
O ofício das rendeiras de bilro foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Ceará pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (Coepa), em decisão unânime durante reunião extraordinária realizada na quarta-feira (3). O registro abre o Livro de Saberes do Patrimônio Imaterial do Estado. O reconhecimento tem como base um dossiê técnico conclusivo produzido pela Célula de Patrimônio Cultural Imaterial da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult), com levantamento histórico, entrevistas e documentação sobre o ofício da renda de bilro no estado.
A renda de bilro é uma técnica artesanal baseada no entrelaçamento de fios com o uso de bilros, pequenos bastões de madeira. A atividade está presente em comunidades do litoral cearense e é transmitida principalmente no ambiente familiar. O ofício permanece como fonte de renda complementar em diferentes municípios e integra a cadeia do artesanato e da economia criativa no estado.
Na mesma reunião, foi exibido um dos três documentários produzidos em parceria com o Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS), com foco em mestras da renda reconhecidas como Tesouros Vivos da Cultura. O processo contou ainda com apoio da Central de Artesanato do Ceará (CeArt) na coleta de dados e na articulação com as rendeiras.
Segundo a secretária da Cultura do Ceará, Gecíola Fonseca, o registro resulta de um processo construído com participação direta das detentoras do saber. “Esse é o resultado de um processo de patrimonialização que contou com a participação ativa das detentoras do bem cultural, que apontaram estratégias de salvaguarda para o ofício das rendeiras de Bilro no Ceará. Esta conquista protege o saber fazer, que ficará documentado no Dossiê Conclusivo elaborado pelos técnicos”, afirmou.
Registro e política de patrimônio
O pedido de reconhecimento foi aprovado por unanimidade e inclui recomendação de encaminhamento ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para análise de eventual reconhecimento em nível nacional. O registro integra a política estadual de patrimônio cultural imaterial, estruturada em livros temáticos. O Livro de Saberes reúne conhecimentos e modos de fazer vinculados a práticas do cotidiano de comunidades cearenses.
O sistema estadual inclui ainda o Livro das Celebrações, o Livro das Formas de Expressão, o Livro dos Lugares e o Livro dos Tesouros Vivos da Cultura, voltado a mestres e grupos reconhecidos como referências culturais. O patrimônio imaterial no Ceará reúne práticas, saberes e técnicas transmitidas entre gerações e associadas à identidade de diferentes comunidades.
A política de registro tem origem em ações iniciadas na década de 1970, com a criação do Centro de Referência Cultural do Ceará, cujo acervo hoje integra o Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS). O sistema foi consolidado com a Lei nº 18.232, de 2022, que instituiu o Código do Patrimônio Cultural do Estado.

História da renda de bilro no Ceará
A renda de bilro tem origem associada à tradição europeia trazida ao Brasil no período colonial e foi incorporada ao cotidiano de comunidades do litoral nordestino, onde passou a ser adaptada e transmitida localmente ao longo de gerações.
No Ceará, a atividade se consolidou em municípios costeiros, onde se tornou uma forma de trabalho manual ligada à organização familiar e à economia doméstica. Em muitos casos, a produção era realizada de forma complementar à atividade da pesca, que estruturava a renda principal das famílias.
O ofício se mantém baseado no entrelaçamento de fios com o uso de pequenos bastões de madeira, os bilros, técnica que exige repetição, domínio de padrões e transmissão direta do aprendizado entre gerações, principalmente entre mulheres das mesmas famílias.
Ao longo do tempo, a renda de bilro deixou de ser apenas uma atividade doméstica e passou a circular em feiras, centros de artesanato e iniciativas ligadas ao turismo e à economia criativa, mantendo vínculo com a identidade cultural de comunidades do litoral cearense.
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