
A entrada em vigor, no dia 6 de agosto, da tarifa adicional de 50% imposta pelos Estados Unidos a diversos produtos brasileiros acendeu um sinal de alerta no setor produtivo cearense. Pescados, cera de carnaúba, castanha de caju, mel e água de coco estão entre os mais atingidos, todos de forte relevância econômica para o estado.
A nova medida tarifária, anunciada pelo governo de Donald Trump sob o argumento de proteção à indústria norte-americana, afeta de forma desproporcional o Ceará devido à elevada dependência do mercado dos EUA. Segundo dados do Ceará em Comex, estudo do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), os norte-americanos responderam por 53,6% das exportações totais cearenses entre janeiro e julho de 2025.
No acumulado do ano, as exportações do estado somaram US$ 1,35 bilhão, crescimento de 31,5% em relação ao mesmo período de 2024. As importações ficaram em US$ 1,67 bilhão, queda de 0,9%, o que reduziu o déficit comercial para –US$ 319,87 milhões, uma melhora de 51,6%. No entanto, a sobredependência de determinados mercados ameaça reverter a tendência positiva.
Setores com forte dependência do mercado norte-americano merecem atenção especial, como pescados (56,5% das vendas do setor destinadas aos EUA), preparações hortícolas e de frutas (54,3%), ceras vegetais (23,8%), peles e couros (27,2%) e parte do segmento de calçados (18,7%).
Pescados é um dos setores mais prejudicados
O setor de pescados, que destina 56,5% de suas vendas para os Estados Unidos, está entre os mais prejudicados. “Já convivíamos com uma tarifa de 10%, semelhante à dos concorrentes. Mas 50% é extremamente elevado — em média, 35% mais caro do que nossos competidores internacionais”, explica Paulo Gonçalves, vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Frio e Pesca do Ceará (Sindfrio).
Os principais itens exportados são peixe costeiro, lagosta e atuns. A produção já registra queda de cerca de 40% desde o início da medida. Gonçalves lembra que a construção de mercados alternativos é um processo lento: “Levamos de 10 a 15 anos para deslocar parte da produção de lagosta para a Ásia e Oceania. Não é possível substituir o mercado americano da noite para o dia.”

O Sindfrio tem orientado as empresas a manterem o mercado ativo, mesmo que em menor escala, para evitar o colapso da cadeia produtiva. “O risco é perder décadas de trabalho e não conseguir retomar. Por isso, mesmo reduzindo produção, é vital manter funcionando”, reforça.
Embarques cancelados
Segundo a FIEC, pelo menos 20 contêineres de castanha e um volume significativo de pescados deixaram de ser embarcados desde que a nova tarifa entrou em vigor. “Nenhuma empresa consegue manter operações com uma sobretaxa dessas. É uma espécie de ‘pré-pandemia’ para o setor produtivo”, afirmou Ricardo Cavalcante, presidente da federação.
Ele alerta que a medida coloca em risco cadeias produtivas de alto impacto social. “O setor de pescados emprega cerca de 70 mil pessoas no Ceará. A castanha de caju envolve 50 mil e a cera de carnaúba, 170 mil. É uma engrenagem que pode parar”, disse Cavalcante, acrescentando que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta perda de até 8 mil empregos no estado neste momento.
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (FAEC), Amílcar Silveira, ressalta que o peso da medida é ainda maior para o estado do que para o país como um todo. “Os Estados Unidos são o terceiro maior parceiro comercial do Brasil e o principal parceiro do Ceará. Dos quase US$ 500 milhões exportados pelo agro cearense em 2024, cerca de um terço foi para os EUA. Então, avaliamos que o impacto para o Ceará é maior do que para o Brasil. Nós dependemos e precisamos de parceiros importantes como os americanos. Ficamos muito preocupados e lamento que medidas como essa prejudiquem a nossa economia em um momento que era muito oportuno para as exportações”.
Melão e melancia
Embora o setor de frutas tenha menor exposição ao mercado norte-americano, Luiz Roberto Barcelos, diretor da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) explica que as frutas mais exportadas pelo Ceará – Melão e Melancia – já tinham impostos bem altos para os EUA. “O melão já pagava 28% de imposto e o melancia 16%, antes dos 50%. Porém, não era o principal, sendo o principal a Europa. Do montante, iam para os EUA cerca de 4%. Outras frutas, como manga, uva e açai são de produção de outros Estados. Esses 3% a 4% será aborsivo pelo mercado europeu.”
Ele aponta para um cenário mais grave caso a Europa siga o mesmo caminho. “Se a Europa adotar medidas semelhantes, o prejuízo será muito grande e as empresas do Ceará podem fechar as portas”, afirma.
Barcelos lembra que abrir novos mercados é um processo demorado. “Estamos participando de reuniões para falar sobre as taxas. O Governo fala em abrir novos mercado, mas esse é um próximo lento. Para abrir o melão para a China, por exemplo, durou cerca de sete anos. E a fruta está pronta para ser colhida, é de fato, um problema. É minimziar os efeitos, prorrogar os vencimentos dos empréstimos, reexportar aquilo que foi importado, buscar novas linhas de crédito, minimziar os efeitos”, diz.

Medidas
Ricardo Cavalcante defende ações conjuntas entre indústria e agricultura para mitigar os efeitos da sobretaxa. “Dos quase US$ 500 milhões exportados pelo agro cearense em 2024, um terço foi para os EUA. O impacto para o Ceará é maior que para o Brasil. Dependemos e precisamos de parceiros como os americanos”, disse Silveira.
Uma das propostas em estudo é redirecionar parte da produção afetada para programas internos, como merenda escolar e alimentação hospitalar. Paralelamente, o Observatório da Indústria Ceará trabalha para identificar mercados alternativos, mas esbarra em exigências sanitárias e burocráticas que inviabilizam mudanças rápidas.
“Nossa prioridade é preservar as cadeias produtivas. Se elas se rompem, não retomamos facilmente. Precisamos atravessar este período de 90 a 120 dias sem desmontar o que levamos décadas para estruturar”, concluiu Cavalcante.
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