- Publicidade -

Cientistas políticos veem defesa das big techs por trás da carta de Trump

Cientistas políticos apontam que a tarifa e a carta de Donald Trump vão além de Bolsonaro e têm foco na disputa global e nas big techs
- Publicidade -
Analistas políticos acreditam que o presidente Donald Trump, ao sobretaxar o Brasil, mira na gigantes da internet e na liberdade de expressão Foto: Molly Riley/Casa Branca.
Analistas políticos acreditam que o presidente Donald Trump, ao sobretaxar o Brasil, mira na gigantes da internet e na liberdade de expressão Foto: Molly Riley/Casa Branca.

Os aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro celebraram a carta do presidente dos EUA, Donald Trump, em que ele critica o processo que condenou o ex-gestor e, também, impõe taxação de 50% aos produtos brasileiros. Para os bolsonaristas, foi uma confirmação externa e internacional de que Bolsonaro é vítima de perseguição política. Para estudiosos da política global, no entanto, isso é apenas uma cortina de fumaça para uma intenção maior, que é a defesa das big techs e da liberdade de expressão.

O cientista político e professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Elton Gomes, avalia que a ameaça de sobretaxa feita pelo presidente norte-americano está ligada a dois pontos sensíveis para os EUA, a questão das empresas de tecnologia e o alinhamento cada vez maior do Brasil com os parceiros do Brics.

“Trump está ameaçando sobretaxar os produtos brasileiros porque são duas coisas que melindram os Estados Unidos. A primeira é a questão das big techs. Quem paga a banda escolhe a música. Trump chegou ao poder e se mantém com o apoio dessas plataformas”, colocou.

No Brasil, discute-se a responsabilidade das plataformas em relação a conteúdos criminosos que circulam nas redes, que vão desde pedofilia e apologia à violência nas escolas, até defesa de golpe de Estado. O STF definiu, recentemente, que as plataformas devem ser responsabilizadas por conteúdo criminoso.

O professor destacou ainda que o Brasil tem dado sinais de distanciamento dos EUA e da União Europeia, aproximando-se de países como China, Rússia, Irã e Coreia do Norte. “Isso os Estados Unidos não permitem porque o Brasil faz parte da zona de influência geoestratégica americana desde o século XIX.” Para Elton Gomes, as tarifas têm relação direta com essa disputa por influência global, enquanto o julgamento de Bolsonaro seria apenas um fator acessório.

Professor Elton Gomes acredita que a questão de Jair Bolsonaro é acessório no aumento da taxa feita por Donal Trump Foto: Instagram

Dados do Ministério da Economia mostram que, somente em 2024, o Brasil exportou cerca de US$ 4,5 bilhões em proteína animal e US$ 1,3 bilhão em suco de laranja para os EUA. Uma taxação de 50% poderia gerar impacto significativo nessas cadeias produtivas.

Estrutura conservadora no governo Trump

O cientista político e cônsul honorário de Malta, professor Thales Castro, avaliou que a volta de Trump ao poder, com maioria no Congresso e na Suprema Corte, fortaleceu uma agenda conservadora mais agressiva. “Ele compôs uma troika, um quadrilátero de poder: JD Vance como vice-presidente; Marco Rubio como secretário de Estado; Pete Hegseth no comando do Pentágono; e o próprio Trump no centro desse núcleo duro.”

Castro detalhou que a condução da política externa mudou radicalmente, com maior atenção às decisões do Supremo Tribunal Federal brasileiro. “Essa taxa de 50% vai trazer prejuízos maiúsculos para várias cadeias produtivas no Brasil, como a da proteína animal, do suco de laranja, da indústria metal-mecânica, siderurgia e o agronegócio.”

Relatório da Câmara Americana de Comércio aponta que cerca de 12% das exportações brasileiras dependem diretamente do mercado norte-americano.

Professor Thales Castro avalia que o Brasil erra ao apoiar regimes autocráticos, defender a entrada do Irã nos Brics e criticar diretamente Israel Foto: Instagram

Segundo o professor, a resposta brasileira tem sido errática: “Apoiar regimes autocráticos, defender a entrada do Irã nos Brics e criticar diretamente Israel e EUA após ataques militares demonstra quebra de uma tradição da diplomacia brasileira, que sempre buscou equilíbrio e universalismo.”

Interferência inédita na política doméstica

Professor professor da UFPE e da Unicap, Antônio Lucena chamou atenção para o ponto presente na carta de Trump, que é a defesa das big techs e a crítica à atuação do STF. “Ele faz basicamente uma defesa das big techs e tudo mais, e aí isso realmente pode também impactar seriamente no caso do Brasil.” Lucena destacou que, mesmo considerando excessos, as ações do STF ocorrem no âmbito da Justiça brasileira.

“É inédito a forma como o presidente americano, pessoalmente, buscou interferir na política doméstica.” Ele lembrou que, historicamente, os EUA interferiram indiretamente, como em 1964, mas nunca houve ação direta como essa.

Lucena comparou a estratégia de Trump com a do ex-presidente John Kennedy, que, diante da ameaça cubana, optou por cooptação através da Aliança para o Progresso. “Kennedy abriu diálogo e investimentos, favorecendo crescimento econômico brasileiro, diferente de Trump, que aposta em coerção tarifária.”

A medida, segundo analistas, também visa pressionar o Brasil a rever posicionamentos recentes, especialmente sobre liberdade de expressão e regulação de plataformas digitais, tema sensível para o governo americano.

Veja também:

Trump eleva tarifas em 50% sobre o Brasil e cita STF e apoio a Bolsonaro

- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Notícias

- Publicidade -