Série Especial:
Nova Era Mineral

O lado B da mineração: os efeitos da mineração em Craíbas

31 de Julho de 2025

Por Vanessa Siqueira

Apesar do grande potencial existente em Alagoas para ampliar suas operações minerais, o estado possui um histórico de desastres ambientais causados por operações que não se preocuparam com aspectos sociais e ambientais e que resultaram em grandes danos em Maceió. Já no Agreste alagoano, moradores do entorno da Mina Serrote também relatam rachaduras em imóveis e outros problemas atribuídos à exploração de cobre.

No povoado Lagoa do Melo, Tancredo Barbosa vive com a família a apenas 900 metros da Mina Serrote, onde a Mineração Vale Verde (MVV) explora minério de cobre. A área está dentro do raio de 3 km para o qual a empresa possui autorização de lavra. Desde que as operações se intensificaram, ele relata uma rotina de insegurança.

Apesar do grande potencial existente em Alagoas para ampliar suas operações minerais, o estado possui um histórico de desastres ambientais causados por operações que não se preocuparam com aspectos sociais e ambientais e que resultaram em grandes danos em Maceió. Já no Agreste alagoano, moradores do entorno da Mina Serrote também relatam rachaduras em imóveis e outros problemas atribuídos à exploração de cobre.

No povoado Lagoa do Melo, Tancredo Barbosa vive com a família a apenas 900 metros da Mina Serrote, onde a Mineração Vale Verde (MVV) explora minério de cobre. A área está dentro do raio de 3 km para o qual a empresa possui autorização de lavra. Desde que as operações se intensificaram, ele relata uma rotina de insegurança.

Residência em Craíbas localizada dentro do raio de lavra apresentou rachaduras devido às explosões. Foto: Arquivo pessoal

“Quando eles começaram mesmo a explorar a região, tudo tremia quando tinha as explosões. Nós protestamos contra a grande frequência e hoje eles realizam as explosões duas vezes por semana. Mas a região já registrou tremor de terra de 2.0 na escala Richter. Com o passar do tempo, muitos moradores foram identificando rachaduras nas casas, até animais chegavam a morrer com o susto que levavam do barulho das explosões. As nossas casas não foram construídas para suportar esse tipo de abalo”, afirmou Tancredo.

Ele afirma que investiu na construção de uma nova casa, também próxima à região, com reforço estrutural específico. “Fiz um alicerce de 1,10 metro, reforcei a estrutura com concreto e ferro e usei bloco estrutural para que ela suporte”, conta.

A casa de Tancredo está também a 600 metros da estação de tratamento de resíduos da cidade. Ele relata que muitos moradores desenvolveram problemas respiratórios e que parte da comunidade já foi indenizada e realocada. No entanto, outros seguem no local, sem perspectiva de mudança.

Igreja localizada em povoado de Craíbas apresentou diversas rachaduras após início da operação na Mina Serrote. Foto: Arquivo pessoal

Um relatório elaborado pela Defesa Civil de Craíbas e do Estado foi produzido após vistorias em março de 2024 e confirma os impactos nas construções da região. Em cinco povoados — Pau Ferro, Riacho Fundo, Lagoa do Félix, Capim e Lagoa do Melo — 54% das casas visitadas apresentavam rachaduras, segundo afirma o documento. As inspeções indicaram também reclamações de tremores, ruídos intensos, mortes de animais e doenças respiratórias.

O documento sugere a ampliação do raio de acompanhamento e investigações mais detalhadas sobre as condições estruturais das residências afetadas. A comunidade cobra ainda a divulgação dos resultados do estudo encomendado pela MVV à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) para avaliar os impactos da mineração na região.

Segundo Tancredo, os moradores protocolaram denúncias junto à mineradora e aguardam respostas sobre monitoramento de explosões, controle de poeira e qualidade da água.

“Estamos sendo obrigados a deixar nossas terras, nossas histórias. Tem morador que adquiriu problema respiratório por conta da poeira da mineração, as casas que racharam e estão comprometidas, então cobramos providências para nossa situação”, completou o morador.

A Mineração Vale Verde respondeu por meio de nota que todos os resultados de seus monitoramentos ambientais estão dentro dos parâmetros estabelecidos por lei. Os dados gerados são reportados e validados pelo órgão ambiental competente.

Órgãos fiscalizam atividade de mineração, mas convivem com desafios

Enquanto a atividade de mineração ganha fôlego no Agreste e os impactos do colapso causado pela mineração de sal-gema ainda reverberam em Maceió, órgãos públicos de fiscalização e regulação atuam sob diferentes perspectivas na tentativa de mitigar riscos e responder às demandas da população. Mesmo com os desafios, eles seguem cobrando providências das empresas.

O Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) informou ao Movimento Econômico que acompanha a atuação da empresa responsável pela Mina Serrote, em Craíbas, com base no cumprimento das condicionantes previstas em licença ambiental, como o monitoramento de ruídos e vibrações na região.

“A empresa está realizando estudos mais detalhados para identificar possíveis impactos e foi notificada a prestar os devidos esclarecimentos, a fim de garantir que todas as condições legais e ambientais sejam rigorosamente cumpridas”, explicou o órgão.

Agência Nacional de Mineração e IMA têm ciência de rachaduras em Craíbas. Foto: Divulgação

O IMA disse ainda que caso a população identifique possíveis irregularidades, a orientação é que as denúncias sejam feitas pelo aplicativo IMA Denuncie, disponível gratuitamente para sistemas Android e iOS.

A Agência Nacional de Mineração (ANM) disse ao Movimento Econômico que tem conhecimento dos relatos de rachaduras nos imóveis localizados em Craíbas e que existem denúncias do caso que chegam ao órgão por meio do Ministério Público. Ela disse também que tem agido conforme suas competências e em conjunto com outros órgãos públicos quando demandada.

A ANM informou que realizou a última fiscalização na Mineração Vale Verde nos dias 5 e 6 de novembro do ano passado e atestou que o monitoramento sísmico e de qualidade da água são realizados continuamente pela Mineração Vale Verde.

“No caso em referência, devem ser realizados estudos para averiguar a correlação existente entre a atividade da empresa e possíveis danos às estruturas. A ANM tem ciência também que a Universidade Federal do Rio Grande do Norte foi sondada para a realização de um estudo sismográfico. Porém, foi recomendada pelo Ministério Público, a submissão de propostas de projetos de monitoramento sismográfico oriundos de Universidades Públicas para a definição de qual proposta melhor atenderia ao escopo necessário à mina”, completou.

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