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“O tempo em que as empresas podiam ignorar a geopolítica acabou, diz Stuenkel

Instabilidade no cenário global abre janela de oportunidades para o Brasil neste momento, avalia Oliver Stuenkel, da FGV
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Oliver Stuenkel avalia cenário geopolítico e oportunidades de crescimento para o Brasil
Oliver Stuenkel avalia cenário geopolítico e oportunidades de crescimento para o Brasil. Foto: Itawi Albuquerque

O atual cenário geopolítico, marcado por tensões crescentes entre Estados Unidos e China e por medidas protecionistas adotadas por Washington, impõe desafios ao Brasil, mas também abre uma janela única de oportunidades. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da FGV, Oliver Stuenkel, que alertou para os riscos concretos de medidas tarifárias americanas afetarem setores estratégicos como energia e agronegócio. Durante palestra no evento Origem 360, nesta quarta-feira (16), em Maceió, ele defendeu que o Brasil invista no monitoramento de riscos e aproveite seu posicionamento neutro para atrair investimentos e ampliar sua relevância global. E alerta as empresas: é preciso monitorar a geopolítica.

Segundo o especialista, o Brasil possui uma combinação estratégica de estabilidade política relativa, ausência de conflitos geopolíticos diretos e diversidade energética, o que pode atrair investimentos em setores como energia e infraestrutura. “Não há lugar melhor para se estar hoje, geopoliticamente, do que no Brasil. Temos muitos desafios, mas estar fora das grandes tensões é uma vantagem real”, afirmou.

Stuenkel destacou que o mundo caminha para um ambiente menos cooperativo e mais fragmentado, com o fim do período que chamou de “hiperglobalização”, ocorrido entre 1990 e 2015. “Estamos saindo de uma era de alta integração econômica, em que até rivais estratégicos, como EUA e China, mantinham relações comerciais estreitas. Hoje, esse cenário já não existe”, disse.

Energia como ativo estratégico em um mundo instável

Ao falar do setor energético, Stuenkel afirmou que a transição para fontes renováveis se tornou parte da disputa por hegemonia entre grandes potências, especialmente entre EUA e China. “A tecnologia verde é hoje uma prioridade estratégica. A China a enxerga como chave para a supremacia tecnológica”, disse.

Oliver Stuenkel alertou para os riscos concretos de medidas tarifárias americanas afetarem setores estratégicos como energia e agronegócio
Stuenkel alertou para os riscos concretos de medidas tarifárias americanas afetarem setores estratégicos como energia e agronegócio. Foto: Itawi Albuquerque

Ele também destacou como a guerra na Ucrânia e as tensões comerciais entre potências têm atrasado a transição energética em diversas regiões. “Muitos países, como os europeus, tiveram que rever metas ambientais diante da nova necessidade de garantir suprimento energético seguro”, explicou.

Tarifas americanas e imprevisibilidade preocupam o Brasil

Mas esse ambiente de oportunidades no setor energético convive com um cenário de crescente incerteza econômica, especialmente em razão das medidas tarifárias impostas por Washington. Durante sua palestra, Oliver Stuenkel destacou que o Brasil está cada vez mais exposto aos impactos das políticas protecionistas adotadas pelos Estados Unidos, especialmente diante da tensão geopolítica global.

Segundo ele, muitas das barreiras implementadas durante o primeiro governo Trump foram mantidas por Biden, evidenciando uma mudança estrutural no posicionamento americano em relação ao comércio internacional. “Hoje, não há mais um grande consenso na sociedade americana a favor do livre comércio. Isso é coisa do passado”, afirmou o professor.

Stuenkel alertou que essa guinada protecionista coloca em risco setores estratégicos da economia brasileira, como o agronegócio, ao mencionar a ameaça de sanções secundárias dos EUA a países que mantêm relações comerciais com a Rússia. “Isso seria um grande baque para o agro brasileiro, que depende de fertilizantes russos. Uma ruptura nesse fornecimento exigiria soluções complexas e de alto custo”, pontuou.

Ele também chamou atenção para a dificuldade crescente de fazer planejamento de longo prazo diante da imprevisibilidade tributária americana. “Não sabemos qual será o regime tributário americano no ano que vem para os brasileiros. Isso impacta profundamente nossa capacidade de fazer planejamento de longo prazo”, observou.

Oliver Stuenkel avalia oportunidades para o Brasil
Para Stuenkel, o Brasil tem a chance de consolidar seu papel como “fornecedor confiável. Foto: Itawi Albuquerque

Essas barreiras tarifárias e comerciais tendem a se intensificar e a afetar cadeias produtivas globais das quais o Brasil faz parte. “Essa fragmentação pode reduzir o acesso do Brasil a novas tecnologias e mercados estratégicos, se não houver uma diplomacia econômica ativa e bem coordenada”, concluiu.

Stuenkel: realidade global exige um novo papel das empresas

Para Stuenkel, o Brasil tem a chance de consolidar seu papel como “fornecedor confiável” de energia em um ambiente global de incertezas. “Além de termos fontes renováveis abundantes, temos uma previsibilidade política que, hoje, é mais rara em países desenvolvidos”, avaliou.

Ele citou ainda a capacidade do país manter relações com diferentes blocos geopolíticos sem a necessidade de alinhamento automático. “O Brasil é um dos poucos países que pode negociar com China, EUA e Europa sem precisar escolher lado”, analisou.

Mesmo com caminhos mais favoráveis ao país no que diz respeito às oportunidades de negócio, Stuenkel alertou que a nova realidade global exige um novo papel das empresas. “O tempo em que as empresas podiam ignorar a geopolítica acabou. É preciso investir em monitoramento de risco político e atuar de forma mais ativa na defesa de interesses estratégicos”, afirmou.

Ele defendeu que empresas, associações e governos subnacionais adotem estratégias internacionais próprias. “A diplomacia hoje exige múltiplos níveis de atuação. Prefeitos e governadores também devem participar da agenda internacional”, concluiu.

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