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Hidrogênio verde: RN aposta em marco legal para atrair bilhões

Com marco legal inédito, Rio Grande do Norte cria ambiente regulatório para atrair investimentos bilionários em hidrogênio verde e indústria de baixo carbono.

De Recife

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Governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, assina marco legal do Hidrogênio Verde
Governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, assina marco legal do Hidrogênio Verde – Foto: Sandro Mezes

O Rio Grande do Norte se tornou o primeiro estado brasileiro a instituir oficialmente um marco regulatório para o hidrogênio verde e a indústria de baixo carbono. Com a sanção da Lei nº 12.336/2025, o estado cria um ambiente jurídico seguro e atrativo para investimentos, abrindo caminho para projetos bilionários voltados à transição energética e à neoindustrialização sustentável.

A legislação, sancionada pela governadora Fática Bezerra e publicada em edição extra do Diário Oficial do Estado na última quinta-feira (31), estabelece diretrizes fiscais, regulatórias e programáticas para o setor, e institui o Programa Norte-Rio-Grandense de Hidrogênio Verde e da Indústria Verde (PNRH2V). Um dos principais projetos favorecidos é o Porto-Indústria Verde, que prevê aportes de R$ 5,6 bilhões e consolida o RN como polo estratégico na produção de H₂V no Brasil.

Confira os detalhes trazidos pelo marco regulatório do hidrogênio verde no Rio Grande do Norte.

Conceitos estabelecidos na legislação

A lei define com precisão as categorias de hidrogênio:

  • Hidrogênio verde é aquele obtido por eletrólise da água com uso de energia exclusivamente renovável e com certificação internacional.
  • Hidrogênio renovável inclui aquele produzido a partir de fontes como solar, eólica, biomassa ou geotérmica, por processos químicos ou biológicos.
  • Hidrogênio de baixa emissão de carbono é o que apresenta emissões inferiores a 7 kg de CO₂ equivalente por quilo de hidrogênio produzido, segundo análise do ciclo de vida.

Também são conceituados a indústria verde, os e-produtos, a certificação e a neoindustrialização – processo de transformação da indústria por meio de novas tecnologias, práticas sustentáveis -, como elementos centrais para a estrutura do programa estadual.

Objetivos do Programa Norte-Rio-Grandense de Hidrogênio Verde

Entre os objetivos do Programa Norte-Rio-Grandense de Hidrogênio Verde estão o desenvolvimento da cadeia de valor do hidrogênio verde, com estímulo à inovação, geração de empregos e inclusão social; a promoção de parcerias público-privadas; o incentivo tanto à exportação quanto ao uso interno do hidrogênio e seus derivados; o apoio à conversão de frotas públicas para veículos movidos a e-combustíveis; e a redução das desigualdades regionais, com foco no combate à pobreza energética em áreas rurais.

Governança e estrutura organizacional

O programa será coordenado por três instâncias principais: o Conselho Estadual de Política Energética e da Indústria Verde (CEPEH2V), vinculado ao Gabinete da Governadora; o Comitê Gestor (COGEHRN), presidido pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SEDEC) e composto por 21 órgãos e entidades, incluindo universidades, secretarias estaduais e representantes do setor produtivo; e seis Câmaras Temáticas voltadas para temas como regulação, desenvolvimento de mercado, infraestrutura, capacitação profissional e inovação.

As reuniões do COGEHRN serão públicas e abertas à participação de comunidades afetadas, como povos indígenas e quilombolas, conforme determina o artigo 8º da norma.

Produção, usos e certificação

H2V hidrogênio verde
Lei estipula que empresas produtoras devem ser brasileiras, com sede e administração no país, e autorizadas por órgão regulador – Foto: Divulgação

A lei estipula que empresas produtoras devem ser brasileiras, com sede e administração no país, e autorizadas por órgão regulador. É permitido o uso de infraestrutura exclusiva para conectar diretamente às unidades de produção de H₂V a fontes renováveis. Também se exige que os projetos busquem certificação de origem e emissões com base em normas internacionais e federais.

A cadeia de valor também abrange atividades como transporte, revenda, exportação e uso em gasodutos, cuja mistura com gás natural será definida por normas federais.

A certificação do H₂V será obrigatória e deverá levar em conta a intensidade de emissão de gases de efeito estufa, bem como critérios de origem e rastreabilidade. A produção que utilize eletrólise deverá ter Certificação de Garantia de Origem (CGO) e atender a padrões internacionais.

Incentivos e regime RNVerde

A lei institui o Regime Especial de Incentivos para o Setor de Hidrogênio Verde do RN (RNVerde). Empresas habilitadas até 10 anos após a publicação da lei poderão usufruir de incentivos fiscais vinculados ao Programa de Estímulo ao Desenvolvimento Industrial do Rio Grande do Norte (PROEDI) e a regimes especiais estaduais e federais.

Para aderir, o empreendimento precisa utilizar no mínimo 90% de eletricidade renovável (caso conectada ao SIN) ou garantir que sua fonte dedicada seja comprovadamente renovável. Empresas optantes pelo Simples Nacional estão excluídas do regime.

A lei também prevê a criação de um fundo estadual para projetos de P&D e formação profissional, além de recursos da FAPERN e outros mecanismos de financiamento público.

Sustentabilidade e uso da água

A norma impõe exigências ambientais específicas:

  • Os empreendimentos devem preferencialmente utilizar água dessalinizada, de reuso ou da chuva.
  • O uso de aquíferos subterrâneos só será autorizado mediante estudos técnicos de viabilidade.
  • Toda atividade do setor estará sujeita a licenciamento ambiental conforme potencial poluidor.

A cadeia produtiva também terá responsabilidade compartilhada na gestão de resíduos sólidos e será incentivada a gerar créditos de carbono conforme as diretrizes do Acordo de Paris.

Transição energética em curso

Usina Fotovoltaica de Alto Rodrigues, no Rio Grande do Norte, vai receber uma planta piloto de hidrogênio verde. Foto: Luiz Fernando Almeida Fontenele/ Agência Petrobras
Usina Fotovoltaica de Alto Rodrigues foi a primeira a receber uma planta piloto de hidrogênio verde. Foto: Luiz Fernando Almeida Fontenele/ Agência Petrobras

Em novembro de 2024, o município de Alto do Rodrigues foi escolhido pela Petrobras para abrigar sua primeira planta-piloto de hidrogênio renovável. A estrutura será instalada na Usina Termelétrica do Vale do Açu, com investimento estimado em R$ 90 milhões. A expectativa é de que a operação tenha início no primeiro semestre de 2026.

A unidade utilizará energia solar para produzir hidrogênio de baixa emissão de carbono por meio da eletrólise da água. A planta contará com capacidade de eletrólise de 2 megawatts e será executada pela empresa WEG. O desenvolvimento do projeto levou dois anos de estudos, realizados em parceria com o Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis (Senai ISI-ER).

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