
Os Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira (20) a eliminação de tarifas adicionais de 40% que incidem sobre 1.250 produtos brasileiros, numa medida que contempla café, carne bovina, frutas tropicais, sucos, especiarias, cacau, chá, além de petróleo, componentes de aviação e insumos industriais. A ordem executiva do presidente Donald Trump traz um anexo de 36 páginas com a relação dos produtos em 11 categorias e prevê ainda o reembolso das tarifas cobradas a partir de 13 de novembro, data estabelecida para o fim oficial da tarifação iniciada em 1º de agosto. A decisão representa uma reversão na política comercial norte-americana em relação ao Brasil.
No texto da ordem executiva, Trump justificou a decisão afirmando que “após considerar as informações e recomendações que esses oficiais me forneceram, o progresso das negociações comerciais com vários parceiros, a demanda doméstica atual por certos produtos e a capacidade de produção interna, entre outros fatores, determinei que é necessário e apropriado modificar o escopo dos produtos sujeitos à tarifa recíproca adicional”.
De acordo com o texto oficial, Trump afirma que “uma versão atualizada do Anexo I será aplicada aos bens de origem brasileira, com efeitos retroativos a partir de 13 de novembro de 2025″. A mesma ordem estabelece que o Departamento do Tesouro será responsável por implementar o reembolso das tarifas já recolhidas sobre os produtos incluídos na nova lista.
O texto da ordem executiva também alinha a vigência da medida com a decisão anunciada na última sexta-feira (14), que reduziu as tarifas “recíprocas” sobre importações agrícolas aplicadas a todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos. No caso dos produtos brasileiros, essa tarifa adicional era de 10%, agora integralmente suspensa com efeitos retroativos.
Lista abrange vários códigos tarifários e múltiplos produtos
A ordem executiva de Trump abrange 1.250 produtos brasileiros, mas essa cifra corresponde a aproximadamente 945 códigos tarifários únicos do sistema norte-americano (HTSUS – Harmonized Tariff Schedule of the United States). A diferença ocorre porque cada código tarifário pode contemplar múltiplas variações de um mesmo produto.
Por exemplo, um único código HTSUS para “carne bovina” (0201.20.04) engloba diversas modalidades: cortes com osso ou sem osso, processados ou não processados, frescos ou congelados. Essas variações são contabilizadas como produtos distintos, elevando o total estimado para 1.250 itens.
Apesar da eliminação tarifária para a maioria dos produtos brasileiros, a ordem executiva mantém em vigor a taxação sobre 11 itens específicos listados no Anexo II, a maioria com destinação religiosa ou simbólica. De acordo com o texto, permanecem sujeitos à tarifa produtos como esculturas sacras, estatuetas metálicas devocionais, cerâmicas decoradas para uso litúrgico, tecidos com iconografia religiosa, objetos entalhados para rituais e material impresso de cunho espiritual.
A ordem ressalta que esses itens, embora classificados no sistema tarifário harmonizado (HTSUS), não foram excluídos da ação tarifária por decisão expressa da Casa Branca, mantendo-se, portanto, sob a alíquota adicional anteriormente aplicada. A justificativa para a exclusão desses produtos da suspensão tarifária não foi detalhada, mas fontes diplomáticas indicam que podem estar ligados a critérios de segurança ou sensibilidade cultural.

Café e carne lideram exportações afetadas
O café — principal item afetado — teve alívio imediato com a retirada das tarifas. O Brasil abastece cerca de um terço das importações de café dos EUA, e a queda na tarifa ocorre em um cenário de preços recordes no varejo norte-americano. Café moído atingiu o recorde histórico de US$ 8,41 por libra em julho, representando aumento de 33% em relação ao ano anterior. Em agosto, os preços subiram 21% comparados ao mesmo período de 2024, o maior aumento desde os anos 1990.
A carne bovina brasileira, que chegou a enfrentar tarifas efetivas de até 75%, também foi desonerada. Preços de carne bovina aumentaram entre 12% e 18% no período de um ano até setembro de 2025. No Nordeste, estados como Bahia, Maranhão e Piauí, que ampliam exportações de carne processada e miúdos, ganham impulso com o acesso mais facilitado ao mercado norte-americano.
Além de café e carne, a medida inclui frutas tropicais frescas e congeladas, suco de laranja, açaí, especiarias, cacau e fertilizantes. O Nordeste, forte produtor desses itens — por exemplo, manga, mamão, abacaxi, açaí e castanha de caju — poderá ganhar competitividade no maior mercado consumidor do mundo. A retirada das tarifas amplia o leque de exportações regionais para além dos centros tradicionais de produção do Sudeste e Centro-Oeste.
Pressão interna por alimentos mais baratos pesou na decisão
A medida ocorre após pressões internas sobre o governo norte-americano, em meio à alta dos preços de alimentos. Segundo pesquisas de saída (exit polls), eleitores expressaram frustração com o custo de vida e votaram majoritariamente na oposição democrata em estados como Virgínia e Nova Jersey. A inflação nos preços de alimentos — especialmente café, bananas e carne — tornou-se questão central para consumidores norte-americanos. A reversão da tarifação indica mudança de estratégia em um governo que vinha se apoiando na política de tarifas para promover a indústria doméstica.
A ordem ressalta ainda que “é necessário e apropriado realizar essa modificação para lidar com a emergência nacional declarada na Ordem Executiva anterior”, em referência a medidas anteriores de Trump que qualificavam certos fatores comerciais como ameaças à segurança nacional e à economia dos Estados Unidos.
Reabertura comercial com o Brasil entra no radar sem o tarifaço
A decisão, no entanto, representa um recuo na retórica de tarifação agressiva e abre caminho para recomposição de relações comerciais. O setor agroindustrial brasileiro, especialmente no Nordeste, projeta ampliação de vendas ao exterior. A produção de frutas tropicais e café especial da Bahia, castanha do Maranhão e açaí do Piauí estão entre os produtos diretamente beneficiados.
A medida também alinha-se com melhoria nas relações bilaterais após encontro entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em outubro na Malásia. Na ordem executiva assinada nesta quinta-feira (20), Trump menciona diretamente o presidente brasileiro ao justificar a flexibilização tarifária: “Considerando o progresso das negociações com o governo do Brasil, inclusive a reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e eu no mês passado, determinei que é apropriado ajustar a abrangência da medida tarifária recíproca.”
Essa menção direta é incomum em ordens presidenciais de política comercial e reforça o caráter estratégico da reaproximação bilateral.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços informou que analisa os efeitos da medida e seus desdobramentos em negociações bilaterais futuras.
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