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Ceará anuncia pacote de ajuda para setores do estado atingidos pelo tarifaço

Medidas no Ceará incluem auxílio financeiro às empresas que exportam para os EUA, compra direta de produtos por órgãos estaduais, antecipação de créditos e ampliação de incentivos fiscais
Bruno Brandão
Bruno Brandão
De Fortaleza
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A exportação de calçados feitos no Ceará tem ficado entre os três principais produtos mandados para fora do país - Foto: Divulgação
A exportação de calçados feitos no Ceará está entre os mais enviados para os EUA – Foto: Divulgação

O Governo do Ceará anunciou, nesta quarta-feira (6), um pacote emergencial com quatro medidas para reduzir os impactos da tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. A taxação, oficializada pelo presidente norte-americano Donald Trump no fim de julho, que entra em vigor nesta quarta, atinge diretamente a economia cearense, que tem nos EUA seu principal parceiro comercial. O anúncio foi feito pelo governador Elmano de Freitas e inclui auxílio financeiro às empresas que exportam para os EUA, compra direta de produtos por órgãos estaduais, antecipação de créditos e ampliação de incentivos fiscais.

“São decisões necessárias de apoio às empresas cearenses que vendem seus produtos aos Estados Unidos. Precisamos garantir o emprego do nosso povo, apoiar as empresas e a economia cearense”, afirmou o governador, que também anunciou a criação de um Comitê Estratégico para acompanhar a aplicação das medidas e disse estudar a compra de alimentos perecíveis de produtores locais para abastecer programas sociais e equipamentos públicos.

As medidas foram tomadas após reuniões com setores econômicos diretamente afetados, especialmente os ligados à exportação de produtos como aço, frutas, calçados e pescados. Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), de janeiro a junho de 2025, as exportações cearenses somaram US$ 1,07 bilhão — um crescimento de 82% em relação ao mesmo período do ano passado. Os EUA foram o destino de 51,9% desse volume, com destaque para a metalurgia (US$ 441,3 milhões), alimentos (US$ 112,2 milhões) e couro e calçados (US$ 52,6 milhões).

A resposta do governo estadual vem na esteira da aprovação, pela Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), de um manifesto em defesa da economia local e contra o que classificou como “tarifaço injusto” do governo Trump. O documento, aprovado na terça (5), com 31 votos favoráveis, critica a decisão norte-americana, argumentando que ela atinge diretamente um estado pobre e em desenvolvimento. “Relações diplomáticas devem ser fundamentadas em diálogo e técnica. Jamais na chantagem e opressão”, diz trecho do manifesto.

Deputados no Ceará lançaram um manifesto e receberam o projeto de Lei enviado pelo Governo do Estado - Foto: ALECE/Divulgação
Deputados no Ceará lançaram um manifesto e receberam o projeto de Lei enviado pelo Governo do Estado – Foto: ALECE/Divulgação

Para o economista Wandemberg Almeida, presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará, a tarifa de 50% representa um golpe direto na competitividade dos produtos cearenses no mercado norte-americano. “Esse aumento tarifário eleva significativamente o preço final dos nossos produtos, tornando-os menos atrativos. Isso pode prejudicar principalmente setores como calçados e hortifrúti, que operam com margens mais apertadas”, explica.

Almeida alerta ainda para o risco de excesso de oferta no mercado interno, caso as empresas não consigam redirecionar suas exportações: “Com mais produtos sendo vendidos dentro do Brasil, os preços podem cair, o que afeta diretamente a rentabilidade das empresas e ameaça empregos”.

Apesar do crescimento das exportações cearenses para mercados como França, Reino Unido e China, o economista ressalta que a migração para novos destinos comerciais exige adaptações logísticas, certificações e acordos bilaterais. “Temos uma boa infraestrutura no Porto do Pecém, mas redirecionar volumes maiores, especialmente de produtos perecíveis, demanda planejamento e investimentos em cadeia refrigerada e transporte adequado”, completa.

Setor de calçados do Ceará é um dos mais atingidos por Trump

O setor de calçados, tradicional no estado, com polos em Sobral, Juazeiro do Norte e Fortaleza, é apontado como um dos mais sensíveis à nova política norte-americana. “Uma tarifa como essa pode inviabilizar parte das exportações, principalmente de produtos de menor valor agregado. É essencial que as empresas busquem diversificação de mercados e invistam em design, tecnologia e inovação”, defende o economista.

Para Wandemberg, a crise atual evidencia um risco estratégico: a dependência excessiva do mercado norte-americano. “Precisamos diversificar nossos parceiros comerciais. A concentração em um único mercado nos torna vulneráveis a choques externos, como esse. Fortalecer laços com Europa, Ásia e América Latina é uma necessidade urgente”, afirma.

O Comitê Estratégico anunciado pelo governador deve iniciar suas atividades ainda esta semana, acompanhando a aplicação das medidas de apoio. O governador Elmano de Freitas garantiu que outras ações poderão ser implementadas conforme a evolução do cenário internacional. “O que nós pretendemos com essas decisões é garantir os empregos do povo cearense, manter as empresas funcionando e preservar o crescimento da economia do nosso estado”, finalizou.

Frutas e castanhas

Entre os setores mais vulneráveis à nova tarifa imposta pelos Estados Unidos estão os produtores de frutas, castanhas e pescados, que juntos representam uma parcela significativa das exportações cearenses. Segundo o economista Wandemberg Almeida, esses produtos são particularmente sensíveis tanto às oscilações de mercado quanto às dificuldades logísticas, especialmente no curto prazo.

“Produtos perecíveis como melão, manga, castanha de caju e peixes enfrentam um desafio maior para redirecionamento imediato. O mercado europeu, por exemplo, exige certificações técnicas, rotas logísticas bem estabelecidas e rigor no controle sanitário”, explica o economista. Ele acrescenta que, embora o Porto do Pecém tenha boa infraestrutura e conexões com a Europa, a ampliação do volume exportado exigirá novos investimentos, especialmente em cadeia refrigerada.

As castanhas poderão abastecer programas sociais e entrar na merenda da rede de educação – Foto: Thiara Montefusco/Governo do Ceará

Almeida também alerta para o risco de saturação do mercado interno. “Se esses produtos deixarem de ser exportados, inevitavelmente haverá excesso de oferta local, o que pode levar à queda nos preços e comprometer a rentabilidade do setor. Isso pode afetar desde pequenos produtores a grandes exportadores, especialmente os que já têm a produção planejada para o mercado externo”, afirma.

Diante desse cenário, o governador Elmano anunciou a possibilidade de compra desses produtos por parte do Estado para abastecer equipamentos públicos, como escolas e hospitais, numa tentativa de escoar a produção local. Para Wandemberg, a medida pode ajudar no curto prazo, mas precisa ser acompanhada de uma estratégia de médio e longo prazo: “É necessário planejar a diversificação de destinos e fortalecer a capacidade logística para garantir competitividade e estabilidade ao setor de alimentos perecíveis.”

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