifas aplicadas pelas autoridades norte-americanas, o estado conseguiu manter a produção, o emprego e o abastecimento ao mercado dos EUA, mesmo com perda de margens. “Continuamos produzindo, processando e exportando. Tivemos uma variação de preço para baixo em torno de 6%; tivemos que dar descontos, mas não perdemos volumes”, detalhou Soares. Atualmente, as exportações cearenses de pescado para os EUA concentram-se em peixes inteiros, como ariacó, guaiuba, pargo olho-de-vidro e algumas garoupas.

Segundo o secretário da Sefaz-CE, Fabrízio Gomes, o apoio emergencial foi fundamental para preservar atividades e empregos. “Já foram pagos quase R$ 7 milhões para segmentos diversos. Isso foi muito importante para ajudar na manutenção do emprego e da renda nesses setores”, destacou.

Oportunidades e limitações

Para economistas e entidades, o alívio tarifário traz impulso imediato, mas não garante crescimento automático sem ajustes estruturais. O conselheiro do Corecon-CE, Thiago Holanda, explica que a medida reduz custos e melhora a competitividade dos produtos liberados, mas lembra que ainda há barreiras logísticas e sanitárias a serem consideradas.

“Em termos práticos, isso cria um estímulo imediato à competitividade externa dos produtos liberados: há melhora na posição exportadora e provável expansão de volumes, na medida em que já existia estrutura produtiva preparada para exportar. Por outro lado, o efeito ainda será modesto enquanto persistirem barreiras de certificação, logística ou requisitos sanitários nos EUA. Ou seja, há melhora clara nas margens de exportação, porém não há aumento automático e massivo de volumes sem esforço adicional de comercialização e de cadeia de valor”, afirmou.

No caso do Ceará, Holanda vê potencial expressivo para as frutas tropicais e derivados de caju, que podem crescer entre 10% e 30% nas vendas aos EUA, desde que ampliem logística e adequações sanitárias. Porém, setores ainda sujeitos às tarifas, como o calçadista do Cariri, continuam pressionados por custos mais altos e perda de competitividade, podendo sofrer deslocamento para outros mercados ou necessitar investir em diferenciação.

“Essa condição gera, na prática, margens de exportação menores, ou a necessidade de aceitar preços mais baixos no mercado dos EUA para compensar a tarifa adicional; deslocamento de parte da produção para mercados menos tarifados; e pressão sobre custos internos, matérias-primas, logística, financiamento, para manter competitividade”, destacou.

Para Karina Frota, da FIEC, a rápida adaptação do setor produtivo foi decisiva para manter e até ampliar vendas ao mercado americano - Foto: FIEC/Divulgação
Para Karina Frota, da FIEC, a rápida adaptação do setor produtivo foi decisiva para manter e até ampliar vendas ao mercado americano – Foto: FIEC/Divulgação

FIEC destaca rápida adaptação do Ceará

A gerente do Centro Internacional de Negócios da FIEC, Karina Frota, reforça que o Ceará foi um dos poucos estados capazes de manter e até ampliar suas exportações aos EUA durante o tarifaço, segundo estudo recente da FGV IBRE. Para ela, isso reflete a agilidade do setor produtivo cearense em reconfigurar portfólios e explorar nichos menos sensíveis às tarifas.

“O estado apresentou resiliência e crescimento nas exportações no período analisado, inclusive em bens sob tarifa. A expectativa é que ambos os países continuem avançando nas negociações bilaterais”, afirmou.

Leia mais:

Açúcar fora da lista: trégua tarifária dos EUA pode mirar etanol americano
Trump zera tarifaço de 40% em 1.250 produtos brasileiros e beneficia o NE

- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Notícias

- Publicidade -