
A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras acendeu um alerta vermelho no setor industrial cearense. O estado, cuja pauta exportadora tem os EUA como principal destino, pode sofrer perdas bilionárias, especialmente no setor do aço, que lidera a lista dos produtos mais enviados ao mercado norte-americano.
A tarifa, anunciada nesta quarta-feira (9), é a mais alta entre as novas sanções comerciais aplicadas por Trump a mais de 20 países. Para o Ceará, os Estados Unidos concentram cerca de 47% das exportações totais do estado, muito à frente de Holanda (6,2%) e Reino Unido (5,8%).
De janeiro a maio de 2025, as exportações cearenses somaram US$ 770,48 milhões, um aumento de 49,3% em relação ao mesmo período de 2024. Desse total, US$ 366,8 milhões foram direcionados exclusivamente ao mercado norte-americano, segundo dados do Observatório da Indústria do Ceará. Só o aço respondeu por US$ 262,3 milhões desse montante, seguido por peixes (US$ 19,1 milhões) e calçados (US$ 13,9 milhões).
Em entrevista ao Movimento Econômico, o economista Ricardo Rocha, professor e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), avaliou que o aumento abrupto das tarifas é uma medida de forte impacto, mas que pode ter desdobramentos políticos.
“Assim como para o Brasil e outros países afetados, o impacto para o Ceará é extremamente negativo. Mas essa elevação costuma ser usada como tática de pressão para negociação. A questão é saber se essa lógica vai se repetir agora”, afirma o economista.
Rocha ressalta que os EUA são hoje o principal parceiro comercial do Ceará. Com a possível perda de competitividade no mercado norte-americano, será necessário buscar alternativas. “Uma opção seria reforçar os laços com os Brics e abrir novos destinos estratégicos. Mas isso demanda tempo, acordos e construção de confiança. Não se muda um destino exportador da noite para o dia”, alertou.

Aumento de preços de produtos norte-americanos
Segundo o economista, a política tarifária agressiva dos Estados Unidos pode desencadear efeitos negativos além das fronteiras brasileiras. A alta das tarifas tende a elevar os preços de produtos importados nos EUA, pressionando a inflação local e levando o Federal Reserve a manter ou aumentar as taxas de juros.
“Taxas de juros altas repercutem globalmente: enfraquecem bolsas de valores, limitam o crescimento econômico, geram menos empregos e podem causar recessão. Isso afetaria diretamente o Brasil e o Ceará, que dependem do comércio internacional para sustentar seu crescimento”, explica.
A Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) informou que está avaliando os impactos e segue a nota oficial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que classificou a nova tarifa como “preocupante e surpreendente”. Para o presidente da entidade, Ricardo Alban, não há fundamento econômico para uma elevação tão acentuada das tarifas sobre os produtos brasileiros. O aumento da tarifa para 50% terá impacto significativo na competitividade de cerca de 10 mil empresas que exportam para os Estados Unidos.
“Os impactos podem ser graves para nossa indústria, que está profundamente interligada à cadeia produtiva americana. Quebrar essa relação traria muitos prejuízos à economia brasileira. O mais importante agora é o diálogo e a negociação para reverter essa decisão”, declarou Alban.

Indústria do aço
Em junho, quando a tarifa do aço já havia subido para 50%, o Instituto Aço Brasil emitiu nota destacando preocupação com a elevação, sobretudo em um cenário internacional já tensionado por excesso de capacidade produtiva, estimado em 620 milhões de toneladas.
Segundo a entidade, os EUA importaram 5,6 milhões de toneladas de placas de aço em 2024, sendo 3,4 milhões do Brasil, evidenciando a dependência norte-americana desse insumo. O Instituto defende que o governo brasileiro, por meio do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, atue com urgência para restabelecer o acordo bilateral de 2018, que permitia exportações dentro de cotas isentas de tarifas.
Manifesto na Assembleia Legislativa
Durante a sessão plenária desta quinta-feira (10/07), a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) aprovou, com 32 votos favoráveis, do total de 46 deputados, o “Manifesto em Defesa do Brasil” em resposta ao comunicado oficial da Presidência dos Estados Unidos, que propõe uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados e sugere interferência no Poder Judiciário brasileiro em troca de um possível recuo tarifário.
“A referida carta menciona a imposição de uma tarifa de 50% para todos os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos e com a exigência de interferência no Poder Judiciário brasileiro, por parte do governo brasileiro, para um possível recuo de tal imposição tarifária.
Tal comunicação oficial do Presidente dos Estados Unidos para o Presidente do Brasil não corresponde a histórica boa relação diplomática entre os dois países, entre os dois Estados Nacionais, aos princípios constitucionais das duas Cartas Magnas das duas nações, e ameaça a soberania brasileira, atingindo o Estado Brasileiro, as empresas brasileiras e, em especial, a população brasileira”, diz trecho do manifesto.
Oito parlamentares votaram contrário ao manifesto: Antonio Henrique (PDT), Alcides Fernandes (PL), Carmelo Neto (PL), Cláudio Pinho (PDT), Lucinildo Frota (PDT), Queiroz Filho (PDT), Pedro Matos (Avante) e Sargento Reginauro (União). Segundo Romeu Aldigueri (PSB), presidente da Alece, o documento será enviado para o Colégio de Presidentes das Assembleias Legislativas do Brasil.
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