
O varejo de autosserviço no interior do Rio Grande do Norte testou, na última semana, os limites da elasticidade-preço da demanda. Durante a reinauguração de uma unidade do Queiroz Atacadão em Assú, a oferta de macarrão instantâneo, ou miojo, como é popularmente conhecido, ao valor nominal de um centavo subverteu a lógica de consumo e instalou um cenário de “guerra” nos corredores. O que deveria ser um evento de fidelização e reforço de marca se transformou em um case de gerenciamento de crises sob o impacto de promoções relâmpago.
A tática de “preços de isca”, comum em aberturas de unidades atacadistas para tracionar fluxo e elevar o ticket médio com itens adjacentes, encontrou um terreno fértil na economia local. Ao derrubar o preço de um item da cesta básica para o valor mínimo monetário, o estabelecimento atraiu uma massa crítica que superou a capacidade de contenção operacional.
Esse fenômeno revela a sensibilidade do consumidor brasileiro a ofertas extremas, onde o valor de face do produto anula qualquer barreira de conveniência ou ordem.
O episódio, ocorrido em 29 de janeiro, ganhou contornos digitais quando as imagens da disputa pelos pacotes de “miojo” inundaram as redes sociais. A densidade da aglomeração e a velocidade do esgotamento do estoque geraram, inicialmente, ceticismo sobre a veracidade dos registros.
No entanto, a própria empresa validou a ação ao compartilhar o sucesso da reabertura em seus canais oficiais, confirmando que outros itens, como iogurtes e melancias, também sofreram cortes severos nas margens para atrair o público.
O preço do fluxo desordenado
Imagens capturadas por clientes mostram dezenas de consumidores aglomerados, puxando caixas e sacolas em meio a tentativas de garantir a unidade promocional. A situação escalou quando um funcionário, diante da pressão da multidão, passou a arremessar os pacotes de macarrão instantâneo para o alto, uma tentativa rudimentar de dispersão que acabou alimentando o empurra-empurra.
Especialistas em varejo apontam que a eficiência de uma reinauguração não deve ser medida apenas pelo volume de pessoas no ponto de venda, mas pela experiência de compra. Quando a oferta é agressiva demais, o planejamento de controle de acesso se torna o ativo mais importante para evitar que o marketing de celebração vire um passivo de reputação.
Entre a IA e a realidade do varejo
A repercussão foi tamanha que levantou suspeitas de que as cenas seriam fabricadas por softwares de manipulação de imagem. Entretanto, a confirmação do Queiroz Atacadão trouxe o debate de volta para o mundo real: o desafio de manter a ordem quando o benefício financeiro parece bom demais para ser verdade.
A tradição de promoção existe, mas será que confusão em corredores de supermercado deveria fazer parte do pacote logístico de uma grande rede regional?
O estabelecimento ainda não detalhou alterações nos protocolos de segurança para futuras campanhas, mas o mercado observa atentamente o desdobramento da marca. No setor de atacarejo, onde as margens são apertadas e o volume é o rei, ações como a de Assú servem de alerta para a necessidade de limites de compra por CPF.
Sem essa trava, o efeito manada compromete a integridade do estoque e, em última instância, a segurança de quem está na linha de frente do atendimento.
A resiliência do consumo popular
Para além da curiosidade do fato, o “miojo a um centavo” é um sintoma do comportamento do consumidor em cenários de alta competitividade no varejo alimentar. A busca por valor absoluto dita o ritmo das inaugurações no Nordeste, transformando aberturas de lojas em eventos sociais de massa.
Enquanto os preços reduzidos em iogurtes e melancias mantiveram a normalidade, o macarrão instantâneo — por seu valor simbólico de um centavo — tornou-se o estopim de uma demanda reprimida por oportunidades reais de economia.
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