
Dois milhões de ovos por dia. Esse é o novo patamar produtivo da Avine, empresa cearense fundada em 1992 que chegou a esse volume após injetar R$ 72 milhões em expansão, automação e modernização de unidades produtivas nos últimos três anos. O número, por si só, diz menos do que o contexto em que ele aparece: o Brasil produziu 5,4 bilhões de dúzias de ovos em 2024, recorde histórico, crescimento de 8,6% sobre 2023, segundo o IBGE, e o Sudeste ainda detém 40,4% dessa produção. O Nordeste, com toda a sua população e consumo, responde por 17,6%.
É nessa assimetria que empresas regionais como a Avine encontraram espaço para crescer. “Ultrapassar essa marca reforça a confiança dos consumidores, clientes e parceiros no trabalho que desenvolvemos ao longo dos 34 anos de atuação”, afirmou o CEO Airton Júnior em entrevista exclusiva. Para ele, no entanto, o marco é ponto de partida, não de chegada: o próximo ciclo da empresa passa por ampliar presença em novos mercados, fortalecer produtos de maior valor agregado e avançar num processo de internacionalização ainda em fase inicial.

Um setor em expansão, mas concentrado
A produção de ovos no Brasil cresce ininterruptamente desde 1999. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) projeta 265 unidades por habitantes para 2026. Uma das explicações é estrutural: com a carne bovina e de frango mais caras, o ovo se consolidou como principal alternativa proteica acessível. É importante frisar que também se tornou um alimento preferido no prato da turma fitness, que incluiu o ovo como grande aliado da dieta.
Ainda assim, a produção regional não acompanhou o ritmo do consumo. São Paulo lidera com 23,6% da produção nacional. No Nordeste, Pernambuco e Ceará são os estados mais dinâmicos: as contratações na avicultura de postura cresceram 76% no Ceará e 79% em Pernambuco em 2024, segundo o ETENE/BNB. Beberibe, no litoral cearense, aparece entre os cinco maiores municípios produtores de ovos do país no levantamento do IBGE, ao lado de nomes do Sudeste como Santa Maria de Jetibá (ES) e Bastos (SP).
São exatamente Pernambuco e Ceará que Airton Júnior aponta como os mercados de maior crescimento atual para a Avine. A lógica é direta: “Como nossa atuação é muito focada em supermercados e atacarejos, estados com grande abertura de lojas tendem a crescer mais em oportunidade para nossa atuação”, explicou o executivo. A empresa distribui produtos em 12 estados do Norte e Nordeste, mas não planeja, por ora, avançar para outras regiões. “Entendemos que há muito trabalho para ser consolidado na região Norte e Nordeste e acreditamos que podemos continuar crescendo com um trabalho consistente aqui. Investimos fortemente em tecnologia, automação de processos, ampliação da capacidade produtiva e fortalecimento dos nossos controles de qualidade, garantindo que o aumento de escala acontecesse sem abrir mão dos padrões que sempre caracterizaram a Avine”, disse.

O consumidor nordestino e a fragmentação do mercado
Operar no Nordeste não é operar num mercado homogêneo. Airton Júnior descreve um cenário de preferências que variam não apenas entre estados, mas dentro deles. “Pode acontecer de dentro de um mesmo estado termos características de consumo completamente diferentes, cidades em que a demanda por ovo vermelho é muito maior que por branco, ou a demanda por dúzia é muito grande em relação às bandejas de 20 e 30 ovos”, detalhou. Há ainda a variável do ovo de codorna: “Temos estados onde a demanda por ovo de codorna é maior que em outros.”
Essa fragmentação é um dado relevante para entender por que empresas regionais, com capilaridade e conhecimento de praça, conseguem competir com grandes produtores nacionais que operam com portfólio mais padronizado. A Avine distribui ovos tradicionais em diferentes tamanhos e cores, caipiras, cage-free, enriquecidos com ômega-3 e vitamina E, além de ovos de codorna e produtos pasteurizados voltados à indústria e ao food service.
A empresa gera cerca de 1.200 empregos diretos e indiretos. O CEO enquadra a operação como parte do desenvolvimento econômico do estado: “Quanto mais fortalecemos nossa operação, mais contribuímos para consolidar o Ceará como referência nacional em produção agroindustrial, inovação e geração de valor no agronegócio.” O setor de ovos no Brasil deve fechar 2025 com produção estimada em 62,25 bilhões de unidades, alta de 7,9% sobre 2024, segundo a ABPA. O Nordeste pode ampliar sua fatia nesse crescimento, mas isso depende de quanto capital continua chegando à região num setor ainda concentrado no Centro-Sul.
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