
O governo dos Estados Unidos anunciou que poderá taxar importações brasileiras com uma nova tarifa punitiva de 25%, sob a alegação de práticas comerciais desleais do Brasil. Para o Ceará, estado com grande dependência relativa do mercado norte-americano entre todas as unidades da federação, o anúncio acende um sinal de alerta em setores como pescados, calçados, couros e peles.
Em 2025, o Ceará encerrou o ano com exportações de US$ 2,28 bilhões, crescimento de 55,6% em relação ao ano anterior. A nova taxação, prevê tarifas adicionais sobre bens brasileiros, com possibilidade de isenções para 1.690 linhas tarifárias específicas, mas pescados e calçados, dois pilares da economia cearense, estão na linha de fogo. Do total exportado pelo setor pesqueiro cearense, 56,5% vai para os EUA. No caso das preparações hortícolas e de frutas, a fatia norte-americana chega a 54,3%. Peles e couros têm 27,2% das vendas atreladas ao mercado dos Estados Unidos, enquanto os calçados destinam 18,7% de suas exportações ao país.
No acumulado de janeiro a julho de 2025, os EUA responderam por 53,6% de todas as exportações cearenses, totalizando US$ 1,35 bilhão embarcados, crescimento de 31,5% sobre o mesmo período de 2024. Entre janeiro e junho de 2025, o Ceará exportou US$ 528 milhões em ferro e aço para os EUA.
Pescados: dependência quase total dos EUA
O setor de pesca é talvez o mais vulnerável da pauta exportadora cearense. Em 2024, o estado exportou US$ 54 milhões em pescados, com 96% desse valor direcionado ao mercado norte-americano O estado lidera o ranking nacional de exportações do segmento. Paulo Gonçalves, diretor do Sindicato das Indústrias de Frio e Pesca do Ceará (Sindfrio), admite que o setor ainda tenta entender a extensão do impacto.
“No momento, estamos trabalhando juntos a nossos clientes e à CNI para entender como será essa nova situação. Ainda existe muita dúvida a ser dirimida; acredito que até semana que vem, vamos ter mais clareza a respeito.”
O dirigente revelou que a principal aposta do setor é garantir uma exceção na lista de produtos isentos da nova tarifa. “A tentativa no momento é colocar o pescado na lista de exceção. Caso não tenha êxito, com certeza afetará as exportações do setor pesqueiro”, afirmou.
Os números recentes reforçam a urgência. Em 2025, mesmo antes da eventual nova sobretaxa, o Ceará já havia registrado uma retração de 25% nas exportações de pescados para os EUA em relação a 2024, com queda de US$ 13,1 milhões, reflexo das turbulências tarifárias anteriores que já haviam abalado o setor.

Calçados sob pressão
O Ceará é um dos maiores produtores e exportadores de calçados do Brasil, responsável por 24,4% da produção nacional, o equivalente a 206,8 milhões de pares em 2025. Em 2024, o estado exportou US$ 199,3 milhões em calçados para o mundo, sendo os EUA um dos principais destinos, respondendo por 18,7% das vendas externas do setor cearense.
O impacto de taxações anteriores já havia deixado marcas. Em 2025, as exportações de calçados do Ceará somaram US$ 189,4 milhões, queda de 4,9% na receita ante o ano anterior. O preço médio do calçado brasileiro vendido nos EUA, de US$ 20,8 por par, mais que o dobro do valor médio para outros mercados, mostra o quanto o mercado americano é estratégico para a rentabilidade do setor.
O presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), informou, através de nota que, embora a decisão tomada no âmbito da Seção 301 seja passível de reversão, preocupa a atividade. “Historicamente, os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de calçados. A medida é anunciada em um momento de recuperação, após queda do tarifaço de 50%, ocorrida no final de fevereiro. A possibilidade de nova tarifa adicional traz mais insegurança tanto para o exportador brasileiro quanto para o importador norte-americano”, avalia o dirigente.
A leitura da indústria: cautela e articulação
Karina Frota, gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), em entrevista ao Movimento Econômico, pediu cautela na interpretação do anúncio e apontou para a necessidade de organização antes de qualquer conclusão definitiva. A gestora destacou que a medida proposta ainda não tem efeito imediato: “A recomendação não possui efeito imediato e ainda deverá passar por processo de consulta pública e realização de audiências para determinação final.”

Karina também rebateu as alegações norte-americanas de práticas desleais: “É fato que o Brasil não adota medidas que discriminem empresas americanas ou que coloquem bens, serviços ou investimentos dos EUA em desvantagem no mercado brasileiro.”
Para a FIEC, o momento é de mapeamento e articulação. “Para a indústria cearense, é o momento de organizar evidências, mapear setores que possam ser afetados e subsidiar articulação institucional”, afirmou. O CIN informou que analisa as medidas anunciadas para posterior avaliação dos impactos sobre as exportações cearenses.
O governador Elmano de Freitas manifestou-se sobre o tema e afirmou que o Estado irá propor ações para mitigar os efeitos da nova taxação assim que os valores finais forem definidos pelo governo americano. A posição reflete a dinâmica do processo: como pontuou a FIEC, a medida ainda depende de consulta pública e audiências antes de entrar em vigor.
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