
Uma pesquisa da Amcham Brasil mostra que 88% das empresas preferem a negociação, sem retaliação, como estratégia para reduzir a nova tarifa de 50% que os Estados Unidos vão aplicar sobre a maioria dos produtos brasileiros que vão entrar naquele país a partir de 6 de agosto. Especialistas também veem o diálogo como chance de ampliar a lista de 694 itens nacionais que ficarão de fora do tarifaço do presidente dos EUA divulgadas na quarta-feira (30). A expectativa cresceu após a Secretaria do Tesouro dos EUA procurar o ministro Fernando Haddad para agendar uma reunião sobre o tema.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), Bruno Veloso, defende a negociação entre os representantes dos dois países para avançar num maior número de itens fora da tarifação de 50%. “A minha grande preocupação é não fazer a reciprocidade neste momento. Tem que se buscar um entendimento. A reciprocidade vai trazer mais dificuldades na negociação para a queda das tarifas”, comenta o executivo.
“A maioria dos produtos pernambucanos estão enquadrados no tarifaço de 50%. Em Petrolina já tem produtor dizendo que vai deixar a manga sem colher”, conta Bruno. A janela de exportação das mangas do Vale do São Francisco para os Estados Unidos deveria começar na segunda quinzena de agosto. “São 2500 contêineres de manga saindo do Vale do São Francisco. É um volume gigantesco. O mercado interno não vai consumir esta quantidade toda e nem os produtores querem que o preço caia em função do aumento da oferta”, resume Bruno.
A Fiepe está colocando o Observatório da Indústria – uma grande plataforma de dados – a disposição dos exportadores para prospectarem novos mercados, coletando informações como os países que podem se tornar futuros compradores, o preço destes produtos em outros mercados etc.
“Para os exportadores atingidos, só existem duas saídas: prospectar novos mercados e continuar a negociação”, afirma Bruno, acrescentando que as exportações de alimentos – que deixarão de ir para os Estados Unidos -, a médio prazo, vão encontrar outros compradores, “porque o mundo carece de alimentos”.
Bruno argumenta que os produtos mais difíceis de encontrar novos mercados são aqueles que servem para uma demanda específica dos Estados Unidos, como chapa de aço, usada na indústria americana para fazer outros produtos.
Ele também argumenta que a reciprocidade traria mais inflação e preços mais caros para a população brasileira. “Em Pernambuco, importamos, dos EUA, o gás de cozinha (GLP), o óleo diesel e componentes automotivos. Se houver reciprocidade, todos esses produtos vão ficar mais caros para os consumidores e impactarem empresas que também estão aqui”, comenta. “Boa parte do que importamos dos Estados Unidos alimenta a indústria brasileira”, afirma.
Segundo o economista e sócio da Ceplan Consultoria Júlio Becher devem ser implementadas, simultaneamente, três ações difererentes. “O mais assertivo é continuar as negociações de forma diplomática, estratégica e com diálogo, porque as tarifas já ficaram mais baixas para alguns setores, como ocorreu com a União Europeia”. Ele acredita que a negociação vai resultar numa tarifa mais baixa para alguns produtos brasileiros, aumentando a lista dos que vão ficar de fora do tarifaço.
Depois das negociações, ele aponta duas saídas para os exportadores: prospectarem novos mercados, a médio prazo, e tentar escoar uma parte da produção no mercado interno. “Vender barato é melhor do que não vender”, argumenta. E, por último, ele diz que o governo federal tem que planejar algum tipo de ajuda, emergencial, para os produtores que deixarão de vender os seus produtos para os EUA e vão precisar de algum tipo de apoio até encontrarem novos mercados. “A manga do Vale vai encontrar novos mercados facilmente. Mais difícil vai ser para o exportador que vende algo direcionado para o mercado americano, como por exemplo madeira usada na construção de casas”, afirma.
Outra entidade que continua defendendo a negociação entre os dois países é Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) que divulgou uma nota, nesta quinta-feira (31), informando que tem expectativa de que um acordo “mantenha o mercado americano atrativo para as frutas brasileiras” e segue acompanhado as negociações entre os governos dos dois países.

A geopolítica do mundo mudou…
O advogado do escritório Nascimento Alencar Boutique de Direito Tributário e professor da Unit-PE, Geraldo Alencar diz que, a curto prazo, “não há o que fazer a não ser negociar, mas a geopolítica do mundo mudou”. Ele argumenta que a China não é mais comunista e se tornou um grande mercado consumidor e que poderia ocorrer um redirecionamento das exportações que iriam para os Estados Unidos para outros países como os que fazem parte dos BRICs, da Ásia, da América Central e até da Europa.
Como a sigla diz, o BRIC é um bloco econômico formado, inicialmente, pelo Brasil, Rússia, Índia e China, mas que conta atualmente com 11 países. É o maior bloco econômico depois do G7, formado pelos países mais ricos do mundo. “A China é uma grande oportunidade de vendas. O ideal para os exportadores seria manter os mercados antigos que são possíveis e entrar, a longo prazo, em novos mercados”, comenta Geraldo.
Depois das negociações, Geraldo argumenta que existem algumas instâncias que os governos podem recorrer, a longo prazo, questionando essas taxações, como as próprias cortes americanas e a Organização Mundial de Comércio (OMC).
Pesquisa da Amcham sobre o tarifaço
A pesquisa da Amcham revelou também que 86% das empresas avaliam que uma possível retaliação causaria agravamento das tensões com os Estados Unidos e redução do espaço para o diálogo. O levantamento mostra que 59% dos exportadores brasileiros acreditam que a sobretaxa dos EUA provocará uma interrupção total ou uma queda acentuada nas exportações para aquele país, preocupando especialmente as empresas da indústria e agroindústria, que possuem forte presença no comércio exterior com os EUA.
Os principais impactos econômicos citados pelos entrevistados vão além das exportações: 52% preveem perda de competitividade frente a concorrentes estrangeiros; 52% apontam efeitos negativos nas cadeias de fornecedores locais; e 46% acreditam que haverá revisão de investimentos em curso ou planejados no Brasil.
O levantamento foi realizado no período de 24 a 30 de julho últimos, escutando executivos e empresários de 162 empresas brasileiras, americanas ou multinacionais. Desse total, 41% exportam para os Estados Unidos e 35% importam bens dos EUA.
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