
*Matéria atualizada às 12h08
O Nordeste brasileiro vive uma contradição econômica sobre duas rodas: a região é, atualmente, a segunda maior compradora de motocicletas do país, mas enfrenta uma barreira para consolidar um polo de produção próprio. Enquanto o consumo dispara, projetos de fábricas locais patinam entre desistências, promessas não cumpridas e o peso esmagador da concorrência tributária com a Zona Franca de Manaus.
Com 33,1% do total de emplacamentos em 2025, a região ainda perde em números brutos para o Sudeste. No entanto, nos lares nordestinos as motos já são mais presentes que os carros (34,5% contra 30%), segundo dados do IBGE.
O licenciamento nacional reflete um “boom”: no primeiro trimestre de 2026, foram vendidas 571.728 unidades no varejo, um salto de 20,6% em relação ao mesmo período de 2025. Se comparado a março do ano passado, o crescimento mensal foi ainda mais agressivo, chegando a 33,5%. Os números são da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo).
Embora presente no dia a dia e na necessidade do nordestino, a região ainda não consegue captar investimentos efetivos para a criação de sua própria produção. Um caso emblemático dessa dificuldade é o da Vertys Motors.
A empresa chegou a anunciar, em março de 2024, um investimento de R$ 100 milhões para instalar uma fábrica em Campina Grande (PB), com a promessa de 500 empregos. No entanto, o projeto foi abortado em favor de Manaus.
Ao Movimento Econômico, o gerente comercial da Vertys, Jefferson Barbosa, foi direto ao explicar que o negócio na capital amazonense dá muito mais tração devido aos descontos e incentivos nos impostos.

O “muro” tributário da Zona Franca de Manaus
A fala de Barbosa expõe a fragilidade da região frente ao modelo de Manaus. Ele detalha que a unidade em Campina Grande acabou virando apenas um centro de armazenagem e semi-montagem de scooters, enquanto o foco industrial se mudou para o Norte.
“Manaus é muito mais próspero, é muito melhor o negócio, mais rentado”, afirmou o gerente, que ressaltou que a logística nordestina não compensa a agressividade tributária da Zona Franca.
Outro projeto que gera expectativa, mas ainda não saiu do papel, é o da Duact Motors no Ceará. A empresa negocia a instalação de uma fábrica em Caucaia para centralizar a produção de motos elétricas, visando importar peças via Porto do Pecém.
O sócio-diretor regional da Duact, João Batista Júnior, reforça que Brasil tem uma “dívida histórica” de investimento com o Nordeste, mas reconhece que a viabilidade depende de cálculos minuciosos. Segundo ele, a empresa avalia questões de compensação, custo de frete e o tempo de importação das peças antes de efetivar a fábrica, que ainda se encontra em fases burocráticas de negociação.

Shineray anuncia fábrica para setembro
Enquanto o Ceará negocia, a Shineray, que já possui planta em Suape, anunciou em 2024 uma expansão de R$ 75 milhões para aumentar a fabricação local e esperar entregar a nova planta em setembro.
Especialistas entendem que a grande questão que trava o adensamento industrial no Nordeste é o ICMS e a complexidade tributária. Levantamentos da CNI indicam que 55% das indústrias da região veem a bitributação como o principal entrave.
Com a produção concentrada em Manaus, o Nordeste consome o produto, mas a arrecadação e os empregos industriais qualificados ficam retidos fora do território nordestino.
Para o economista Edgar Leonardo, coordenador de pós-graduação da Unit, o movimento de instalação dessas montadoras deve ser visto como um passo necessário para o adensamento industrial. Ele argumenta que esses investimentos indicam não apenas atração de capital, mas uma estratégia mais ampla de consolidação da região como polo produtivo.
A análise econômica do “efeito multiplicador”
Leonardo acredita que o principal ganho, no médio prazo, está no efeito multiplicador. “O surgimento e fortalecimento de fornecedores locais de peças, manutenção, transporte, que ampliam o encadeamento produtivo e aumentam a retenção de renda na própria região”, explica o economista. Para ele, a presença de outros polos, como o automotivo de Goiana (PE), poderia criar sinergias para as fabricantes de duas rodas.
O especialista ressalta ainda que o foco em motocicletas elétricas, como planejado pela Duact e pela Shineray, pode ser a chave para o Nordeste saltar etapas tecnológicas. “Esse movimento posiciona a região em uma trajetória tecnológica mais avançada, com potencial de acesso a incentivos públicos e privados voltados à inovação”, destaca.
Entretanto, para que esse círculo virtuoso se concretize, avalia o economista, a região precisa vencer o custo logístico. Atualmente, a indústria de motocicletas no Brasil é a sexta maior do mundo, produzindo 561.448 unidades apenas no primeiro trimestre de 2026, o segundo melhor desempenho histórico do setor.
Desse total, as motos tipo “Street” dominam 51,5% da produção, focadas justamente no perfil de trabalho e deslocamento urbano do consumidor nordestino.

Reforma tributária: solução ou nova incógnita?
A reforma tributária surge como uma peça duvidosa, explica o economista. Ele esclarece que, se por um lado a tributação no destino pode favorecer a arrecadação dos estados consumidores, por outro, há o risco de aumento de carga sobre veículos populares de baixa cilindrada, que são justamente o motor do mercado no interior do Nordeste.
Sem um ambiente fiscal que iguale as condições de competição ou que ofereça diferenciais logísticos imbatíveis, o Nordeste corre o risco de continuar sendo apenas um mercado consumidor para o Polo Industrial de Manaus, avalia Edgar Leonardo.
Ele conclui que a consolidação de um eixo de mobilidade próprio na região dependerá de políticas que transformem o interesse das montadoras em canteiros de obras reais e permanentes.
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