Série Especial:
Nova Era Mineral

Exploração de sal-gema causou tragédia ambiental em Maceió

01 de Agosto de 2025

Por Vanessa Siqueira

Em fevereiro de 2018, a vida de cerca de 55 mil pessoas que moravam nos bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro e Bom Parto começou a mudar drasticamente. A capital alagoana sofreu com fortes chuvas e semanas depois um tremor de terra de 2.5 na escala Richter deu início às ocorrências de rachaduras em imóveis, afundamento de solo e diversos outros problemas.

A Estimativa do Serviço Geológico do Brasil é que o afundamento do solo em decorrência das atividades de extração de sal-gema realizados pela Braskem atingiu uma área correspondente a 5,5% de Maceió e ocorreu em regiões onde havia falhas geológicas, o que causou a instabilidade no solo e desencadeou tremores de terra, rachaduras em imóveis e surgimento de crateras nas ruas e residências.

A Braskem interrompeu suas atividades no bairro do Pinheiro em 2019 e suspendeu o preenchimento de uma de suas minas em outubro de 2024, após registrar um novo desnível no solo, o que gerou apreensão entre moradores e autoridades.

Em fevereiro de 2018, a vida de cerca de 55 mil pessoas que moravam nos bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro e Bom Parto começou a mudar drasticamente. A capital alagoana sofreu com fortes chuvas e semanas depois um tremor de terra de 2.5 na escala Richter deu início às ocorrências de rachaduras em imóveis, afundamento de solo e diversos outros problemas.

A Estimativa do Serviço Geológico do Brasil é que o afundamento do solo em decorrência das atividades de extração de sal-gema realizados pela Braskem atingiu uma área correspondente a 5,5% de Maceió e ocorreu em regiões onde havia falhas geológicas, o que causou a instabilidade no solo e desencadeou tremores de terra, rachaduras em imóveis e surgimento de crateras nas ruas e residências.

A Braskem interrompeu suas atividades no bairro do Pinheiro em 2019 e suspendeu o preenchimento de uma de suas minas em outubro de 2024, após registrar um novo desnível no solo, o que gerou apreensão entre moradores e autoridades.

Após décadas de mineração, bairros deixaram de existir em Maceió. Foto: Robson Barbosa/AFP

Tragédia forçou readequação da cidade

Quem anda pelas ruas que ainda não foram totalmente interditadas nos bairros afetados pela mineração em Maceió vê de perto a imensidão dos danos causados à cidade. Milhares de famílias precisaram mudar para outros locais, o que também trouxe desafios para a cidade, que experimenta o nascimento de novos bairros e lida com alta no preço de imóveis e aluguéis, além de trânsito intenso e outros problemas de mobilidade urbana.

Maceió está entre as cidades que possui o metro quadrado mais caro do Nordeste, com valores que ultrapassam os R$ 12 mil. A parte alta da cidade vive nos últimos anos uma explosão de novos condomínios residenciais, o que desafia a mobilidade urbana de Maceió.

Somente uma construtora que atua na região, a Engenharq, possui mais de 15 mil unidades residenciais entregues no bairro Cidade Universitária e vem investindo R$ 80 milhões para erguer um shopping que atenda os novos moradores na região.

Enquanto a cidade cresce para a região Norte, os moradores que ainda moram no entorno dos bairros já desocupados convivem com a falta de comércio, de pessoas circulando e veem seus imóveis perderem valor.

Imóveis desocupados, ruas desertas e placas indicando rotas de fuga indicam resquícios do que sobrou de bairros afetados pela mineração em Maceió. Foto: Gesio Passos

A Defensoria Pública do Estado de Alagoas ajuizou no dia 10 de julho uma ação civil pública pedindo indenização de R$ 4 bilhões para imóveis que se desvalorizaram. Na ação, os defensores públicos afirmam que mais de 22 mil imóveis se desvalorizaram, em até 60%, porque os bairros vizinhos precisaram ter moradores deslocados e ficaram desabitados.

Além de exigência de pagamento de dano material para reparar a perda de valor das residências, o processo pleiteia indenização por dano moral, como forma de compensar problemas psicológicos desenvolvidos por esses moradores.

Na ação, foram apresentadas provas técnicas e documentais, como laudos periciais, avaliações imobiliárias, registros fotográficos, pareceres do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci), vídeos e depoimentos que confirmam desvalorização e danos estruturais, como rachaduras, trincas e afundamentos.

“A desvalorização é pública e notória, reflexo direto do colapso urbano que transformou bairros inteiros em desertos cinzentos”, afirmou o defensor público Ricardo Melro.

A Justiça Federal autorizou que seja realizado no dia 22 de julho a inspeção nos imóveis do bairro do Bom Parto, que estão localizados nas bordas da área de risco de afundamento do solo, em Maceió.

“A inspeção foi determinada pelo juiz da 3ª Vara Federal, a partir de requerimento da Defensoria, para ampliar a área de realocação, incluindo toda a zona classificada como ‘Criticidade 01’, não apenas no Bom Parto, mas também em outras regiões afetadas”, completou Melro.

Incertezas sobre impactos da mineração persistem entre a população

Enquanto autoridades debatem a extensão dos impactos da mineração, a população de Maceió segue lidando com as consequências sociais e econômicas da tragédia ambiental. Muitos moradores ainda aguardam soluções definitivas para reassentamento, indenizações e recuperação da infraestrutura local. O temor de novos desabamentos continua presente, especialmente entre aqueles que vivem próximos à área de risco.

Para quem nasceu no bairro do Pinheiro e viu de perto grandes transformações estruturais, conviver com as incertezas para o futuro também são angustiantes. A professora Eduarda Rocha mora desde pequena no bairro, mas sua família se instalou na região no ano de 1998, quando boa parte do bairro ainda era conhecida como Sanatório.

Ela conta que os últimos anos têm sido difíceis, principalmente pelo fato de as desocupações terem transformado significativamente a paisagem da região. Ela mora a pouco mais de 500 metros da avenida Fernandes Lima e próximo de ruas que foram interditadas e possuem imóveis que estão em processo de demolição por estarem na área considerada de risco.

2017
2025

Rua Professor José da Silveira Camerino, no Pinheiro. Foto 2017: Google Maps / Foto 2025: Vanessa Siqueira

“Os últimos anos foram muito tristes, porque testemunhamos a eliminação da paisagem que conhecemos, nossas memórias de toda uma vida foram apagadas junto com as ruas do bairro. A casa precisa de reformas e ninguém se sente seguro para investir nisso, porque se trata de gastar dinheiro num imóvel do qual você pode ser despejado a qualquer momento. É terrível o que aconteceu com o bairro. Nunca apareceram rachaduras na nossa casa, mas sentimos o terremoto em 2018. Nunca fomos incluídos na área de risco, mas ninguém fala sobre os impactos para quem permaneceu ali. Não temos mais padaria por perto, por exemplo. Sumiram os negócios, ficaram apenas algumas casas”, relatou.

Eduarda também relatou insegurança com as notícias sobre possível ampliação da área afetada pela mineração, o que causa em alguns moradores que ainda vivem na região a sensação de não saber quais riscos realmente estão expostos.

“Essas notícias de movimentação do solo nos deixam muito inseguros, porque não dá para confiar nos mapas divulgados pela própria empresa que causou esse dano. A maior prova é que a área de risco só aumenta e logo surgem novas delimitações mostrando que a área afetada é sempre maior. Isso provoca muito medo e insegurança, ninguém diz o risco real de morar ali. Demoliram as casas, mas ainda passam carros pelas pistas, isso é seguro? Quais riscos corremos? Ninguém sabe. É assustador pensar nisso”, afirmou.

Nova Era mineral

Vocé está em:

Exploração de sal-gema causou tragédia ambiental em Maceió

© 2025 Criado por Movimento Econômico