
O Governo do Ceará anunciou, nesta quarta-feira (6), um pacote emergencial com quatro medidas para reduzir os impactos da tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. A taxação, oficializada pelo presidente norte-americano Donald Trump no fim de julho, que entra em vigor nesta quarta, atinge diretamente a economia cearense, que tem nos EUA seu principal parceiro comercial. O anúncio foi feito pelo governador Elmano de Freitas e inclui auxílio financeiro às empresas que exportam para os EUA, compra direta de produtos por órgãos estaduais, antecipação de créditos e ampliação de incentivos fiscais.
“São decisões necessárias de apoio às empresas cearenses que vendem seus produtos aos Estados Unidos. Precisamos garantir o emprego do nosso povo, apoiar as empresas e a economia cearense”, afirmou o governador, que também anunciou a criação de um Comitê Estratégico para acompanhar a aplicação das medidas e disse estudar a compra de alimentos perecíveis de produtores locais para abastecer programas sociais e equipamentos públicos.
As medidas foram tomadas após reuniões com setores econômicos diretamente afetados, especialmente os ligados à exportação de produtos como aço, frutas, calçados e pescados. Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), de janeiro a junho de 2025, as exportações cearenses somaram US$ 1,07 bilhão — um crescimento de 82% em relação ao mesmo período do ano passado. Os EUA foram o destino de 51,9% desse volume, com destaque para a metalurgia (US$ 441,3 milhões), alimentos (US$ 112,2 milhões) e couro e calçados (US$ 52,6 milhões).
A resposta do governo estadual vem na esteira da aprovação, pela Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), de um manifesto em defesa da economia local e contra o que classificou como “tarifaço injusto” do governo Trump. O documento, aprovado na terça (5), com 31 votos favoráveis, critica a decisão norte-americana, argumentando que ela atinge diretamente um estado pobre e em desenvolvimento. “Relações diplomáticas devem ser fundamentadas em diálogo e técnica. Jamais na chantagem e opressão”, diz trecho do manifesto.

Para o economista Wandemberg Almeida, presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará, a tarifa de 50% representa um golpe direto na competitividade dos produtos cearenses no mercado norte-americano. “Esse aumento tarifário eleva significativamente o preço final dos nossos produtos, tornando-os menos atrativos. Isso pode prejudicar principalmente setores como calçados e hortifrúti, que operam com margens mais apertadas”, explica.
Almeida alerta ainda para o risco de excesso de oferta no mercado interno, caso as empresas não consigam redirecionar suas exportações: “Com mais produtos sendo vendidos dentro do Brasil, os preços podem cair, o que afeta diretamente a rentabilidade das empresas e ameaça empregos”.
Apesar do crescimento das exportações cearenses para mercados como França, Reino Unido e China, o economista ressalta que a migração para novos destinos comerciais exige adaptações logísticas, certificações e acordos bilaterais. “Temos uma boa infraestrutura no Porto do Pecém, mas redirecionar volumes maiores, especialmente de produtos perecíveis, demanda planejamento e investimentos em cadeia refrigerada e transporte adequado”, completa.
Setor de calçados do Ceará é um dos mais atingidos por Trump
O setor de calçados, tradicional no estado, com polos em Sobral, Juazeiro do Norte e Fortaleza, é apontado como um dos mais sensíveis à nova política norte-americana. “Uma tarifa como essa pode inviabilizar parte das exportações, principalmente de produtos de menor valor agregado. É essencial que as empresas busquem diversificação de mercados e invistam em design, tecnologia e inovação”, defende o economista.
Para Wandemberg, a crise atual evidencia um risco estratégico: a dependência excessiva do mercado norte-americano. “Precisamos diversificar nossos parceiros comerciais. A concentração em um único mercado nos torna vulneráveis a choques externos, como esse. Fortalecer laços com Europa, Ásia e América Latina é uma necessidade urgente”, afirma.
O Comitê Estratégico anunciado pelo governador deve iniciar suas atividades ainda esta semana, acompanhando a aplicação das medidas de apoio. O governador Elmano de Freitas garantiu que outras ações poderão ser implementadas conforme a evolução do cenário internacional. “O que nós pretendemos com essas decisões é garantir os empregos do povo cearense, manter as empresas funcionando e preservar o crescimento da economia do nosso estado”, finalizou.
Frutas e castanhas
Entre os setores mais vulneráveis à nova tarifa imposta pelos Estados Unidos estão os produtores de frutas, castanhas e pescados, que juntos representam uma parcela significativa das exportações cearenses. Segundo o economista Wandemberg Almeida, esses produtos são particularmente sensíveis tanto às oscilações de mercado quanto às dificuldades logísticas, especialmente no curto prazo.
“Produtos perecíveis como melão, manga, castanha de caju e peixes enfrentam um desafio maior para redirecionamento imediato. O mercado europeu, por exemplo, exige certificações técnicas, rotas logísticas bem estabelecidas e rigor no controle sanitário”, explica o economista. Ele acrescenta que, embora o Porto do Pecém tenha boa infraestrutura e conexões com a Europa, a ampliação do volume exportado exigirá novos investimentos, especialmente em cadeia refrigerada.

Almeida também alerta para o risco de saturação do mercado interno. “Se esses produtos deixarem de ser exportados, inevitavelmente haverá excesso de oferta local, o que pode levar à queda nos preços e comprometer a rentabilidade do setor. Isso pode afetar desde pequenos produtores a grandes exportadores, especialmente os que já têm a produção planejada para o mercado externo”, afirma.
Diante desse cenário, o governador Elmano anunciou a possibilidade de compra desses produtos por parte do Estado para abastecer equipamentos públicos, como escolas e hospitais, numa tentativa de escoar a produção local. Para Wandemberg, a medida pode ajudar no curto prazo, mas precisa ser acompanhada de uma estratégia de médio e longo prazo: “É necessário planejar a diversificação de destinos e fortalecer a capacidade logística para garantir competitividade e estabilidade ao setor de alimentos perecíveis.”
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