
A cana-de-açúcar, a indústria e o setor de serviços são hoje os principais pilares da economia alagoana, mas o estado quer avançar em outras frentes para diversificar sua matriz produtiva e alavancar o desenvolvimento em um momento em que mudanças na macroeconomia global suscitam a necessidade de novas estratégias. Com uso intensivo de dados e análises técnicas, o Governo de Alagoas já aponta caminhos concretos para ampliar sua atuação em setores como turismo, energias renováveis, bioeconomia e agroindústria irrigada.
A cana-de-açúcar, historicamente, ainda se mantém como um dos motores da economia do estado. A última safra foi encerrada com cerca de 17,4 milhões de toneladas de cana processadas e produção de açúcar da ordem de 1,6 milhão de toneladas, e produção de etanol em torno de 404 milhões de litros.
Em 2024, as exportações de Alagoas somaram US$ 901 milhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O açúcar e seus derivados continuam sendo o carro-chefe da pauta exportadora do estado, representando 79% do total vendido ao exterior. O minério de cobre e seus concentrados também tiveram participação relevante, com 20,4%. Entre os principais destinos das exportações alagoanas estiveram o Canadá (24,4%), China (16,1%), Estados Unidos (8,1%) e Malásia (7,1%).
Um estudo do Banco do Nordeste (BNB) projetou que o PIB de Alagoas em 2025 atinja R$ 96 bilhões, com uma renda per capita estimada em R$ 29.959. A composição setorial do PIB mostra forte predominância dos serviços (72%), seguidos pela agropecuária (14%) e indústria (14%). Em 2024, o setor industrial correspondeu a 14% do PIB total do estado.
A Secretaria de Estado do Planejamento, Gestão e Patrimônio (Seplag) vem coordenando uma frente voltada à tomada de decisões com base em evidências. A partir de análises antecipadas do PIB estadual e da criação de indicadores como o Valor Adicionado Bruto (VAB) do turismo, a pasta busca orientar políticas públicas mais eficazes e conectadas à realidade dos territórios.
“Temos atuado para que o planejamento do estado não seja feito no escuro. As decisões do presente precisam estar fundamentadas em projeções bem estruturadas, com dados atualizados e confiáveis, o que nos permite entender o comportamento da economia e direcionar melhor as ações”, explicou ao Movimento Econômico o secretário especial de Planejamento, Orçamento e Governo Digital, Phelipe Vargas.

Um dos exemplos citado por Vargas é a antecipação das estimativas do PIB estadual, tradicionalmente publicadas com defasagem de dois anos pelo IBGE. A Seplag passou a realizar cálculos próprios, analisados por equipes intersetoriais, permitindo que o estado reaja com mais agilidade às mudanças econômicas. Outro marco é o cálculo do VAB do turismo, feito pela primeira vez em 2025, posicionando Alagoas como o segundo estado do país a adotar esse indicador.
Turismo além dos litorais é aposta para incrementar economia
A diversificação da economia passa pela valorização de ativos já consolidados. O turismo, tradicionalmente associado ao litoral alagoano, vem ganhando nova abordagem. Segundo explicou o secretário especial da Seplag, a ampliação de rotas e a valorização de destinos menos óbvios têm revelado o potencial econômico de diferentes regiões.
No interior do estado, especialmente o Sertão, tem sido palco de investimentos inéditos, como o Amani Private Residence, primeiro residencial de alto padrão às margens do Rio São Francisco, no município de Piranhas. O empreendimento, com investimento de R$ 100 milhões, une habitação de luxo e turismo de experiência, impulsionando a economia da região. A proposta também dialoga com a estratégia estadual de interiorização do turismo, como afirmou a secretária de Turismo, Bárbara Braga, em entrevista recente ao Movimento Econômico.

“Trabalhamos com uma política de desenvolvimento arrojada, que oferece incentivos fiscais e locacionais tanto para pequenos quanto para grandes empreendimentos. Além de benefícios como o diferimento de ICMS e crédito presumido de até 92%, o Estado também pode desapropriar áreas estratégicas e vendê-las para investidores do setor hoteleiro. Esses programas garantem atratividade para novos negócios e ampliam o impacto econômico do turismo em Alagoas”, destacou a secretária.
Outro movimento foi a chegada de hotéis de luxo à capital e ao Litoral Norte, com marcas nacionais e internacionais apostando no segmento de alto padrão, o que reforça o novo posicionamento do estado nesse setor. Em paralelo, o governo lançou a plataforma digital Destino Alagoas, que estrutura e vende experiências sustentáveis em diferentes regiões, ampliando a visibilidade dos atrativos fora do circuito tradicional de sol e mar.
“O turismo tem se mostrado um vetor relevante não apenas pela geração de empregos diretos, mas também por ativar uma rede de serviços como hospedagem, transporte e alimentação em locais onde antes a movimentação era limitada”, observa o secretário Phelipe Vargas.

Energia limpa e bioeconomia ganham força na economia estadual
Outro pilar da diversificação passa pela transição energética. Alagoas já se destaca na produção de bioenergia a partir do bagaço da cana-de-açúcar, liderando o ranking do Nordeste. Além disso, experimentos com o cultivo de sorgo para produção de etanol vêm se consolidando como alternativa viável e menos dependente de irrigação, o que amplia o horizonte do setor sucroenergético em áreas do semiárido.
Além da biomassa, o estado busca protagonismo em outras frentes. O setor de energias renováveis, com foco em solar, eólica e hidrogênio verde, vem sendo mapeado pela Seplag como oportunidade estratégica.
A Casa dos Ventos, por exemplo, planeja instalar um parque eólico na zona rural de Mata Grande, no Sertão do Estado, com 40 aerogeradores com potência de 264 megawatts (mW). O processo de implantação está em andamento, mas já foi realizada audiência pública no município e a empresa aguarda a autorização dos órgãos ambientais do estado.
Na região Metropolitana de Maceió, no município de Pilar, a Origem Energia vai implantar um projeto pioneiro no país de Estocagem Subterrânea de Gás Natural (ESGN), avaliado em US$200 milhões. A primeira fase do projeto prevê a estocagem de 106 milhões de metros cúbicos por ano. No longo prazo, a expectativa da Origem é de chegar a 500 milhões m³/ano.

“Apesar de ser uma tecnologia com mais de 100 anos no mundo, ela é pioneira no Brasil. Estamos há três, quatro anos trabalhando para desenvolver uma regulação adequada e preparar o reservatório para essa nova função. Estamos muito convictos de que, ainda este ano, Alagoas será a primeira a operar estocagem de gás natural no Brasil”, destacou o CEO da Origem Energia, Luiz Felipe Coutinho.
Além da estocagem, a empresa pretende aplicar outros US$ 500 milhões na construção de usinas termelétricas em Alagoas até 2030. A expectativa é de que as primeiras usinas tenham capacidade de 500 MW, com construção condicionada ao resultado do próximo Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP). “Esperamos que o estado seja vencedor desse leilão e que possamos trazer este investimento para a população alagoana”, acrescentou Coutinho.
“A aposta em tecnologias limpas está em sintonia com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), e pode posicionar o estado de forma competitiva nesse novo cenário energético”, pontua Phelipe Vargas.

Do mar ao campo: bioeconomia e agroindustrialização irrigada
A valorização dos recursos naturais também ganha espaço na estratégia de diversificação recomendada pela Secretaria de Planejamento e Gestão do estado. Com o programa Alagoas Azul, o estado mira o potencial da economia marinha, especialmente na produção de biofertilizantes e carragenanas, que são polissacarídeos extraídos de algas marinhas cultivadas no litoral. Elas são utilizadas na indústria alimentícia, de cosméticos e farmacêutica. O projeto reforça a bioeconomia como ativo de desenvolvimento sustentável e de alto valor agregado.
Na agricultura, os investimentos também seguem com foco em inovação. O Canal do Sertão, importante obra hídrica do estado, começa a ser utilizado para irrigação agrícola em diferentes municípios, com destaque para projetos de plantio de arroz com técnicas adaptadas, como em Olho d’Água do Casado, e para o fortalecimento da agricultura familiar irrigada, que recebeu aportes de R$ 20 milhões do governo estadual. A adoção de técnicas agroecológicas e de reuso de água tem garantido aumento de produtividade em regiões antes marcadas por baixa produção.
“Temos condições naturais que nos permitem fortalecer uma agroindústria moderna e eficiente no semiárido. Com o uso inteligente da água e da tecnologia, conseguimos ativar cadeias produtivas que geram renda e oportunidades fora do eixo tradicional da economia”, concluiu Vargas.
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